sexta-feira, 5 de junho de 2015

Prefeito Rodrigo Neves, armar a Guarda Municipal é, no mínimo, irresponsável de sua parte

                                                  

Excelentíssimo Senhor Prefeito de Niterói, Rodrigo Neves

Estarrecido como boa parte da cidade (gosto de andar por Niterói ouvindo os concidadãos) li a reportagem do Globo-Niterói desta sexta-feira, dia 5 de junho.

Manchete: Niterói inicia processo para que agentes da Guarda Municipal atuem com armas de foto. Reportagem de Igor Mello.

“Niterói está prestes a ser a primeira cidade da Região Metropolitana do Rio a contar com guardas municipais armados nas ruas, a exemplo do que já acontece em cidades como São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória e Curitiba — como antecipou O GLOBO-Niterói em novembro. A prefeitura iniciará na semana que vem o processo junto à Polícia Federal (PF) para permitir à Guarda Municipal (GM) operar com armas de fogo. De acordo com o prefeito Rodrigo Neves, as tratativas começaram na semana passada, durante uma visita às obras do Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp). Na semana que vem, a prefeitura deve apresentar o protocolo de intenções, documento que inicia o processo junto à PF.(...)”

Andei por Icaraí e Ingá. Mais tarde, de carro, fui a São Francisco e Santa Rosa para resolver assuntos pessoais, mas sempre abordando as pessoas sobre o assunto. Senhor prefeito, a maioria acha que armar a Guarda Municipal seria inconstitucional. Não sabiam que a presidente Dilma Rousseff assinou a Lei número 13.022 de 8 de agosto de 2014 que, secamente, diz em seu artigo 16o.:


“Aos guardas municipais é autorizado o porte de arma de fogo, conforme previsto em lei.” 

Sabemos que no ano que vem haverá eleição municipal e que o senhor vai concorrer a reeleição, mas penso que tudo na vida (até na vida política) tem um limite. Responder a angústia da população de Niterói, refém do crime, da bandidagem, do descalabro administrativo transformando a Guarda Municipal numa milícia, me parece insano.


Pelo que ouço nas ruas (e aqui nesta Coluna) é que as pessoas exigem que o senhor arranque do governador mais policiais para a cidade. A população sabe muito bem que com a instalação das UPPs no Rio, boa parte do crime organizado mudou-se, com  seus AK 47 e AR 15, para Niterói. 

Penso que caberia ao senhor, como prefeito, exigir que o governador tomasse várias atitudades, resolvendo, por exemplo, essa infame situação do 12o. Batalhão da PM que atende a Niterói e Maricá, que conta com minguados 700 e poucos homens. O que é isso? Como o senhor admite isso? Pior: em 1974, antes da fusão com o Rio, o mesmo 12o. Batalhão tinha cerca de 1.800 homens.


Mas ao que parece segundo a sua ótica, armar a Guarda Municipal dá mais visibilidade eleitoral. Será? Não quero nem entrar na questão partidária, que o senhor como uma estrela do PT, teoricamente teria força junto a presidente Dilma, também petista, para melhorar as coisas por aqui. Não irei por esse caminho. O que nos assombra é, da noite para o dia, armar mais de 400 homens e mulheres de uma Guarda sem consultar a população. 

Ano passado, um leitor de 87 anos, me mandou um e-mail diendo que estava precisando de uma informação sobre uma linha de ônibus, ali na rua Barão do Amazonas perto do Jardim São João. Eram duas da tarde e dois guardas municipais caminhavam. Ele se dirigiu aos dois, perguntou pela linha de ônibus e sabe o que ouviu?. “Isso não é conosco”. Os dois viraram as costas e seguiram frente.

O senhor dirá que é um episódio “pontual”, mas eu quase fui destratado por um guarda seu no Campo de São Bento, também no ano passado, quando defendi uma idosa, flagelada, pobre, que o guarda queria por para fora do lugar. Ela não fazia nada, apenas descansava numa sombra. 

Esqueci o escabroso valor do IPTU que pago, ignorei o fato de ser um cidadão e decidi resolver de homem para homem. Senhor prefeito, se o seu guarda estivesse armado teria me matado, com certeza, mas, desarmado, ele não atirou  e nem jogou “a velha fora” (ele disse isso!) e se afastou de mim. Várias pessoas, contribuintes como eu, apoiaram a pobre senhora.

Não sei onde o senhor nasceu, nem onde passou a infância e a adolescência, mas com toda a franqueza acho essa sua insana atitude típica de quem não conhece a população desta cidade; solidária, generosa, pacífica. Preparar homens armados é um problema grave para as Forças Armadas (sou reservista, filho de oficial de alta patente reformado), para a Polícia Militar (basta ler os jornais), enfim, é uma questão dramática.

O senhor acha que pode armar uma guarda do dia para a noite, a toque de caixa. Mesmo com o suporte da Polícia Federal eu e várias pessoas achamos que o seu governo vai abrir a era do banho de sangue. Até as pessoas que o criticam, afirmando que sua prioridade é fazer o povo andar de bicicleta, deixaram esse e outros temas de lado (saúde um caos, por exemplo) por causa dessa nova milícia que surge no horizonte, com a sua chancela, anuência e empenho.

Exagero meu? Não, senhor prefeito. Não é exagero não. 

É vivência.