sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O menino afogado na praia turca; o dia em que o mundo sentiu vergonha de si mesmo

Quero falar do menino Aylan Kurdi afogado num balneário da Turquia. Quero falar da foto daquela criança pequena, sapatinhos pequenos, bermuda, camiseta. Morta.

Inerte perante a boçalidade. Quero falar que aquele garoto, cujo nome todos nós já sabemos, transformou-se num mártir. Por causa dele (ou da ausência dele), da sua inocência de bebê que parecia adormecido perto do mar manso, a história vai sofrer, sim, uma reviravolta.

O mundo ficou envergonhado de si mesmo.

Quero dizer para o pai daquele menino que ontem, desesperado, gritou “eles escorregaram de minhas mãos” (além do menino, seu irmão um pouco mais velho e sua mãe também morreram)...bem, quero dizer para esse pai que se não tivesse morrido, seu filho poderia se tornar um líder pacifista mundial, um presidente, um monarca, um baluarte dos direitos humanos.

Mas quis a boçalidade humana que ele entrasse para a história com a sua imagem frágil, largado, abandonado, cuspido pelos homens, pelos poderes, pelos organismos internacionais, pela impotência moral, ética, estúpida que transformaram o planeta numa bola de fezes.

De um lado a inominável existência do terror do Estado Islâmico, Al Qaeda, Talibã e afins que arrancam por dia dezenas de vidas de meninos como Aylan Kurdi

De outro lado a imbecilidade do terror ocidental e sua máquina de guerra, que não difere quem é quem, onde, por que. O que vale é a bala. A bomba. O grito.

O mundo está envergonhado de si mesmo.

Mesmo com hordas e mais hordas de imbecis que ainda acham que o TER é mais valioso do que o SER, que a dignidade, ética, bom senso são invenções de fracassados, a imagem do menino mexeu com uma maioria.

Menos mal.

Mexeu e vai continuar mexendo porque até os gorilas se comovem diante de uma imagem daquela. Imagem que em mais de 40 anos de jornalismo eu nunca senti tão forte. E me fez chorar por dentro, olhando para a tela do computador inerte, pensando em até onde, até quando?

Até onde?
Até quando?

Siga em paz, menino Aylan Kurdi. Sua morte não foi em vão porque um dia o SER vai vencer o TER e revelará a verdadeira face dos fracassados.