quinta-feira, 2 de julho de 2015

O caso escandaloso do filosofo Luiz Carlos Maciel, do Pasquim – site www.gutemblog.com

Luiz Carlos Maciel é um de meus heróis. Adolescente já acompanhava o seu trabalho como fundador e diretor da edição brasileira de revista Rolling Stone, porta-voz maior da contracultura e da maravilhosa anarquia que tentava reinar no país no início dos anos 1970, mas que a censura degolava. Ele também foi um dos fundadores do semanários O Pasquim.

Maciel escreveu vários livros sensacionais entre eles o visceral “Geração em Transe”,* de 1996 (Ediouro) que me deu um forte sacode. Maciel fez televisão, cinema, literatura, Maciel fez cabeças, oxigenou a filosofia contemporâneea, sempre contornou a medfiocridade do esquemaão evitando conflitos (ele tinha mais o que fazer) e foi um fundadores da Casa da Criação, uma ideia de Dias Gomes, que a Rede Globo implantou no Horto, Rio. Lá nasceram grandes programas, análises, conceitos, sempre a orientação do grande Luiz Carlos Maciel.

Tudo bem? Não. Luiz Carlos Maciel, a lenda, o mito, um dos mais robustos intelectuais contemporâneos do planeta está desempregado e passando por sérias dificuldades. A ponto de desabafar em sua página no Facebook. Trits, indignado, puto, reproduzo abaixo uma matéria de Arthur Gama, com pesquisa de Maria Helena Verissimo, publicada no site Gutemblog, editado por Luiz Gutemberg e que fica em http://gutemblog.com/2015/06/30/77-anos-desempregado-bela-biografia-e-sem-dinheiro/

A hipocrisia brasileira – que se encrespa contra todo tipo de preconceito e assumiu a vanguarda mundial pelo reconhecimento dos direitos humanos de homossexuais, negros e quem quer que por alguma razão seja discriminado socialmente, e acaba de quebrar os grilhões da aposentadoria compulsória de magistrados aos 70 anos – podia dormir sem o inesperado anúncio do filosofo e escritor Luiz Carlos Maciel acaba de publicar na internet:

Um tanto constrangido, é verdade, mas sem outro jeito, aproveito esse meio de comunicação, típico da era contemporânea e de suas maravilhas, para levar ao conhecimento público o fato desagradável de que estou sem trabalho e, por conseguinte, sem dinheiro. É triste, mas é verdade. Estou desempregado há quase um ano. Preciso urgentemente de um trabalho que me dê uma grana capaz de aliviar este verdadeiro sufoco. Sei ler e escrever, sei dar aulas, já fiz direções de teatro e de cinema, já escrevi para o teatro, o cinema e a televisão. 

Publiquei vários livros, inclusive sobre técnicas de roteiro, faço supervisão nessas áreas de minha experiência, dou consultoria, tenho – permitam-me que o confesse – muitas competências. Na mídia impressa, já escrevi artigos, crônicas, reportagens… O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. Será que não há um jeito honesto de ganhar a vida com o suor de meu rosto? Luiz Carlos Maciel. lcfmaciel@gmail.com

No país que quebra e criminaliza preconceitos de todo tipo – de cor, raça, gênero, região – é espantoso que o envelhecimento seja tão duramente perseguido com o afastamento compulsório dos idosos de atividades econômicas, profissionais, culturais – da própria vida útil.

Gaúcho, nascido em 1938, professor de teatro, com referências no currículo de temporadas na Universidade da Bahia (nos tempos de Glauber, Ana Adler, João Augusto e Eros Martins Gonçalves) e no Carnegie Institute, de Pittsburgh, nos Estados Unidos e idolatrado no Rio como interprete do filosofo Herbert Marcuse e autor de textos no Pasquim (segundo a lenda, era um craque em psicanálise e admirado por Millôr Fernandes, extremamente seletivo na seleção de amigos), Luiz Carlos Maciel marcou época na Rede Globo, onde talento e validade artística são medidos de forma implacável pelo sucesso comercial. Casado com a bela e talentosa atriz Maria Claudia, protagonista de novelas, filmes e peças de teatro, não lhe faltava nada para fazer o encanto dos cariocas. Escrevia livros, teleteatro, dirigia espetáculos.

De repente, sumiu. Tal como Maria Claudia, que teve problemas com as cordas vocais, depois voltou milagrosamente recuperada e novamente sumiu. Imaginava-se que estava recolhido, ensinando ou trabalhando discretamente em algum jornal ou editora.

Agora, com esse anúncio patético – um SOS desesperado, ainda por cima dando sinais de humor com a frase “O que vier, eu traço. Até represento, só não danço nem canto. ” – Luiz Carlos Maciel joga na cara da sociedade brasileira o abandono dos idosos. Se ele, um intelectual com tal bagagem, confessa-se sem dinheiro, imagine os idosos sem currículo e sem referências…

Aliás, há neste momento outro sinal escandaloso da repugnância nacional pela velhice. O fracasso da novela Babilônia, que apesar do grande elenco e dos autores famosos está perdendo em audiência para os outros três seriados da Globo, inclusive Malhação, está sendo atribuído aos papéis das atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, que brilham como um casal homossexual ativo (e além de ativo, intelectual e passional). Segundo analistas da área de pesquisa, o público aceita e idolatra Fernanda em papéis cômicos e Nathalia em papéis dramáticos de velhinha caduca ou coadjuvante, jamais no vigor humano e sexual que desfrutam além dos 80 anos.

A expectativa de sobrevivência atém dos 70, além dos 80, em condições físicas e mentais normais, é um castigo para homens e mulheres brasileiras que pretendam exercitar plenamente seus papéis profissionais e resistam à aposentadoria. Como está demonstrando, via Internet, o filosofo Luiz Carlos Maciel, 77 anos, notável saber, desempregado.”




* Livro “Geração em Transe”, de Luiz Carlos Maciel - O relato das memórias de 'Geração em Transe' inicia com Glauber, em seu percurso cinematográfico, tiradas proféticas e percepção aguçada. Catalisador da vontade de inovar estilos e tradições culturais, seus pronunciamentos sempre polêmicos tornaram-se símbolos do período. A obra tem prosseguimento com o acompanhamento da trajetória de Zé Celso, a importância de suas experimentações no teatro, e de Caetano, compondo as primeiras canções do tropicalismo. O autor mostra o movimento tropicalista em seu cotidiano, através de pequenos acontecimentos, notícias e discussões paralelas, apresentando a busca e o surgimento da liberdade, prazer e energia do movimento.