terça-feira, 16 de junho de 2015

Fernando Brant, Milton Nascimento e o Clube da Esquina em Niterói

                 
Bela e merecida homenagem
Beto Guedes, Milton e Lô Borges. Praia de Piratinga, Niterói.

        Fernando BRant e Milton
Esquerda para a direita: Toninho Horta, Nelson Angelo, Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Beto Guedes recentemente.
A morte de Fernando Brant, sexta-feira passada, me esmurrou pesado. Todo mundo (?) sabia que ele era o conspirador-mor do Clube da Esquina, aquela entidade informal (que muitos taxaram de imoral) que tomou Minas Gerais na virada dos anos 1960 para 70 tendo à bordo Miltol Nascimento, o Fenando, Beto Guedes, Lô e Márcio Borges, enfim, não vou ficar repetindo.
A nova conspiração mineira tomou o Brasil e mostrou ao público uma nova MPB, claramente influenciada pelo rock, pelos Beatles, por François Truffaut (eles viram “Jules et Jim” pelo menos 50 vezes, Milton me disse em entrevista em 1987) pela vanguarda da vanguarda da vanguarda mas movida pela genialidade da poesia das Gerais, seus trilhos, trilhas, ferro, aço, diamantes. Fernando Brant, via Milton e todos os outros, mostrou a sua pena, a sua escrita, onde despejava a alma sem cerimônia e tornou-se um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.
Lembrei de um texto que publiquei aqui em 30 de junho de 2012:
Esperei para assistir ao programa Som Brasil na Globo, que fez uma homenagem aos 40 anos do Clube da Esquina. Abriu com Milton Nascimento e Lô Borges cantando “Para Lennon & McCartney”, canção que (pouca gente sabe disso) foi composta na casa de O “Clube” alugou na praia de Piratininga, em Niterói. Eles teriam se trancado na casa com um pacto: só poderiam sair quando Fernando Brant, Lô e Márcio Borges terminassem de compor a música. Estamos falando do início dos anos 70, quando o Clube da Esquina, que nasceu em Belo Horizonte depois de assistir a mais de 50 vezes a “Jules et Jim”, de François Truffaut, detonou a nova música popular mineira. Genial!
O programa foi ótimo. Fernanda Takai, a meu ver, foi o grande destaque e enquanto assistia, notando que o sereno apertava lá fora, a memória entrou em cena. Conheci Milton pessoalmente na sala de baixo da casa do saudoso médico e terapeuta José Maria Monteiro de Barros, que ficava numa vila entre as ruas Álvares de Azevedo e Pereira da Silva, na Praia de Icaraí. Lembro bem. Eu estava sentado no sofá de baixo pensando na vida e contemplando os peixes que o Zé gostava de criar num aquário que ficava encostado na parede. De repente, descendo a escada, vi aquele homem magro, negro, com um boné. Demorou a cair a ficha: era Milton Nascimento, de macacão jeans, completamente “Bituca” seu apelido desde Três Pontas, MG. Na época eu trabalhava como repórter da Rádio Jornal do Brasil AM, a mais respeitada do Brasil e quando Milton vinha passando em frente ao aquário me apresentei.
Acabei engatando um papo que, garanti, jamais seria publicado. Milton encheu a bola do nosso Zé Maria e fomos ele e eu, caminhando pela vila por volta das 11 da noite. Milton não é falador, ao contrário, parece mudo, mas não resistiu quando viu a lua cheia bem em cima de nós.
Lá em Piratininga a lua era igual”, sorriu mansamente. Acabei perguntando um pouco mais sobre a estada do Clube da Esquina (ele, Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant no comando) em Piratininga e o grande cantor e compositor disse que foi um dos melhores períodos de sua vida. Sorrindo levemente confirmou que “Para Lennon & McCartney” foi feita lá, mas “para que terminássemos a música, tivemos que trancar a porta da casa e proibir a saída de qualquer um. O Fernando quase enlouqueceu.”
Bom, um carro o esperava na esquina da Praia com a vila do Zé Maria e ele foi embora. Antes, marcamos uma entrevista para uma semana depois, entrevista essa que acabou acontecendo com a participação de Zé Maria (saudade que eu sinto dele) na Fiorentina, no Leme, que era uma extensão de seu consultório.
O papo começou por volta de 10 da noite e saímos de lá por volta das 3 horas da manhã. Zé, Milton e uma amiga do mineiro com olhos de diamante chamada Cristiana. Foi uma das melhores entrevistas que fiz em todos esses anos de jornalismo e quase a coloquei no meu livro MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA SELVA DO JORNALISMO. Seria uma homenagem que desejei fazer ao Jornalismo, a Zé Maria, ao Milton, cujos discos “Minas” e Geraes” não saíram de meu toca-discos ao longo de anos e, é claro, ao Clube da Esquina de Piratininga. Ali em “Minas” está a melhor versão de “Paula e Bebeto”*, parceria de Milton com Caetano.
Fiquei muito feliz em saber que Milton Nascimento guardou a minha cidade, Niterói, com carinho em seu cofre afetivo. Como ele viveu histórias incríveis na minha terra. Impressionante. E essas histórias foram só uma parte. Fico aqui imaginando o que ele deve ter contado pro José Maria Monteiro de Barros, nosso terapeuta, amigo, enfim, o que posso dizer de um gênio afetuoso e que dedicou a vida aos outros?
Ao Fernando Brant, uma homenagem rústica e breve. Uma lembrança de seus tempos de ondas, céu azul, gaivotas, coração americano e tudo mais.