segunda-feira, 8 de junho de 2015

Trinta dias

                                                                               
Havia um banco de cimento bem perto da praia. Pequena praia, sem ondas, estreita faixa de areia, água muito clara, transparente, mais para verde do que para azul. A canção parecia brotar das nuvens, duas, brancas, destacando o azul profundo do céu limpo, sem fumaça, sem mordaça.

Deitado no banco de cimento, sorve o som da saudade de si. Por que não? Por que não deixar que a melancolia sopre a nuvem e produza o som dos tempos, da travessia das eras, das lutas, da vida dura levada a ferro e fogo? Por que ele, somente ele, não teria direito a sua melancolia, ao silencio de seus oceanos interiores, que ele não teve tempo de conhecer? Saudade e melancolia, antigas vizinhas, por mais novas que sejam as nuvens, por mais eterno que seja o céu.

Melancolia, um direito. Como a folia, a euforia, a delírio. Saudade, dona de sons típicos e raros, que brotam de nuvens brancas e vadias, mapeando o céu como se nada mais existisse. Existe? Deitado no banco de cimento, olhos fechados, ouvindo o som das nuvens, uma lágrima escorre do olho direito.

O homem é amigo. Parceiro. Desde o dia em que bateram em suas costas e disseram “é um menino”. Será suficiente? Ele não sabe. O mundo não é espelho, o afeto não é reflexo, a saudade é mais que sensação. Livre sensação.

Tem tentado tudo. Deitado no banco de cimento, cansado, reconhece o empenho, a luta, a solidariedade. Será suficiente? Não sabe, não pode, não quer perguntar. Impossível mensurar intenções.

Busca paz. Afeto. Cores. Nuvens. Saudade, muita saudade, de um tempo que não viu por absoluta falta de tempo. As nuvens tem a resposta, mas ele só as contempla. Quieto. Como uma música. Música do acaso. Música do sonho, da vontade, música do afeto. Profundo, azul, marinho afeto.

Afeto que não se encerra.

Jamais.