quinta-feira, 23 de julho de 2015

Muito obrigado pelo convite, mas não irei ao Rock in Rio


Me ligaram convidando para ir ao Rock in Rio. Declinei em bom português. Disse que escreveria as razões em minha Coluna, essa aqui. Logo, se promessa é dívida, estou zerando agora.

Depois da edição de 1985 e a do Maracanã, o Rock in Rio virou uma marca. Uma marca rentável, muito rentável, como Nissan, Citybank, HP, Apple, Caporal Amarelinho. Acho ótimo que nesse momento, quando o Brasil, de novo, cai na lona e o juiz já contou até oito, alguma coisa dê certo por aqui.

Abre aspas – toda a vez que o trabalhismo toma o poder, o Brasil cai no lodo. Getúlio foi aquilo que se viu: ditadura, estado novo, corrupção. Depois, Jango que entregou a pátria a outros párias da ditadura. E agora é isso que está aí. Fecha aspas”.

Ao misturar axé music com tirolesa, roda gigante e até alguns cavaquinhos, o Rock in Rio se assume: não é rock nem é Rio. É uma gigantesca quermesse eletrônica, aprendiz de Disneylandia que um dia, quem sabe, vai entrar no mapa das diversões interplanetárias. Em Las Vegas, o Rock quebrou a cara. E ao meter Ivete Gostosa e Baiana Sangalo na proa, quem quebrou a cara foi o Rio. Chamar o que não é rock de rock na terra onde o rock nasceu é botar a bunda na janela em dia de temporal de falos.

Se eu tivesse uma filha pré-adolescente, de preferência daquelas que falam sem parar, questionam, tocam rebu e por isso a imbecilidade tupiniquim batizou de “aborrecente” eu iria, sim, ao Rock in Rio. Para aprender com ela a perder o medo de altura e, em pânico, andar na tal roda gigante de 40 metros de altura. É isso mesmo? Quarenta metros?

E atravessar a frente do palco Mundo voando na tirolesa (desde que minha filha tomasse conta de mim), encher a cara de Big Mac, quem sabe brincar na lama com ela e, pode até ser, olhar para os palcos de pagode, axé, david guetta, dar umas gargalhadas. Ela iria me perguntar o que é Steve Vai eu responderia que “é um guitarrista bom pra cacete, filha, que se perdeu na Linha Amarela, filha, e veio baixar aqui na quermesse”.

Mas não tenho filha pré-adolescente e muito menos saco para encarar roda gigante + tirolesa + axé + quilômetros de sol no lombo, sei lá mais o que. Mais: não me convidem para linchar o Rock in Rio, falar mal, dizer que o rock está senso usurpado e tal. Ora, minha nega, rock and roll não está lá mesmo, e daí? Se hoje eu quiser rock and roll, vou aos bares, ao Circo Voador, o Festi Valda na Fundição, ou ligo a Radio Cult FM Ponto Com, ou o Canal Bis na TV, ou vou a São Paulo ou, radicalizando, carimbo o passaporte e vôo para Nova Iorque. Não vou pescar garoupa em mares de tubarão. Querer ouvir rock no Rock in Rio é querer se frustrar e, pior, torrar uma grana em vão.

Nesses tempos de quebradeira econômica, baixo astral coletivo, desejo sucesso ao Rock in Rio e a sua clara, nítida, cristalina proposta de oferecer diversão como um parque temático. Se existe parque de dinossauros, parque de ursos, parque de Mickey, existe um parque de rock, chamado Rock in Rio. Que poderia se chamar "Vulva Heterodoxa”, “Sardinha Alada”, “Sua Mãe. Que um dia sim, tocou rock autêntico, lááááááááááá em 1985, mas era outra história, outro mundo, outro país, outro você, outro eu.com.br.