quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sim, não, sim, não, sim, não, sim, não... necessária incoerência

Um dia desses me chamaram de incoerente. Ato-reflexo, pensei num poste. O poste coerente, teimoso, que quando venta tomba, ao contrário dos coqueiros que envergam, muitos roçam no chão mas a maioria, quando passa o vento, permanece de pé.
O homem só atingirá a plena maturidade quando aprender a conviver com a incoerência. Em muitas situações, incoerência é gol a favor e não contra. Cobrar coerência radical do ser humano é o mesmo que tentar convencer cobra a mugir.
Quando James Bond disse “nunca diga nunca mais” caminhava mais ou menos pela mesma picada. Todo mundo disse que jamais faria um monte de coisas que acabaram fazendo. Recentemente, percebi que sou uma das figuras mais incoerentes que conheço. E daí? Qual é o problema? Em muitas situações, incoerência talvez seja até virtude. Quem sabe? Não significa voltar atrás. Representa reavaliação, revisão, enfim, algo ligado ao prefixo re e não ré.
Na última semana do inverno do ano passado (estação que mais gosto) achei que estava assando o saco da humanidade. Andava meio tórrido, meio lancinante e áspero. Fiz vítimas preciosas e, numa segunda-feira, chuvosa e fria, comecei a trabalhar as 7 da manhã e só parei as 2 da madrugada. Dormi, acordei e fiquei na toca. Em seguida cometi outra incoerência: fui ao supermercado fazer compras. Eu que já tinha jurado que nunca mais pisaria naquela masmorra de soja, fubá e cebola, mas estava lá, carrinho na fila da caixa 5.
Apesar de tudo notamos que o povo, mesmo incoerente, cobra coerência. Exemplo: certa vez peguei um táxi, um Santana. O taxista disse, logo que entrei, que estava louco para trocar de carro, que estava achando aquele uma porcaria. Elogiei o conforto, a economia, resistência do bravo Santana. No final da corrida, o taxista não só havia desistido detonar o carro como começou a fazer declarações de amor ao Santana. E finalizou: “hoje estou de cabeça quente”. Incoerência? Sim, mas qual é o problema?
Na área afetiva as joaninhas e suas sirenes fazem ronda, marcam em cima. O que mais se ouve é “mas você não disse que o sujeito era um animal, minha filha? Como é que voltou para ele?” Não existe oceano de incoerências mais profundo do que o coração, essa coisa linda que carregamos na carcaça que é um verdadeiro porrete na face estranha e esverdeada da lógica. É o tal ditado: penso, logo pisso, ou penso. Aí alguém diz que não devemos satisfações a ninguém. Mentira. A incoerência, por mais sutil que seja, provoca um mal estar pois, queiramos ou não, vivemos numa tribo. E a tribo cobra satisfações que, mesmo inconscientemente, nos sentimos na obrigação de dar.
Alceu Valença gravou um clássico da música brasileira lá atrás, em 1977, chamado “Agalopado” onde logo na abertura escancara: “pois eu sou o porta-voz da incoerência”. Alceu é sensacional e desde que ouvi essa canção pela primeira vez achei incrível a coragem da confissão.
Será que a dinâmica existencial passa pela incoerência? Caso contrário como é ser dinâmico e coerente ao mesmo tempo? A coerência seria, em muitos casos, sinônimo de petrificação, de estagnação, de atraso de vida? Picasso era coerente? Não! Jimi Hendrix era coerente? Não! Einstein, Da Vinci, Vinicius de Moraes, Sartre, Mané Garrincha? Não! A incoerência, a incômoda e perturbadora incoerência foi a mais fiel escudeira desses gênios.
Não é pecado ir e depois dizer que vai voltar. Não é pecado voltar para quem juramos nunca mais ver pintada. Não é pecado desfazer e refazer. Não é pecado praticar, lucidamente ou não, esse bicho estranho e maravilhoso chamado incoerência. Por mais coerente que esse finado texto possa ter parecido.