sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O bolinador de Tel Aviv e a bandeirinha de Magé

Para quem não conhece, Magé é a capital fluminense do absurdo. Calor absurdo, buracos absurdos, humor absurdo, falta d´água absurda, mulheres maravilhosamente absurdas. Fica no calcanhar da Serra de Teresópolis e nos anos 1970 um vereador de lá protestou enlouquecidamente nos jornais.
Indignado com uma publicidade de Teresópolis utilizando a imagem do Dedo de Deus, o vereador berrava que a bela montanha não pertencia a Teresópolis e sim a Magé. Um político teresopolitano, notório apreciador de aguardentes em geral, estava na pastelaria do China, que na verdade era filipino, fincada na Várzea (centro da cidade) e disparou: “Ah, o Dedo é de Magé? Então bota numa Kombi e leva, vereador!”.
A partir daí, lenda, pura lenda. O povo diz que o vereador mageense apareceu na pastelaria com uma arma na cintura procurando o político para “meter uma bala nos cornos daquele viado campeiro, porque se é de Teresópolis é viado campeiro sim”. Diante do calibre da arma do político, ninguém questionou e, segue a lenda, teve gente de terno rebolando e urinando de cagaço cantando “eu sou neguinha”.
Magé, cidade onde, também nos anos 1970, um amigo míope, desviou de uma vaca que atravessava a rua, bateu com a roda do carro no meio fio e capotou. Quase desmaiado ao volante, Bidú ouviu o comentário “vamos ter que operar a cabeça dele”. Meu amigo voltou ao ar. Berrou “ninguém mete a porra da mão em mim”. Foi salvo por uma ambulância que, fora da rota (o motorista foi levar a amante em casa), passava por Magé. Recolheu meu amigo e o levou para o Hospital Antonio Pedro, em Niterói, que já foi uma referência nacional em emergência (fechada há anos) e os médicos o salvaram operando, de fato, a sua cabeça.
Bidú teve um tórrido e proibido romance com uma mageense que era recepcionista de um jornal onde ele trabalhava. Ela estava estudando para ser bandeirinha de futebol, mas não direi mais nada porque os meus amigos e colegas já estão sabendo de quem estou falando. Ela saiu do jornal quando o Bolinador de Tel Aviv saiu do elevador, não conteve uma crise de alta libido e se atirou sobre a recepcionista, agarrando seus belos seios balbuciando frases desconexas do gênero “ahhhh, mamilos rosados como as colinas de Golã”. Foi um escândalo que resultou na demissão de todas as recepcionistas do jornal, substituídas por homens. 99,9% dos jornalistas romperam relações com o Bolinador de Tel Aviv (ele continuou lá) e 0,1% restante era gay.
Uma hora após o ataque (que ocorreu por volta das duas da tarde), ela ligou para Bidú pelo interno. “Já soube, paixão?”. Ele disse que sim, que estava preocupado, indignado, injuriado. Ela prosseguiu dizendo que “querem que eu processe aquele senhor, mas eu não vou processar não...dá muito trabalho...mas eu não liguei para isso, não”. Enquanto terminava de editar uma entrevista, Bidú perguntou “ligou para que?”. Ela pediu que a levasse a Magé a noite. “Hoje não vai dar para dormir no nosso cafofo, paixão. Vou ter que ir a Magé porque parece que esse ataque do tarado deu até no rádio. Tenho que ver mamãe, papai, sabe como é?”.
Bidú concordou em levá-la a Magé, pois adorava concordar com os desejos dela. Ligou para o hotelzinho em Benfica, perto da rua Capitão Abdalla Chama, vulgo rua dos Lustres, onde só havia lojas de luminárias, lâmpadas, lustres em geral e falou com Jonas, gerente, camareiro, garçom e vigia, cancelando a reserva do cafofo aquela noite.
As sete e meia da noite ele a pegou num ponto de ônibus perto do jornal e rumaram para Magé, no Chevette preto dele, segundo dono, quase zero km. Chateada, preocupada, visivelmente tensa, ela rapidamente acendeu um cigarro e jogou a cabeça no colo de Bidú pagando um boquete digno de Oscar+ Grammy+Mega Sena+Bingo clandestino.
Embolados como duas capivaras no cio ouvindo Nação Zumbi, singraram a avenida Brasil como os protagonistas de “Black Emanuelle”, o filme erótico menos hipócrita já feito. Quando chegaram na altura da Reduc Bidú já estava completamente nu. Não é simbolismo. Estava nu mesmo, da cabeça aos pés e mirou o carro na porta do Motel Pisca Pisca que, ele sabia, aceitava cheque pré-datado.
Atravessaram a noite engatados como Rin Tin Tin e a fada Sininho. Só pararam no Corujão, televisãozinha Philco caindo aos pedaços, mostrando o que ele achou se tratar de um filme de terror. Não se conteve e fez o que mais gostava de fazer: acendeu a luz do teto e brincou de galeto na brasa, sabe como é? Não sabe? Você pede para ela ficar girando e você contempla aquela obra de arte murmurando para si mesmo “coisa linda...coisa linda, isso é bossa nova, isso é muito natural”.
Cinco da manhã. Ela entrava no jornal as nove e ele uma e meia da tarde. Acabou que Magé dançou, mas ela conseguiu convencer a telefonista do motel a ligar para lá dizendo que estava na casa de Fulaninha, que de manhã cedo ia a Casa das Linhas trocar um presente e de lá direto para o jornal.
Bidú pegou o Chevette e fez uma manobra absurda, boçal, inglória mas conseguiu chegar no posto do Alemão onde tomaram o café da manhã. Saíram e, a poucos metros do posto, puf puf puf, acabou a gasolina. Ele desceu, pegou um galão no posto, pôs dois litros, pagou um menor abandonado para tirar o filtro de ar e despejar a gasolina, o carro pegou, deu marcha a ré no acostamento, pôs mais um quarto de gasolina (estava duro), saiu e as oito e quarenta deixou a sua bandeirinha perto do jornal. De lá, Bidú foi para um hotel meia estrela perto da rodoviária Novo Rio (que também aceitava cheque pré-datado) e dormiu até meio dia e meia.
Quando chegou ao jornal, uma da tarde em ponto, a notícia. O Bolinador de Tel Aviv fora mantido e todas as recepcionistas demitidas. Luto no prédio. Luto total. Bidú foi falar com ela. Estava de olheiras, tadinha. Pediu para ficar com ele. Claro. Saiu do jornal as três da tarde e foi esperá-lo no cafofo em Benfica, onde ficaram internados quatro dias e cinco noites. Era semana santa. Foi quando ele descobriu que estava apaixonado pela bandeirinha de Magé que, pena, casou 15 dias depois e ainda foi capa da Playboy meses depois.