domingo, 3 de maio de 2015

Sorria, você está trabalhando de graça

Virou moda. Além de abrirem espaço para cantores-colunistas, de qualidade para lá de discutível, muitos meios de comunicação estão transformando a vaidade de seus leitores em trabalho gratuito e eventualmente sujo.  Você entra no site do jornal e está lá “seja um repórter, envie sua foto ou vídeo via Whatsapp para cá. Clique aqui”. Só não escrevem “clique aqui babaca porque assim você estará fazendo o serviço sujo (dirty job in english) trabalhando de graça e ocupando o lugar de um profissional da imprensa, entendeu fadinha?”

Não é só o bancário que está em extinção. O jornalista também. Por falar em repórter, já que o programa é chato pra caceta não custa dar uma de chato. Repórter não é profissão, é função. Profissão é jornalista, função repórter, logo o programa Profissão Repórter além de chato foi batizado por um analfamídia digamos assim.

Quando cai um temporal você pega sua câmera digital e click click click entra no Whatsapp e manda para um jornal, para uma revista, para uma emissora de TV? Sim? Tks, tks, tks. Trabalhando de graça, minha cara, meu caro ou similares? Vamos supor que sua foto (ou gravação de imagens em movimento) saia no jornal/TV/site no dia seguinte com seu nome, você fica todo arrepiado? 
Fica? Com os pelinhos em pé como os de Leopoldina na primeira noite de núpcias com D. Pedro na Quinta da Boa Vista, cuja cruza foi tão intensa que até os cavalos relinchavam nas cocheiras a 100 metros de distância? Pois saiba que você está ajudando a desempregar jornalistas a rodo.

Me disseram que a tecnologia vai acabar com o repórter. Pode ser. Posso falar em português casca grossa? Posso? Então tá. Tenho lido muita bobagem em sites de jornais. Um dia desses um repórter escreveu ”haviam (o erro começou aí, não há plural) muitas lamas (ai!) nas ruas”. Erro de quem? Para começar desse hábito perverso de transformar estágio (em tese, ferramenta de aprendizado) em mão de obra barata. Falham também os ensinos fundamental e médio que não ensinaram esse adorável protozoário a escrever português. 

Ou, pior, não obrigou essa mula sem cabeça a ler, ler, ler até estranhar a palavra “lamas”. Estranhamento do tipo “gozado, por que lamas não me cai bem?” Vai constatar que lama não tem plural, mas com certeza ele tem MBA.
Como você se sente trabalhando de graça? Fala pra mim? Fala no meu ouvidinho. É gostoso esse frisson depois do sul da espinha, essa aflição alucinada de ver uma foto sua publicada no jornal? Que gracinha. Diga mais: quando você pensa “em vez de mim, um profissional deveria estar fazendo este trabalho” o que você sente? Pior: sua foto é uma bosta, mas as editorias de hoje estão mais flácidas, hímens muito complacentes por causa do terror do desemprego. Publicam fotos sem definição, desfocadas, mal enquadradas e você, aflitinho, ligando pros amigos, dando dinheiro para as operadoras de celular? É assim? Você já pensou em.....em...operar um cérebro? Sim, dar uma de neurocirurgião, numa boa, com a mesma consumição que te faz fotografar para jornais? Já? Então opera, baby! Que tal projetar uma casa? Ou construir uma usina nuclear? Não é vale tudo, baby?


Ah, sim, há quem mande fotus com testuz. Neste caso é só dar descarga e ir embora.