sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Feriadão - "diria Euclides da Cunha, me fez ruborizar de tanto auto-orgulho num momento de “out estima” radical que é o do pé na bunda"

O dicionário explica: “Feriado - dia de descanso, instituído pelo poder civil ou religioso, em que são suspensas as atividades públicas e particulares”. Já escrevi sobre feriados. Um artigo meio marrento, sentando o pau especialmente nos feriadões, que atrapalham...atrapalham...atrapalham quem? O que? Hoje, com a devida distância, digamos, histórica, confesso que foi um texto egoísta.
Desci o cacete nos feriados porque jornalistas vivem um dilema. Se por um lado parte da redação fica de folga, a outra rala dobrado para compensar, já que a mídia não para, ou pelo menos não parava. Não foi um texto reclamão, mas agressivo porque naquela semana um feriadão tinha me obrigado a virar noites escrevendo, antecipando trabalhos para que o cronograma não fosse para o espaço.
Com o passar do tempo fui mudando de opinião e comecei a gostar dos feriados. Mais: comecei a adorar trabalhar nos feriados porque fico de folga em dias em que as cidades ditas turísticas não estão insuportavelmente cheias. Já dei zaralhadas de plantões em viradas de ano, Natal, carnaval e adorei. Trabalhar, não me aporrinhar com multidões de paruaras e, ainda por cima, ganhar por isso.
É evidente que não costumo viajar em feriados, ou feriadões, porque meu nível de masoquismo é baixo. Enchi o saco de passar feriados engarrafado nas sub-estradas do Estado ou largado como uma mochila perdida em esteiras de aeroportos lotados.
Num desses feriadões acompanhando uma namorada asiática que não falava português (a gente se virada num inglês à Bangu), fomos parar numa pousada no alto de uma montanha, totalmente selvagem. Sem luz (gerador ligado até 10 da noite), comida natural sem carne, sucos, água de fonte e muitos passeios pela mata virgem.
A asiática falava pouco, fazia muito. Só eu e o resto da confraria que compartilhava de suas taras ocultas sabemos do que falo, sinto, penso. Nosso feriadão foi de quatro dias quando perdi cinco quilos, comendo galinha, comendo alface, comendo abricó, comendo a insaciável asiática calada, quieta, que na hora do abajur lilás lembrava as bombas de Hiroshima e Nagazaki.
Não saí para caminhar. Nem ela. Parecíamos um casal de codornas internado no quarto dos fundos, para desespero de uma meia dúzia de outros casais que foram para aquele lugar com aquela conversa de salvar casamento ou, pior, reiniciar o casamento, como se fosse um Windows, um PC, um OS. Casamento é para os criativos, ousados, independentes, absurdos, seres a prova de rotina como aquela asiática que, um dia, deixou uma carta apaixonada (escrita a mão) na minha portaria e ganhou o mundo. De novo. 

Sofri porque me apaixonei pela liberdade dela, pelo imaginário dela, pela ausência de ciúme dela (não rolava nem “que horas são?”), pela beleza dela e...bom, ela se mandou mas deixou uma carta que, diria Euclides da Cunha, me fez ruborizar de tanto auto-orgulho num momento de “out estima” radical que é o do pé na bunda.
Pelo que observo, muita gente tem desistido de viajar nos feriadões porque percebeu que padece nas estradas e quando chega ao destino está tudo entupido, falta água, luz, vale a lei das filas, engarrafamentos humanos e o de automóveis pioram, praias superlotadas, blá blá blá.
Repensando tudo temos o direito de homenagear nossos heróis, santos e afins. Temos sim. Mas o que me fez realmente mudar de idéia em relação aos feriados foi uma matéria que li sobre um relatório da Organização Internacional do Trabalho, OIT, que informava que nós, brasileiros, estamos entre os povos que mais trabalham no mundo. Claro que os chineses batem recorde, mas aquilo roça no regime de escravidão.
Os que menos trabalham (medição em horas por semana), pasmem, são os alemães. Fiquei impressionado com a quantidade de feriados na Europa, com a quantidade de horas/semana que os franceses, ingleses e italianos trabalham que é muito menor do que a nossa. Ou seja, nós que trabalhamos pra caramba merecemos dar uma descansada-extra de vez em quando.
Não importa se viro noites, não importa se os prazos ficam apertados. O que importa é que, ao contrário do que muita gente pensa (com exceção dos números da OIT) nós, brasileiros, trabalhamos muito. Você sabe disso porque sente na carne. Além disso, os feriados desorganizam a vida de muitos outros profissionais que são submetidos a plantões, emergências, enfim, nem todo mundo bota o boi na sombra.

E começamos mais um feriadão. Em vez de despejar a ira, desejo a todos muito, mas muito prazer.