sábado, 11 de julho de 2015

Ficção: Série Entrevistas Imaginárias – Jimi Hendrix


Discussão com o público na Alemanha, dias antes de morrer                                                                        




    Últimas fotos. Feitas pela namorada Monika Dannemann na véspera da morte de Jimi
Jimi Hendrix saiu do elevador e se aproximou devagar naquele final de tarde em 10 de setembro de 1970. Um metro e setenta de altura, magro, cruzou o hall do hotel ajeitando os cabelos com a mão. Um leve sorriso, cumprimentou e sentou. Pediu uma água mineral e estava visivelmente cansado e abatido. Acendeu um cigarro, perguntou a hora a alguém e olhou para mim. Semblante grave.

O maior guitarrista de todos os tempos morreu oito dias depois, ali mesmo em Londres, aos 27 anos. Na noite anterior estava numa festa com a namorada Monika Dannemann no Hotel Samarkand, número 22 da Lansdowne Crescent, em Notting Hill.  

Ao contrário do que muitos pensam, não foi de overdose. Tomou tranquilizantes, passou mal dormindo, asfixou-se com o próprio vômito. Uma ambulância foi chamada mas ele não resistiu. Eric Burdon (ex-Animals) diz que tem um “poema suicida” de Jimi guardado, que jamais irá tornar público.

A entrevista:

Pergunta - Jimi, como estão as coisas?

Jimi Hendrix – Hum.....como estão as coisas? (baixa o olhar, mão direita no queixo, acende outro cigarro). Poderiam estar melhor, mas a gente não tem o controle de tudo... não tem.

P – Você se refere as vaias no Festival de Fehmarn, Alemanha, domingo?

J.H.  - Não...aquele festival estava a maior bagunça, as pessoas não sabiam quem estava no palco. Muita doideira, muita doideira no mau sentido.

P – Você chegou a bater boca com a platéia.


J.H. - Eu estava muito cansado, sem paciência...aquele lance de paz e amor já tinha dado o que tinha que dar. Aí entrei no palco e começaram as vaias. Parei e falei algumas coisas no microfone.

P -  Sim, você é um cara de paz...

J.H. - Mas tenho meus limites...

P -  Você está feliz com as mudanças, o fim do Experience, a criação da nova banda, novos músicos?

J.H. - É público e notório que não estou feliz...e você sabe disso (irritado). Na verdade eu fui levado a essa situação, buscar um novo som sem saber direito o que queria. Por ser negro as pessoas em geral sempre me cobraram muito para fazer somente música negra, mas eu respondia que música não tem cor. Quando disse (e repito) que a Motown é esquemão, é som fabricado feito só para vender, muita gente odiou. Quando fiz o trio com Noel Redding no baixo e Mitch Mitchell na bateria, disseram que eu fazia rock de branco. Não sei se o fato dos dois serem brancos e ingleses pesou nisso, mas eu ignorei. Mas no ano passado decidi mudar, fazer uma coisa mais soul...e aí...bom, sejamos francos, eu irritei o público de rock e de rock blues e não conquistei o pessoal da soul music, funk, etc...fiquei no ar.

P – Por isso as reações?

J.H. - É...pode ser...

P – Além da crise musical, problemas financeiros.

J.H. - Todo mundo sabe que sou roubado por empresários desde que comecei. O único que foi honesto comigo foi o Chas (Chas Chandler)...mas a culpa é minha. Muita doideira, gosto de ácido, gosto de drogas leves, bebo bem e aí já viu. Me levaram tudo...vacilo meu.

P – Você deu mesmo a Eric Burdon um poema suicida?

J.H. - É a letra de uma música que compus para ele. Mal profissionalmente, falido, quebrado..aquela letra saiu numa noite de desespero mas não é nada suicida...sou um cara solar, amo a vida...e espero que o Eric saiba usar a letra...poema suicida...essa é boa.

P – E as drogas?

J.H. - Muitos pensam que sou viciado em heroína, mas não é verdade...Aquela heroína que plantaram em minha bagagem em Toronto ano passado, acabei preso em Toronto...aquilo....foi aquilo que criou esse boato. Tomo LSD? Tomo, gosto. Uso maconha? Uso. Anfetaminas e mescalina de vez em quando, mas não gosto de heroína.

