segunda-feira, 27 de abril de 2015

“Refratações”*: a pancadaria entre Freud e Jung e uma questão: as guerras amadurecem?

* Palavra inexistente                                                

Jung (a esquerda, sentado na escada), Freud (calção quadriculado 
a direita) e dois amigos numa casa de banho turco
Prólogo – “Minha ideia sobre Deus está formada pela profunda convicção emocional da presença de uma força racional superior, que se revela no incompreensível do universo” (Albert Einstein); “Não posso dizer “eu creio”. Eu sei! Tive a experiência de ter sido capturado por algo mais forte do que eu, algo a que as pessoas chamam Deus” (Carl Gustav Jung).  

A partir dessa experiência abissal, Jung descobriu o poder do espírito e a sua relação com o mentor Sigmund Freud, que já vinha se despedaçando ruiu de vez. Contam os livros que os dois estavam numa cabine de trem, em 1914, indo para Hamburgo. Jung já não suportava mais o que teria chamado de “reducionismo materialista” de Freud. Esse, por sua vez, também sentia náuseas quando o discípulo falava de inconsciente coletivo, Anima, Animus, espíritos... Foi aí  que um destemperado Freud, na cabine do trem, teria gritado “fique então com esse lixo, essa lama que são os seus espíritos”.

De acordo com Felipe Luis Melo de Souza, “com o rompimento definitivo em 1914, quando Jung deixa a presidência da recém criada Associação Psicanalítica Internacional, inicia-se a querela de atribuição de epítetos depreciadores de ambos os lados. (...) A crítica da exacerbação da sexualidade na obra do pai da psicanálise - que é feita frequentemente - esquece-se de que Freud e Jung possuíam o mesmo sonho inicial, o Falo.”

Fiz psicanálise freudiana (até a alta), existencialista (interrompida porque o terapeuta desistiu desse caminho e viramos amigos) junguiana (me dei alta), voltei para a freudiana (nova alta) e hoje estou conhecendo a Gestalt (conhecendo e gostando da ausência de teorias pouco úteis), até descobrir que avalanches inconscientes, caos, angústias, memórias, sonhos e reflexões não tem alta. Por que? Porque a alta da vida é a morte.

Apesar de analisado desde a adolescência, jamais em tempo algum abrir mão da minha visceral, radical, inquestionável fé em Deus. Jamais! E os meus analistas nunca me questionaram a respeito. Ninguém me ensinou a crer em Deus. Ninguém. Simplesmente aconteceu, como um vendaval, uma chuva de outono, enfim, Deus está em meu cotidiano como a água, o sono, a comida, o afeto.

Sobre Deus, quando estou batendo papo e meus interlocutores começam a detona-Lo, fico quieto. É automático. Quando reparo, estou olhando para uma bela mulher, lembrando de uma música, enfim, me abstraio como se queimasse um fusível interno.

Tempos atrás dois amigos (um religioso o outro ateu) batiam boca no Velho Armazém, antigo bar da orla de São Francisco (Niterói, não Califórnia), que infelizmente fechou, por causa do tema “por que Deus deixa acontecer as guerras?”. Aquilo não ia prestar e, de fato, vários chopes depois tive que intervir antes que rolasse grossa pancadaria ali mesmo.

Eles se desculparam, sugeri que mudássemos de assunto mas, na boa, minha noite deu uma amargada, tanto que fui o primeiro a pedir a conta e voltar para casa. No caminho de volta pensei que até os livrotes vagabundos tricotam freneticamente sobre o renascimento de nações que foram dizimadas por guerras. Inglaterra, Alemanha, Itália, China, Japão. A Coréia do Sul, depois de ser destruída nos anos 50/60, passou todo mundo e hoje é o país-modelo em educação. Isso sem falar em tecnologia, distribuição de renda, etc.

Já aqui no Brasil...bom na Câmara dos Deputados, que nós elegemos, a prioridade máxima continua sendo aumentar o faturamento. Deles. Li também que, além da podóloga e da consulta médica, subiu tudo. Normal, não é?
Apelo aos antropólogos e outros ólogos. Se o Brasil tivesse encarado guerras tudo mudaria ou nada mudaria? Sabe aquela antiga teoria de que o ser humano só cresce com dor, sob tensa, densa, intensa crise?? Ela se aplica a nações? O Vietnã viveu em guerra de 1910 a 1975. Japão invadiu, França invadiu, Estados Unidos invadiram. Só na guerra contra os Estados Unidos morreram 1 milhão e 500 mil vietnamitas que, em nenhum momento, largaram o osso. Foram até o fim e botaram os americanos pra fora com memoráveis chutes na bunda. Hoje o Vietnã já é quase um “tigre asiático”, com índices econômicos invejáveis, educação, saúde, etc.                                                

Parto de um princípio de que a culpa não é de quem faz, mas de quem deixa fazer. Exemplo: se puserem um caixa eletrônico em cima da Pedra do Arpoador a culpa será do banco ou da prefeitura? Com a passividade popular e eleição é a mesma coisa. A passividade popular homologa os desvios. As eleições sacramentam. Em outras palavras, qualquer pau de enchente que esteja no poder num regime democrático, o aval (culpa) é nosso.

Não vou citar exemplos de outros países que venceram o arbítrio/corrupção/canalhice porque todos (sem exceção) usaram a truculência. Mussolini foi pendurado num poste, americanos jogaram coquetéis molotov em postos de gasolina que aumentaram preços no crash de 1929, enfim, não encontro um exemplo de vitória popular que não passe pela luta. Física. Logo, como sou pacifista, fecharei a cisterna.                                     

Não estou defendendo ninguém e muito menos atacando. Estou apenas refratando diante do que vejo, sinto. E o que a História me conta, sussurrando de madrugada, é que por coincidência os povos regidos por fanatismos religiosos são os mais manipulados e miseráveis.

Os povos da Índia e África, em sua maioria, são hordas de mortos-vivos dopados por crenças fanáticas que não deixam enxergar que os seus governos roubam, matam, achacam, em nome desse mesmo fanatismo.

Para mim nada é possível sem Deus. Querem saber? Para mim tudo é impossível sem Deus. Não tenho lastro teológico algum para afirmar que Deus discorda do fanatismo religioso, mas tenho o direito de imaginar que Ele não concorda. Fanatismo paralisa, enlouquece, dopa. Fanatismo quando decreta que orelhão é sagrado os seguidores batem palmas quando o Estado não instala orelhão nenhum.

Fanatismo quando determina que peixe é sagrado seus seguidores autorizam o Estado a não investir nada em indústria pesqueira. Mao Tse Tung radicalizou quando sentenciou que “a religião é o ópio do povo”. A religião não, mas o fanatismo, mais do que o ópio, é pior do que heroína.

Por que somos tão submissos? Faltou guerra? Faltou o olhar do invasor dentro da nossa casa citando Renato Russo : “eu sou a sua morte/ vim de fazer companhia”? De vez em quando vejo carros com adesivos “Basta isso”, “Basta aquilo”. Bastar como? Como se “basta” a lambança? Como se basta o arbítrio, a corrupção, tráfico de vidas?  Out-estima, digamos.

Fato é que a gemedeira e a vitimologia continuam por aí. Continuamos pagando a tal taxa de “assinatura” dos telefones, engolindo o “matematicalogismo” que aumenta planos de saúde, luz e salários de deputados. Qual é o critério? A submissão? Qual é a saída? Quem é o inimigo, quem é você?