domingo, 26 de abril de 2015

No passado a tecnologia aproximou as pessoas. Hoje, abre um abismo

Não tenho a menor pretensão de interferir em condutas, comportamentos, hábitos. É só uma opinião, e sempre digo que opinião não é palavrão.
Desde que o satélite russo Sputnik foi lançado, em 4 de outubro de 1957 a comunicação no planeta sofreu uma revolução. Nos anos 60, 70, 80, 90, 2000 as distâncias foram diminuindo, ligações telefônicas tornaram-se imediatas, as transmissões ao vivo pela TV e rádio viraram rotina.

Hoje, com nossos smartphones ligamos para a China de qualquer muquifo, em muitos casos sem pagar nada; acessamos a internet, e blá blá blá. A humanidade ficou mais próxima de si mesma. Ao mesmo tempo, muito mais distante. E olha que sou árduo defensor da tecnologia.

As redes sociais aliadas a programas de contato imediato como Whatsapp, Viber estão acabando com o contato pessoal. Um dia desses eu estava em casa de uns amigos e o filho, no quarto, mandou uma mensagem pelo Whatsapp para a mãe, que conversava conosco na varanda. Ela comentou que já pensou até em vender seu smartphone e comprar um celular comum, sem internet, só com voz. Motivo: “as vezes fico o dia todos sem vê-los (os dois filhos).” Comentei que de fato ainda não existe afeto digitalizado e tal, e o papo deu uma brochada. Todo mundo parou para pensar.

Meses atrás, quando o prefeito do Rio anunciou o tal dilúvio que não veio, passei o dia em reuniões em Botafogo, Leblon e Ipanema. Ninguém me ligou, mas recebi várias mensagens por Whatsapp alertando sobre o temporal. Nenhuma ligação do tipo "alô, meu chapa, tudo bem? Olha, vai cair o maior toró!". Só mensagens digitais. Nem SMS (antigo torpedo, que há quem diga que virou fóssil), só programas que exigem que o smartphone esteja conectado a internet. Se eu decidisse não usar o 3G Não receberia mensagem nenhuma.

Aliás, rompi com a internet em 3G. Motivo: calça de veludo ou bunda de fora. Ou uso WiFi ou nada porque 3G e nada são a mesma coisa e, além do mais, não estou aqui para sustentar marmanjos especuladores do mercadão das telecomunicações. Dizem que a 4G é melhor, mas ando numa fase trapista e só vou trocar meu smartphone que não tem um ano daqui a...

Está havendo um exagero no uso das novas tecnologias. Médicos se relacionam com pacientes por escrito, mexem em dosagens de remédios via WWW; bate boca de comerciantes e clientes também são uma realidade e sei de muitos casos de pessoas que, em vez de reclamar com o vendedor de uma loja sobre problemas com determinado produto, preferem acessar o site Reclame Aqui, muitas vezes transformando um fato que poderia ser resolvido olho no olho numa tragédia virtual; em dias de aniversário, no lugar daquele telefone amigo cheio de energia está valendo um texto padrão no Facebook. Muito esquisitos esses novos tempos.

Desde o início dos anos 1990 uso a internet, que Darcy Ribeiro (saudade desse cara) muito bem definiu quando disse que "depois da fala e da escrita a internet é a maior invenção do ser humano". Sem a internet minha vida ia se complicar porque trabalho arduamente com mídia e afins, logo, preciso me comunicar com agilidade. Mas, na vida pessoal prefiro encontrar meus amigos num bar, dar uma volta de carro ouvindo música, consultar médicos olho no olho, desejar feliz aniversário falando ao telefone, enfim, não sou exemplo para ninguém mas prefiro humanizar ao máximo a tecnologia.


Estou certo? Estou errado?