quinta-feira, 2 de julho de 2015

O chato nosso de cada dia

A voz das ruas sussurra que 90% dos chatos não sabem que são chatos. Já os 10% tem certeza absoluta de que são pessoas sensacionais, raras, indispensáveis e, claro, pouco modestas.
Tempos atrás encontrei com um chato que não sabe que é chato e conversei sobre um outro chato que se julga o belo, o tesouro, o garanhão, mas que não passa de um larápio mal sucedido (se fosse um bom larápio ninguém saberia), metido a tradição, família e propriedade mas que pouca gente atura.
Já ouvi dizer que ele é uma espécie Amaury Junior dos submergentes sociais. Não é raro vê-lo “chorando” em ocasiões de seu interesse. Não é raro ouvirmos que ele é usuário de “cristal japonês”, substância usada por atores e que faz os olhos lacrimejarem abundantemente em cenas de choradeira. É derivado do mentol e no Google há boas definições para o produto.
O chato que não sabe que é chato que encontrei é uma pessoa extremamente bem intencionada. Só que quando chega perto, sempre falando muito e alto, eu rosno, xingo em pensamento, mas, sinceramente, me sinto contra a parede. O cara é gente boa, se dedica as pessoas, torce por um mundo melhor, mas, coitado, é chato pra cacete.
Ao contrário do molambão do Amaury Junior paraguaio (também conhecido como G.B.O. – Grande, Bobo e Otário), o chato do bem não tira onda, não se acha, nem se coloca acima do bem e do mal. Já me disseram que ele divide tudo o que tem com todo mundo, não tolera a pobreza de espírito e nem a material, é um democrata, mas, coitado, é chato pra caramba.
O que fazer? Afinal todos nós temos pelo menos um chato em nosso pé e, diz o povo, ele não sabe disso. E quem teria a coragem de chegar para o sujeito, pegar carinhosamente pelo braço, levar para um canto e, em voz baixa, dizer “desculpe a minha franqueza, meu caro. Mas você está se excedendo...com o passar do tempo tornou-se quase inconveniente, provavelmente um pouco chato”.
Eu não teria coragem de fazer isso. Para mim, deixem o chato chatear, finjam que não ouviram e toquem a vida porque em algum momento de sua existência ele saberá que é chato. Através de terceiros ou, o que é raro, graças a um insight, um mergulho interior, sonhos, sei lá.
Chato. Definição que nasceu (des) graças aquele primo do piolho que habita os pelos pubianos de quem é fraco no quesito higiene. O chato, inseto, é chato, porque coça, coça, coça, coça e a aflição é tamanha que há relatos de pessoas que chegaram a jogar álcool para arder bem. Por isso, o chato é chato.
Matá-los é constrangedor já que a substância mais eficiente é o Neocid em pó. Aquele que vem numa latinha que faz “plém, plém, plém” quando o usuário aperta para o pó sair. Logo, quando se houve “plém, plém plém” nas imediações de algum banheiro o grito anônimo do tipo “eita, chatoooo!” é comum.
Mas e o chato humano? O que fazer? Não há Neocid em pó para ele. Fugir, fingir que não viu, abrir o verbo? Pois é, está aí uma questão que parece não ter solução.