segunda-feira, 20 de julho de 2015

Como é bom ser fã de Egberto Gismonti


Foi a amiga Bete Babo quem me avisou pelo Facebook, na manhã deste domingo, que o gigante Egberto Gismonti estava no sensacional programa “Sr. Brasil”, na TV Cultura, que é apresentado pelo Rolando Boldrin. “Sr. Brasil” é um programaço para quem gosta da autêntica música brasileira.

Egberto Gismonti, gênio reconhecido mundialmente, como sempre dava gargalhavas, despejava simplicidade e humildade ao declarar, mais uma vez, o seu amor por sua cidade natal, Carmo, perto de Friburgo (RJ). Rindo muito, interagindo com uma platéia encantada, ele contou muitos casos de personagens de sua infância, adolescência, personagens que ainda hoje estão lá em Carmo cidade que ele visita uma vez por mês.

É o terceiro contato pessoal que tenho com o Egberto. No final dos anos 1970 (ou teria sido em 1980?) entrevistei o músico e quando consegui marcar o encontro achei que a conversa seria difícil. Me disseram que ele era de falar pouco, fechadão, muito na dele. Quando cheguei (foi na Sala Cecília Meirelles) os primeiros minutos de papo foram cerimoniosos, mas depois a conversa deslanchou rendendo mais de uma hora e meia. Foi exatamente o Egberto que vi na TV Cultura hoje.

Depois, fiz uma nova entrevista sobre o álbum “Circense“ (1980), uma de suas obras primas, que traz a mística, mágica, comovente “Palhaço”, provavelmente o maior clássico da música instrumental contemporânea do Brasil. Nessa segunda entrevista falamos o todo tempo de “Palhaço” cujo sucesso surpreendeu o próprio Egberto. “As pessoas pedem “Palhaço”, aqui no Brasil, na Alemanha, Dinamarca, Friburgo, Estados Unidos...e eu gosto muito de tocar porque essa música também me comove.”

Nosso terceiro encontro foi nas obras do Teatro Municipal de Niterói totalmente restaurado pelo então prefeito Jorge Roberto Silveira e inaugurado por seu sucessor, o saudoso João Sampaio. A coordenação da restauração ficou a cargo do grande artista plástico Cláudio Valério Teixeira que fez um trabalho minucioso, detalhado, sério, profissional. Por isso, foi premiado no Brasil e no exterior.

Eu presidia a Fundação de Arte de Niterói, que se chamava Funiarte, mas mudei o nome para FAN. Quando a obra entrou na reta final, o Cláudio teve a ideia de fazer a “Temporada de Obras e Consertos” (assim mesmo, Consertos com S) porque o teatro estava em obra e iam rolar concertos no meio do conserto. A temporada durou uma semana e foi aberta pelo Egberto Gismonti.

O concerto dele foi numa quarta-feira, 9 da noite, mas no dia anterior todos os lugares já estavam reservados. Todos! Isso num teatro ainda sem ar condicionado, cheio de andaimes, mas palco e platéia estavam prontos.

No dia, eu estava na sede da Fundação e me ligaram do teatro as três e meia da tarde informando que o Egberto já havia chegado. Peguei a moto e voei para lá. Ele estava sentado calmamente no barracão da obra, hoje a Sala Carlos Couto. Cláudio Valério chegou praticamente junto comigo e começamos a conversar. Era o Egberto Gismonti de sempre. O Cláudio o levou para ver o novo teatro que renascia e o Egberto maravilhado...maravilhado com tudo o que via e ouvia. “Que bela acústica”, disse. O piano do teatro, um Steinway & Sons estava todo protegido no palco esperando a hora do concerto, mas o Cláudio pediu que retirassem a proteção. No ato Egberto disse, muito empolgado, “é um Steinway Série Hamburgo, fabricado em 1975”. Na lata! E explicou tudo sobre o piano, desde o tipo de maneira, época, região da Europa...

Voltamos para o barracão da obra e ele falou de sua vida, de sua carreira internacional e por volta das cinco da tarde nos disse “vou dar uma volta pela cidade, sentir o lugar e definir o repertório que vou tocar a noite”. E saiu a pé pelo centro de Niterói.

Voltou as oito horas, sempre bem disposto e ocupou um dos maravilhosos camarins que já estavam prontos. E aí ele me emocionou quando disse, assim mesmo “lembro da nossa entrevista, anos atrás, sobre “Palhaço”. Vou tocá-la hoje a noite porque gostei muito do que você escreveu.” Fiquei até com um nó na garganta, cumprimentei-o solenemente e fui sentar na primeira frente.

E foi o melhor e mais belo concerto de piano e violão solos que já assisti. A cada música minhas emoções perambulavam nas linhas do tempo...nas minhas, nas do teatro, dos meus amigos, a infância, o circo de lona azul em Friburgo onde o Egberto tocou de surpresa e eu estava lá...caramba, é muita coisa. E eu espero que o programa “Sr. Brasil” da TV Cultura deste domingo vá para o You Tube. Fará bem a saúde do planeta.