sexta-feira, 17 de abril de 2015

Renato Russo, o trovador solitário segundo a nobreza existencial de Arthur Dapieve

                                                                           


  Arthur Dapieve
O que era uma conjectura tornou-se, para mim, uma verdade quase absoluta: Renato Russo morreu de Aids, mas em decorrência direta da solidão, aguda solidão, que o torturou no início, meio e fim de sua breve trajetória por este planeta. Graças a um livro extraordinário chamado “O Trovador Solitário”, escrito pelo colega Arthur Dapieve, tive acesso a vida, a obra, ao caos afetivo de um dos maiores artistas contemporâneos brasileiros, que teve a sua biografia escrita sob o signo da nobreza existencial rara do Dapieve, um grande jornalista, escritor, um grande sujeito.

“O Trovador Solitário” foi lançado no ano 2000, já ganhou várias edições e a que o Dapieve me presenteou, autografada, é a mais atual. Esperava um livro sombrio, já que a biografia do Renato que nos foi passada é dura, seca, cheia de contornos mórbidos, mas o autor conseguiu estabelecer vários pontos de equilíbrio na lamentavelmente curta mas intensa linha do tempo do cantor e compositor.

Fui apresentado a ele formalmente nos tempos de Rádio Fluminense FM. Troquei meia dúzia de palavras com aquele cara sério, muito sério, roupas simples e que não conversava com qualquer um. Amigos meus que conviveram com ele também o descrevem como um homem sério, olhar atento, de poucas palavras. Daí o valor deste livro, que nos faz chegar perto da vida real de Renato Russo.

Arthur Dapieve em nenhum momento bota panos quentes em “O Trovador Solitário”, mas o tempo todo mantém conectada a relação causa/efeito mantendo vivo o diálogo caos-Cosmos em todas as páginas do livro, passando para o leitor a certeza de que nada foi à toa na vida do criador e líder da Legião Urbana. Nada. Foi tudo caos. Foi tudo Cosmos. Foi tudo.

O livro revela, por exemplo, que a disciplina do Renato com o trabalho era radicalmente cartesiana, de um perfeccionismo muitas vezes atroz. Quando ele inseriu o verso “Disciplina é liberdade”, na canção “Há Tempos”, falava de si, de seu cotidiano. O Renato que eu imaginava meio bicho solto, chegado a um improviso, simplesmente não existiu. Dapieve fala de ensaios diários de horas e mais horas de duração até que tudo ficasse como Renato exigia. Mais: ele chegava e todos os músicos (em especial os músicos convidados) tinham que ter todas as canções perfeitamente prontas para o ensaio. Uma nota fora e Renato caia de esporro.

O Renato que virava noites ao telefone com os amigos, falando de música, de discos, de livros, de suas angústias, amores não correspondidos convivia com o marechal dos estúdios. Era o Renato só que escancarava essa solidão publicamente e cujo dia a dia chegou a mostrar em algumas canções. “Feche a porta do seu quarto/Porque se toca o telefone/Pode ser alguém/Com quem você quer falar/ Por horas e horas e horas (“Eu Sei”).

Nos últimos anos de vida, Renato Russo compôs como nunca, gravou como nunca, comprou discos (especialmente de música clássica) como nunca, se drogou e bebeu como nunca. Nas crises de desespero, solitário em casa, recorria ao telefone para falar com amigos. Tempos depois, parou com o álcool e as drogas, teve recaídas, mas o trabalho com certeza prolongou sua existência.

Com a querida amiga Gilda Mattoso, assessora de imprensa de Renato e da Legião ele pediu que ela o levasse a Itália para conhecer suas origens (família Manfredini), num tour de oito dias, que também também serviu para pesquisas sobre música italiana, repertório de seu álbum “Equilíbrio Distante”

Arthur Dapieve preserva o seu biografado do dramalhão, do coitadismo e reconhece nele a força, dignidade, muita hombridade. Por isso, acho “O Trovador Solitário” leitura obrigatório para quem se interessa por vida.