domingo, 30 de agosto de 2015

A Kombi branca, meus discos, meus livros, meus amigos

Na tarde deste sábado decidi arrumar meus CDs. Tinha superado o trauma (conto a seguir) e apesar de cansado e preguiçoso, resolvi por a mão na massa. No computador programei dois discos do Blur e dois concertos do Radiohead, bandas que adoro e comecei a arrumar os discos em ordem alfabética. Desisti. Banzo. Bateu banzo e uma lembrança.

Gozado, mas ninguém sabe dessa história. Nem meus familiares. Anos atrás mudei de endereço e contratei o frete de uma picape Kombi branca. Foi numa manhã de sábado. O dono, super gente boa, estava subindo na vida. Quando o conheci era flanelinha, passou a manobrista, comprou metade da Kombi de um primo, depois a Kombi inteira e fazia frete do bom, seguro e barato.

Não sou muito apegado as coisas, por isso toda a minha casa coube num pequeno caminhão baú enquanto que as coisas mais íntimas como discos, livros, botas e capacetes de motocicleta, mais pratos, talheres, etc foram na Kombi branca.

Fui para o novo endereço, o caminhão chegou, os caras descarregaram tudo rapidamente, mas a Kombi branca...o celular tocou, ligação a cobrar, era o dono da Kombi de um orelhão em prantos balbuciando que havia parado num sinal (semáforo) perto do antigo endereço e encostaram um revolver na cabeça dele. Teve que descer para não morrer, caminhar sem olhar para trás.

Levaram a Kombi com tudo dentro. A letra de “Casa no Campo” de Zé Rodrix me veio a cabeça...”Onde eu possa plantar meus amigos/meus discos e livros e nada mais”. Felizmente, meus amigos não estavam naquela Kombi. Seria insuportável perder o que tenho de valor maior.

Senti uma espécie de tonteira, uma vertigem estranha a ponto da diarista que trabalhava em minha casa perguntar se eu estava bem. Disse que não, depois disse que sim, voltei a dizer que não. Eu comemorava o fato do dono da Kombi não ter morrido mas pensava nos meus discos e livros.

CDs, mais de mil (dois mil?) e os livros...não dá para contar. Tudo de Machado, tudo de Rubem Fonseca, tudo de Paul Auster, tudo de….cacete. Mas o dono da Kombi tinha sobrevivido e eu não tinha o direito de ficar lamuriando.

Fui a delegacia com ele. A pé. No caminho encontrei um amigo de adolescência que era rábula. Contei por alto o que tinha acontecido e mesmo de calção e sandálias havaianas (era sábado) se ofereceu para ir a delegacia como nosso advogado. Topei. Francamente mal sabia o que estava dizendo.

Ele pediu para pararmos num bar para nos instruir. Tomou uma dose de jurubeba. Eu seria apenas testemunha e a vítima, única e exclusivamente o dono da Kombi porque segundo o rábula "a verdade é o caminho mais curto”. Ficou combinado assim. Se bem que a vítima realmente tinha sido o cara da Kombi que sentiu o frio do cano da arma, eu era um coadjuvante que “apenas” tinha perdido parte da história pessoal.

Na delegacia pegaram o depoimento dele. Nome, endereço, placa da Kombi, cor, ano, modelo, o que tinha havido, ele falou que transportava minhas coisas, o policial perguntou o que, eu disse livros, discos, capacetes e botas de motocicleta, cabides, pratos, facas e o policial digitou num computador com monitor de fósforo verde o Boletim de Ocorrência.

O dono da Kombi chorava copiosamente e aquilo me comoveu. Eu e o rábula falávamos “calma, podia ter sido pior”, mas não adiantava. Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Em mim um nó na garganta por ele e por tudo o que havia perdido, praticamente todos os discos de rock dos anos 60, 70, 80 e 90, mais tudo de Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Beto Guedes... “Só isso”.

O dono da Kombi assinou como vítima, eu como primeira testemunha e o rábula como segunda testemunha. Saímos e meu amigo rábula me abraçou comentando “cacete, que coisa...seus discos é?”. Eu disse “pois é, o importante é que não morreu ninguém” e fui embora. O dono da Kombi jurava que iria me pagar, apesar de eu tentar explicar que o que levaram não era mensurável. Ele não entendia o mensurável e muito menos o que era rábula. Paguei a quantia acertada (afinal, bem ou mal, o frete aconteceu) e fui para a minha nova casa.

Na semana seguinte, no trabalho, o celular tocou e era o cara da Kombi eufórico. A picape foi encontrada num matagal junto a rodovia Niterói-Manilha. Quando comecei a querer ensaiar uma comemoração ele explicou que “só levaram a carga...”. menos mal. Menos mal? Menos mal. Menos mal? Menos mal. Menos mal?

Hoje mantenho alguns CDs, 10% do que tinha e livros, 5%. As músicas estão no computador, formato MP3 e acho que se continuar resgatando daqui a três anos vou conseguir atingir a meta de 80% do material roubado. Livros? Jamais chegarei perto do que tinha em três estantes.

Quis o destino que eu desapegasse. Desapeguei. Felizmente, quatro preciosos amigos que não vejo há tempos me ligaram na tarde deste sábado. Que bom! Dá para viver sem discos, sem livros, sem cabides, mas sem amigos? Não tenho ideia de como deve ser.