domingo, 5 de julho de 2015

Arembepe, Bahia. Saudade, saudade, saudade...


Arembepe conhece mais Gilberto Gil do que Caetano Veloso. Arembepe conhece mais Caetano Veloso do que Gilberto Gil. Quando pisei o imenso areal de Arembepe, sol de verão, senti que a constante brisa vinda do mar contava histórias. Arembepe, litoral norte da Bahia, tem necessidade compulsiva de falar pois foi naquele éden de coqueiros, piscinas naturais, dunas, nuvens variadas passando em alta velocidade, como nos filmes de Glauber Rocha e Oliver Stone, que a Tropicália se afirmou no final dos anos 60. Arembepe foi o grande desbunde, o desnude, o nosso Woodstock político, nossa Cuba musical.

Beijo a areia quente de Arembepe. Faço reverências ao Senhor do Bonfim, cuja igreja em Salvador havia visitado no dia anterior. Lá dentro, ajoelhado por mais de 40 minutos, fiz dois únicos pedidos que foram atendidos.                                                      

Enquanto meditava, no silêncio quente daquela igreja, vi a imagem de Arembepe desfilar em minha cabeça, como se o Senhor do Bonfim me convidasse ou sugerisse. Olho para as cabanas hippies, de dois, três andares, feitas de sapê. Arembepe foi tombada, ninguém mexe. Ando pela areia, o sol carinhoso ardendo em meus ombros, a duna. A maior de todas. Escpeculo, quem sabe foi aqui que José Celso Martinez Correia declamou o Rei da Vela pela primeira? Quem sabe é essa duna o santuário sagrado de uma gente que um dia acreditou num Brasil revolucionário? Ou ainda há quem discuta o teor revolucionário de Gil, Caetano, Glauber e Zé Celso? Será?

Entro nas cabanas, ocupadas por uma tribo de vagabundos inofensivos que insistem em dar continuidade ao sonho hippie, fuzilado nos anos 70. São cabeludos e guardam na parede um violão de Raul Seixas. Batizaram de “Rancho Janis Joplin” a maior de todas as cabanas. Mas minha cabeça está em 1969, no Brasil de 1969, quando Carlos Lamarca, o capitão da guerrilha, largou a farda oficial e mergulhou na clandestinidade para fazer a nossa revolução.

Não, ao contrário dos boatos, Lamarca não passou alguns dias em Arembepe quando tentava escapar da repressão. Ele rumou direto para o sertão da Bahia, enquanto sua companheira Iara, cercada por batalhões do Exército e policiais do Dops, comandados pelo delegado-facínora, o Doutor Tortura Sérgio Paranhos Fleury, cercava o apartamento para onde fugiu, em Salvador. Iara se matou. Tiro na têmpora direita. Arembepe conta tudo, com a suavidade que as baianas em quando contam uma longa e profunda história. Aliás, não conheço histórias que não sejam longas e profundas na Bahia, e talvez por isso eu ame visceralmente aquela terra.                                                            

                                                       Percorro a aldeia hippie, fotografo tudo, todos os ângulos. Penso em Jorge Mautner e João Ubaldo Ribeiro. Onde estaria João Ubaldo Ribeiro quando Arembepe vivia o seu auge revolucionário? Provavelmente fazendo a sua parte na revolução, lá em Itaparica, pois João Ubaldo, por si só, já era uma revolução, o mais brasileiro dos escritores brasileiros, o mais baiano dos cariocas, o mais carioca dos baianos, um dos mais corajosos e generosos brasileiros que conheçi

Olho para a duna e ela me diz que pode ser que João Ubaldo tenha participado dos happenings artísticos/políticos do final dos 60 em Arembepe. Janis Joplin cantou do alto dessa duna em 1970, um de seus últimos sinais de vida pois morreria meses depois. É mentira, mas deixa a lenda “lendar”. O LSD rolava solto por entre os troncos e coqueiros, mas alguém sempre lembrava o ideal revolucionário, que era preciso libertar o Brasil. Ousar lutar, ousar vencer, escrevia sempre Lamarca.

No final dos 60, quem não ia para a luta armada desbundava e virava hippie, ou se ajoelhava perante seus santuários pequeno-burgueses e vivia o “Brasil, ame-o ou deixe-o”, engordando o vergonhoso rebanho servil nacional, os tais 90 milhões em ação, dopados pelo ópio dos gramados de futebol.

O mergulho no mar de Arembepe parece uma viagem alucinógena. Não vou descrever o mar de Arembepe pois não quero divulgar muito aquele lugar. Arembepe resistiu aos hippies, a repressão política, moral, resistiu a especulação imobiliária, mas certamente não resistiria ao turismo predatório e seus resorts, jet skis e cocaína.

O violão de Raul Seixas está em destaque numa das cabanas, onde os remanescentes hippies fazem artesanato. Por onde anda o Raul? Em qual dessas nuvens ele estará? Por que não guardaram também os inúmeros manifestos revolucionários que foram escritos em Arembepe? Porra, ninguém se lembrou. Ou fazemos a revolução ou escrevemos sobre ela. As duas coisas ao mesmo tempo não dá. Sento debaixo de um coqueiro, de frente para o mar, tomado de comoção e História com H maiúsculo.

Uma mulher linda, morena de olhos verdes, completamente nua, me pede fogo em italiano. Sua cona inchada, a 40 centímetros da minha boca, tem um piercing sobre os pelos lisos e vastos. Acendo meu Zippo, que acende o baseado dela. A italiana agradece secamente e volta ao mar, para o seu rastaman, numa das milhares de piscinas verdes que os recifes de Arembepe produzem. Glauber não descaralhou à toa com Arembepe. Ele tinha razão. Mais razão ainda quando filmou algumas imagens soltas em preto e branco. Em preto e branco Arembepe fica mais nua pois a história da nossa revolução não era acrilírica e muito menos multicolorida. Os anos eram de chumbo e a cor do chumbo é a cor das tumbas.                                                                                   



Eventualmente o astral de Arembepe pesa. Muita gente que falou, cantou e escreveu ali foi caçado, torturado e morto pela ditadura. Ou enlouqueceu num pau-de-arara, levando choque elétrico, sendo obrigado a confessar histórias que na maioria das vezes não existiam. E me parece que essas almas vagam em Arembepe, ainda tontas, ainda sem entender porque ser brasileiro dava pena de morte no final dos 60.

E a ditadura matava porque gostava de matar. Arembepe me conta que a ditadura se transformou em serial killer por prazer, por gozo, por covardia. E ninguém conseguiu matar Sérgio Fleury, símbolo-maior da dor revolucionária e pendurar sua cabeça num coqueiro de Arembepe, como um troféu em nome da grandeza humana.

A densidade política de Arembepe não me permite pensar em outra coisa a não ser no Brasil sonhado por Lamarca, por mim, por muita gente. Se eu pudesse inserir uma trilha sonora nos meus devaneios em Arembepe seriam duas músicas: “That´s Way” do Led Zeppelin e “Voodoo Chile” de Jimi Hendrix. Não me perguntem por que. Eu senti essas músicas pairando no ar e no mar de Arembepe o tempo todo. E a imagem de Zé Celso Martinez Correia e de Caetano esquelético, cabelo encaracolado, barbudo, de Gil também black power, e de Janis, e de Raul, e de Mautner, e de Luiz Carlos Maciel, meu Deus, tanta gente. Tanta gente sonhou com a revolução que fracassou. Aquela nós perdemos e ponto final.