sexta-feira, 10 de julho de 2015

Entorpecido de paixão no Dia Mundial do Rock (final)

Mais uma viagem para Bamako, Mali. Engenheiro senior de uma multinacional fabricante de um software para gravação, mixagem, remixagem e todos os delírios sonoros já inventados, voltava a África para concluir o treinamento de um grupo de colegas engenheiros que estavam utilizando o este software que desenvolvi. 

Era Dia Mundial do Rock, como lembrou o locutor de uma rádio na internet que o táxi que me levava ao aeroporto conectava. Uma data que nunca mais foi a mesma desde aquela minha quase história de amor com pinta de estória de amor a bordo do Motel Surf. (http://colunadolam.blogspot.com.br/2015/07/entorpecido-de-paixao-no-dia-mundial-do.html)

Meu avião decolaria em duas horas, mas o táxi entrou num congestionamento na altura da favela da Maré, Rio de Janeiro. Olhei em volta, fechei os olhos e pensei no Mali, África, bem menos miserável do que aquela tosca paisagem carioca. Menos miserável, mais humano, generoso. Foi quando o taxista gritou. Abri os olhos e diante de nós dois homens empunhando fuzis faziam o que se convencionou chamar de “arrastão”.

Cercaram o carro. Mandaram o taxista abrir a porta e sair. Ele abriu a porta e saiu. O outro, apontando o fuzil, me mandou abrir a porta e sair. Eu disse que não iria abrir a porta e sair. Ele berrou “não complica, branco azedo filho da puta!”. Repeti que não iria abrir a porta e sair. “Porra, vou ter que te “fazer”, caralho!”, ele disse. Imaginei que “fazer” era acabar comigo, mas ainda assim repeti, terceira vez, que não iria abrir a porta e sair porque...não sei por que.

Até hoje não sei por que achei que ele não apertaria aquele gatilho porque estava com...medo? Não sei. Receio? Não sei. Sem balas? Não sei. Só sei que ouvi um estampido seco e o sangue dele jorrou pela nuca. Desabou sobre o táxi, fuzil em punho. Alguém atirou de longe. Duas vezes. Matou os dois.

Pânico. O taxista entrou no carro e saiu em disparada, como os outros carros que acabaram formando uma espécie de cortejo do desespero. A rádio na internet continuava no ar, tocando Ennio Morricone e sua trilha sonora de “Bastardos Inglórios” de Tarantino. Sincronicidade. O taxista balbuciava angústia, desespero, falava da família. Perguntou o que eu tinha feito, respondi “não fiz nada”.

Paguei a corrida em frente ao aeroporto. O Dia Mundial do Rock é no inverno brasileiro. Garoava (gosto da garoa), 21 graus (gosto de 21 graus), entrei no saguão. Sentei. Minutos atrás eu estava de cara com a morte e nada fiz; lembrei enquanto colocava os fones do celular no ouvido para ouvir a rádio de rock que elegi como minha na internet. Pensei nelas, mulher e quatro filhas pequenas, em especial nas gêmeas, caçulas de dois anos. Tocava Jimmy Page na webradio.

Sentado no saguão, dei de cara com a vida. A mulher do Motel Surf se aproximava acompanhada de um grupo ruidoso. Tirei o fone sem desviar o olhar. Olhar que encontrou o dela. Eu estava gelado, ela embranqueceu e sentou-se de repente. Os amigos perguntavam se estava tudo bem, ela afirmava que sim. Minutos atrás eu estive de cara com a morte e nada fiz, nada senti. Agora estava de cara com a vida e tremia, gemia, uivava por dentro. Dicotomia.

O trac trac trac do motor turbo diesel do jipe tomou minha memória de assalto (http://colunadolam.blogspot.com.br/2015/07/entorpecido-de-paixao-no-dia-mundial-do.html), não conseguia desviar o olhar. Dela. Continuava branquinha, olhos pretos, mas não era a mesma, como eu.

Eu não sabia lidar com a dose cavalar de vida representada por aquela mulher, cujo endereço, telefones, e-mail eu tinha porque...porque...porque cinco anos antes ela acessou o site da corporação onde trabalho depois de assistir a uma entrevista minha na CNN sobre o desenvolvimento de novas plataformas digitais para áudio e vídeo que estava desenvolvendo. Via internet acessou a divisão de engenharia do software que eu dirigia e acabou me localizando. Eu estava viajando a serviço. Ela enviou uma mensagem quase cifrada, dentro do “Fale Conosco” da empresa. Assinou, acrescentou os telefones, e-mail e tudo mais.

Não quis entrar em contato porque decidi preservar aquele longo dia (http://colunadolam.blogspot.com.br/2015/07/entorpecido-de-paixao-no-dia-mundial-do.html) em minhas memórias afetivas. Mas, quis o destino mais uma vez que ela estivesse em minha frente. Sentada, me olhando. Um homem acariciava seus cabelos, os amigos lhe davam água; todos pensavam se tratar de um mal estar. Logo notei que quem acariciava os cabelos era o seu homem. Que percebeu a troca de olhares. E provavelmente fez algumas conexões.

Não senti vontade de falar com ela, apesar dos batimentos cardíacos. Não quis porque mito é mito. Aquela mulher, fiel depositária de fantasias eróticas que realizei, paixão fulminante que vivi, amor virtual que me acompanhou, não existia naquele momento.

Naquele momento? Uma mulher embarcando com seu homem e amigos, provavelmente para Nova Iorque. Eu? Um homem amante e amado por uma maravilhosa mulher, pai de quatro anjos que todos os dias sobem na cama as sete da manhã e ficam me beijando, rabiscando, mordendo, beliscando, enfim, são filhas por horas e horas. Como eu adoro aquilo.

Liguei para Bamako e adiei o encontro. Peguei as duas malas, levantei, olhei reto para ela e saí. Saí para viver as minhas meninas. Decretei férias coletivas de 15 dias. Para mim e para as minhas meninas.

Quatro filhas e a mãe. Cinco lindas meninas.

E demiti as fantasias. Por justa causa.