terça-feira, 2 de junho de 2015

Na TV, a incrível história das entrevistas do Pasquim

O secular colega  Ricky Goodwin, editor das célebres entrevistas do Pasquim, vibra muito. Com razão. Está confirmada a série “As Entrevistas do Pasquim” no Canal Brasil. Serão 13 episódios, dirigidos pelo Ricky, que deverão estar no ar em outubro.     

Parido quase clandestinamente em 26 de junho de 1969 por Ziraldo, Henfil, Jaguar, Paulo Francis, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Flávio Rangel, enfim, pela grossa flor da intelectualidade carioca, o jornal conseguiu desmoralizar a imoralidade, se é que isso faz algum sentido.

Comecei a escrever no Pasquim em meados dos anos 70 e, acima de tudo, convivi cara a cara com meus heróis. Tive o privilégio de vê-los atuando, escrevendo, bebendo, brigando, criando, revolucionando, anarquizando, sacaneando, no quartel general do jornal que funcionava numa casa de três andares e dezenas de degraus de escadaria íngreme na rua Saint Roman, em Copacabana, dentro do morro do Pavãozinho.                                                                         

Além de artigos, participei de muitas entrevistas e escrevia também para as Dicas do Pasquim, páginas de notas curtas, ácidas, debochadas e verdadeiras como zarabatanas vietnamitas. Não sei quantas vezes cheguei no pé da subida da Saint Roman e fui obrigado a encostar num botequim enchendo a cara de caldo de cana porque o jornal estava invadido pela tigrada da ditadura (tigrada é uma magistral invenção de Élio Gaspari) que, indignada, eventualmente metia o pé na porta e revirava tudo, "just like a swindler justice officer" (como um oficial de justiça vigarista), diria Paulo Francis.

E, é claro, empastelava (amordaçava) aquela edição do jornal. Como eu ainda não era formado e Ziraldo cismava que era irmão mais velho do mundo, eu estava terminantemente proibido de me aproximar da casa. "Vai que você toma um 477 nos cornos seu put.....", ele explicava. Explico: 477 foi um decreto, filho do AI-5 que expurgava de qualquer escola ou faculdade elementos que a ditadura julgava "subversivos" ou "danosos ao bem estar da nação, a moral e aos bons costumes". Quer saber, caro leitor? Não sei como não tomei um 477 dentro da faculdade e quem estudou comigo sabe por que.

Jaguar, o ex-bêbado mais lúcido que conheço, elogiava minha disciplina. "Se você for em cana não vai sobrar ninguém pra dar a descarga". Gosto do Jaguar e ele diz que gosta de mim, mas faz uma ressalva: "você tem essa deformação etílica, essa mania de não beber e isso te joga no abismo de meus conceitos".                                                                  

Essa série de TV sobre as antológicas entrevistas do Pasquim vai fazer com que muita gente da nova geração conheça um país que, apesar do pau-de-arara, das perseguição, da covardia dos gorilas, conseguia criar, pensar, refletir. Não vou encher o saco com papo-cabeça dizendo que o Brasil já foi menos anta, mas o Brasil já foi menos anta.

Uma vez presenciei um ataque de fúria de Paulo Francis, dois dias após uma invasão da tigrada. Ele espumava e berrava "eu vou me imbecilizar, eu quero virar imbecil, ir pra porta do Ponto Frio pra ver fogão novo chegar e TV a cores passando jogo de futebol. Eu vou me lobotomizar no Maracanã lotado e brigar na arquibancada, apanhar e bater vestindo camisa de escroto...eu vou desfilar como alegoria de torturador-bicheiro-traficante-sambista na avenida porque eu sou uma alegoria popular. Eu sou um merda porque penso, reflito, sinto...mas ainda bem que bebo até cair (na época), exatamente como essa escrotália gosta!"

O Pasquim não era só risada. Aliás, só um búfalo pantaneiro acha que O Pasquim era um mar de gargalhadas. Não foram 30, nem 60 vezes que vi “dona” Nelma Quadros, amiga de todos nós (e minha em particular), chorar porque um "pasquiniano" havia sido preso, ou, pior, estava desaparecido. Não, eu não fui "pasquiniano" porque seria muita prepotência afirmar. Eu apenas escrevia no Pasquim e via os caras mandarem ver. Um deles (me concedo um off) tinha um estilingue. Estilingue do nordeste, borracha grossa, alta potência. Ia lá para o último andar da casa e, usando bilha de rolimã, acertava falsos funcionários da companhia telefônica (na verdade agentes da ditadura) que ficavam pendurados nos postes da Saint Roman ouvindo as conversas da redação. "Menos um!!!!", comemorava essa grande figura quando derrubava um deles.

Burra, a ditadura achava que as estilingadas partiam da favela e, como sempre se borrava de medo de favela, ficava quieta. As Veraneios pretas (camburões da Chevrolet que serviam as polícias oficial e clandestina) rondavam o jornal como hienas 24 horas por dia. Gozado, ainda hoje os camburões são Chevrolet, só que Blazer. Deve ser coincidência ou resíduo paranoico.

O Pasquim, apesar de nanico, era grandioso demais para abrigar a unanimidade, irmã mais velha da mediocridade. A primeira grande entrevista de Leonel Brizola, quando retornou do exílio, também foi ao Pasquim. Ídem com Gabeira e outros banidos que regressaram ao país depois da Anistia em 1979.

Nas asas do iconoclasta e imbatível humor carioca, O Pasquim não fez história. Ele fez a História. E eu vi quase tudo! Eu estava lá com os meus ídolos, jamais de igual para igual porque o temor reverencial ergue muralhas intransponíveis.

Mas percebi que quanto mais geniais eram os "pasquinianos" mais simples e generosos se mostravam no trato com os outros e com os erros dos mais novos. Tomei bronca, jamais esculacho, ofensa, humilhação. Mas ai daquele que não conhecesse Português e História. Felizmente nunca aconteceu de eu ter que perguntar quem era quem ou duvidar de um X , Z ou S. Talvez eles perdessem completamente a cabeça diante de um ato imbecil porque, como dizia Tarso de Castro "mula sem cabeça aqui dão come".