P – Por que você tem dito que depois que morrer quer ser lembrado por suas músicas?

J.H. - Disse isso numa entrevista e começaram a espalhar que eu estava deprimido...na verdade estou deprimido, mas não com obsessão pela morte ou coisa parecida.

P -  Mas você gostaria mesmo de ser lembrado...

J.H. Sim (me cortando)... ser lembrado pela minha música...Sempre.

O final dos tempos:

Em 3 de maio de 1969 Hendrix foi preso no Aeroporto Internacional de Toronto após uma quantidade de heroína ter sido descoberta em sua bagagem. Ele foi mais tarde posto em liberdade depois de pagar uma fiança de 10 mil dólares. Quando o caso foi a julgamento Hendrix foi absolvido, afirmando com sucesso que as drogas foram postas em sua bolsa por um fã sem o seu conhecimento. 

Em agosto de 1969, Hendrix formou uma nova banda chamada Gypsy Suns and Rainbows, para tocar no Festival de Woodstock. Ela tinha Hendrix na guitarra, Billy Cox no baixo, Mitch Mitchell na bateria, Larry Lee na guitarra base e Jerry Velez e Juma Sultan na bateria e percussão. Hendrix estava sob o efeito de uma dose potente de LSD tomada pouco antes de subir ao palco e tocou para uma plateia que se esvaziava lentamente.

Gypsy Suns and Rainbows teve vida curta e Hendrix formou um novo trio com velhos amigos, o Band of Gypsys, com seu antigo companheiro de exército, Billy Cox, no baixo e Buddy Miles na bateria, para quatro memoráveis concertos na véspera do Ano Novo de 1969/1970. 

Felizmente os concertos foram gravados incluindo momentos que muitos acham ser uma das maiores performances ao vivo de Hendrix, uma explosiva execução de 12 minutos do seu épico antiguerra 'Machine Gun'.

Em 28 de janeiro de 1970 acontecia no Madison Square Garden, em Nova Iorque, um dos maiores concertos já organizados em prol da paz no Vietnã, o Festival do Inverno para a Paz. Teve sete horas e meia de duração. O baterista, Mitch Mitchell e o baixista Noel Redding, estavam no backstage porque participariam do fim do show fazendo uma jam com a Band of Gypsys, grupo que sucedeu o Experience. 

Michael Jeffrey, empresário de Hendrix, deu-lhe um ácido pensando que isso levantaria o astral de Jimi e faria com que o show saísse melhor. Mas o resultado foi o contrário e Jimi ficou fora de si em pleno palco, dizendo para uma garota na plateia “você está menstruada? Eu posso ver através das suas bermudas”. Quando terminou de perguntar, se arrependeu e disse“nós não estamos bem” e abandonou o palco no meio da segunda música.

- Em agosto ele tocou no Festival da Ilha de Wight com Mitchell e Cox, expressando desapontamento no palco em face do clamor de seus fãs por ouvir seus antigos sucessos, em lugar de suas novas ideias. 

Em 6 de Setembro, durante sua última turnê europeia, Hendrix foi recebido com vaias e insultos por fãs, quanto se apresentou no Festival de Fehmarn, na Alemanha, em meio a uma atmosfera de baderna. O baixista Billy Cox deixou a turnê e retornou aos Estados Unidos depois de supostamente ter utilizado fenilciclidina, uma substância analgésica.

Antes da morte no mesmo ano, Hendrix iria começar um novo projeto, junto com o guitarrista e baixista Greg Lake (na época no grupo King Crimson) e o tecladista Keith Emerson.
Greg, que acabava de deixar o King Crimson e Keith procuravam por um baterista e percussionista, e chegaram a conversar com Mitch Mitchell. O ex baterista do Jimi Hendrix Experience, Gypsy Suns And Rainbows e Band Of Gypsys recusou, mas passou a ideia para Hendrix, que aceitou. 

A banda iria incorporar também Carl Palmer, baterista e se chamaria HELP (Hendrix, Emerson, Lake & Palmer). Infelizmente Jimi morreu, mas o projeto seguiu e nasceu o trio  Emerson, Lake & Palmer.