quarta-feira, 8 de julho de 2015

Entorpecido de paixão no Dia Mundial do Rock

Dia Mundial do Rock, mas não quero me lembrar de que ano. Pela trilha sonora, década de 80. Rolava Lloyd Cole and The Commotions embaixo da colcha morna do motel de beira de estrada. Motel Surf, enterrado ao lado de uma favela, fronteira de São Gonçalo com Itaboraí.

Não quero me lembrar como fomos parar ali e muito menos o nome dela, mas lembro do motor turbo diesel de meu jipe, trac trac trac, entrando devagar na garagem enquanto nós dois, nus desde São Pedro D´Aldeia, trocávamos carícias cada vez mais intensas, densas, tensas e, por que não, abissais. Até a nuca. Trac trac trac. Anais Nin e Henry Miller se tornaram aprendizes.

Nus abrimos a porta do quartinho, leve cheiro de mofo, TV antiga num canto, paredes...paredes...sim ela me jogou contra a parede e me beijou de um jeito que nunca, em tempo algum, uma mulher me beijou. Ela dizia coisas, eu dizia coisas, ela fazia coisas, eu fazia coisas, ela me atirou na cama vulgar e redonda, mergulhou sobre o meu peito, olhos fechados, Lloyd Cole and The Commotions tocando no carro, eu respondia...não lembro o que. Mais nada ali era obsceno, perverso, nada ali tinha limite. Nem ela, nem eu, nem eu, nem ela, nem nós, nem tudo.

Quando nos fundimos numa única e irreconhecível massa de desejo, ardor, cumplicidade, mergulhei numa longa viagem. Longa, comovente, jardim das delícias que provavelmente nem heroína, maconha, mescalina e metadona são capazes de conduzir. Mesmo porque não conheço heroína, cocaína, mescalina e metadona porque elegi a lucidez como o GPS de minhas loucas viagens. Problema meu.

Entramos naquele lugar as nove da manhã e ficamos engatados até duas da tarde. Entrega, luxúria, paixão instantânea. Os auges iam e vinham, dormíamos engatados, acordávamos engatados, novos auges que iam e vinham. Desejei pertencer eternamente aquela mulher pequena, bem branca, quase magra, cabelos negros, olhos vivos, boca...boca...boca...não, não vou me maltratar, não quero lembrar daquela boca que a lógica boçal do cotidiano fez com que sumisse de meu caminho.

Lloyd Cole and The Commotions estava no "no stop" do toca-fitas. Não parou de tocar um minuto. Ela e eu só nos comemos. Mais nada. Nem uma fruta, salada, chocolate, pedaço de queijo. Fome, sede frio, tudo era ridículo diante do que sentíamos um pelo outro naquele lugar que chamaríamos de chulo se fôssemos formais...(normais?). Mas naquele dia, naquela hora, naquela cama, não éramos nada. Ela era eu. Eu era ela.

E fizemos tudo o que as mais devassas revistas de sexo descreviam, deixamos nossas mais toscas fantasias desabarem na cama e nos engolir. E nos apaixonamos loucamente. Dissemos que não íamos voltar para a civilização. Prometemos sair dali, pegar o jipe turbo diesel e rumar para o Nordeste para vadiar. Até acabar o dinheiro, o jipe, a comida, o tempo. Íamos deixar acabar o que tinha que acabar porque o que sentíamos um pelo outro tornou-se invulnerável, vital.

Meia noite. Nordeste? Depois de 14 horas engatados, rolamos na cama. Eu para a esquerda, ela para a direita. Acho que choramos. Acho que pensamos. Acho que avaliamos. Acho que retornamos daquele lugar, no Dia Mundial do Rock.

Foi assim.

Vida normal.

Lloyd Cole and The Commotions parou de tocar.