sábado, 18 de abril de 2015

O surfboard da Itapuca, o LSD de Allen Ginsberg e a falsa solidariedade dos canalhocratas

Andei procurando esse texto. Bom que achei.

Eu devia ter uns 13 anos quando envolvido pelas ondas do mar da Itapuca (Niterói), onde pegava surf de peito (hoje bodyboard), decidi virar surfista profissional. Enquanto esperava boas ondas, de preferência bem altas e quebrando devagar, fazia meus planos. Faria um curso intensivo e totalmente empírico de surf com o amigo Jiló (um dos melhores do Brasil), terminaria o ensino médio e cairia dentro nos campeonatos, do Brasil e do mundo  para décadas depois aposentar a prancha e ir viver com mulher e filhos em Arembepe, Bahia.

Certo de que surfaria bem (não fazia feio encarando ondas de peito) no futuro rodaria pelo planeta em busca de ondas e de uma situação financeira que pudesse me manter na boa, sem sufoco. Não tinha idéia, naquela manhã meio fria, que um dia o surfboard se tornaria uma indústria milionária, cheia de patrocínios e grandes oportunidades, coaching, informática de ponta.

O plano ficou me martelando aquele ano. De fato eu queria ser um surfista e a única pessoa que sabia disso era meu saudoso tio Evaldo, irmão de minha mãe, com quem eu compartilhava minhas dúvidas, angústias, ansiedades de adolescente. Sentei com ele num bar em São Francisco e expus minhas idéias. Liberal, cabeça boa, democrata, tio Evaldo me deu a maior força mas garantiu que, lamentavelmente, meu plano não daria certo. Por que? Porque surfar era caro, muito caro e eu não teria condições de arranjar bons patrocinadores porque, quisesse ou não, era um principiante.

Nos dias de hoje, meu tio Evaldo seria a pessoa ideal para abrigar meu verbo, minha fala (que anda aflita) minhas angústias que andam me atormentando. Provavelmente iríamos para um bar em São Francisco onde eu me abriria e ele, jeitão super gentil, a certa altura da conversa iria dizer “chore, meu sobrinho, pode chorar...ninguém está olhando”. Ele tinha esse faro. O faro dos generosos, dos solidários, o faro das pessoas que só vivem felizes quando os outros também estão. O faro dos sonhadores que não só acreditam, mas que efetivamente dão duro para que isso aqui fique melhor, menos sonso, menos cínico, menos boçal.

Tio Evaldo não praticava o hediondo marketing do bom mocismo, da falsa solidariedade piegas e micro burguesa dos canalhocratas e mergulhava fundo em busca de soluções para os dramas dos amigos, muitos deles artistas do Tropicalismo, outros altos executivos de multinacionais, alguns boêmios bêbados. Meu tio foi a única pessoa que não se chocou ao ver debaixo de meu braço “O Uivo”, de Allen Ginsberg, me flagrando beatnik (eu queria ser beatnik, com todos os sons, absintos e drogas inclusos), que era sim um movimento anárquico e com fortes inclinações comunistas, num tempo em que a ditadura no Brasil, por achar que comunistas comiam criancinhas, torturaram e matavam os militantes nos porões. Que bobagem. A abertura política mostrou que os comunistas brasileiros são uns merdas, indolentes, larápios mamando nas tetas do poder, vendilhões medíocres, incapazes de saber o que foi “O Uivo”, o que foi “Ginsberg, o que foi meu tio Evaldo.

Voltando ao surfboard concordei com meu tio, banhado de frustração. Tanto que cancelei o curso com Jiló. Melhor não saber surfar do que aprender e não poder me dedicar 24 horas por dia. Agradeci a meu tio por mais aquela demonstração de paciência e fui embora para casa. A pé. Morava em Icaraí (bairro de Niterói), meu tio quis me dar uma carona de carro, mas eu precisava caminhar. E foi o que fiz.
Voltei a estudar. A princípio faria medicina e fui parar no Curso Miguel Couto, Centro do Rio, onde conheci grandes figuras de quem me tornei amigo. Fiz vestibular e, como era de se esperar (não me entendi com a química inorgânica e nem ela comigo) levei bomba. Fiz outro para Comunicação e passei em oitavo lugar. O futuro médico foi estudar jornalismo.

Mas toda a vez que o mar ficava grosso eu ia ver os caras surfarem. Não perdia uma ressaca. Rio, Niterói, Itaúna (Saquarema) eu vivia entre os surfistas sem saber surfar por razões que já expliquei. Na faculdade decidi que seria dono de uma revista de surf, de preferência na Califórnia e cheguei a conversar com um colega que me convidou para fazer uma revista de ciência. Até fizemos e ficou boa. Esse cara me disse que eu só conseguiria fazer uma revista de surf se dominasse completamente o inglês e a área comercial (vender anúncios). Como eu não me garantia nessas áreas, decidi virar platéia eterna do surfboard e partir para uma vida profissional viável, concreta, como, graças a Deus, consegui e consigo.

Pus essa bela foto aqui na Coluna porque é tipo do trabalho que sei fazer. Ligar câmeras, enquadrar pranchas e ondas e depois editar com uma grande trilha sonora. É o que pretendo fazer, um projeto para 2016, um grande vídeo de surf cheio de músicas maravilhosas e dedicar a meu Tio Evaldo. É a tal lei das compensações.