domingo, 18 de outubro de 2015

O nado noturno

Dez horas da noite. O homem estaciona o carro bem junto à praia deserta. Tira o paletó, gravata, sapatos, calça. Pega uma sacola no banco de trás e acha uma sunga. Veste. Fecha o carro e sai caminhando em direção ao mar.
Na areia, milhares de pegadas, cicatrizes de um dia agitado, superlotado. O homem finge que não sente a energia, o vai e vem das pessoas que estiveram ali, torrando ao sol, gargalhando, brincando, com amigos, parentes, muitas crianças.
O vento sopra de leste. Ninguém, absolutamente ninguém na vasta extensão de areia marcada pelas milhares de pessoas que abandonaram ali seus sonhos, memórias, abstrações. O homem não está cansado, nem extenuado, nem estressado. Voltava de algum lugar e decidiu dirigir mais 57 quilômetros para encontrar o mar.
Mar que agora está ali. Água morna. Sem ondas, parado, escuro, mistério. O homem mergulha e sente algo que não sabe descrever. Não sabe ou não quer. O prazer atingiu suas nuvens mais altas, quase inacessíveis.
A medida em que nada para o fundo, percebe que seus braços e pernas, quando movimentam a água, provocavam ondas de luz. Algas marinhas tem esse poder. Nadando calmamente, consegue ouvir tudo o que o mar tem a dizer naquela noite. Inclusive o nada quase absoluto. A 40 metros da areia, acha que um raio cai na ponta de uma ilha. Estrela cadente.
O homem fica de costas, boiando, enquanto o vento de leste sopra manso e o céu...bem o céu está absolutamente indescritível. Ele jamais vira a Via Láctea tão extensa e nítida a olho nu. As estrelas cadentes continuam cruzando o céu negro-azulado por onde, volta e meia, passa um satélite artificial, ou quem sabe um ônibus espacial.
O homem continua boiando, arrastado para a direita pela corrente leve e teme pegar no sono. Ri de si mesmo diante da absurda hipótese. Mexe com os braços e novas ondas de "luzes verdes" se formam a sua volta como se o convidassem para dançar. O homem está disposto a não pensar em nada, mas lembra que deixou na mala do carro o prêmio especial de Astrofísica que ganhou no início daquela noite em uma solenidade cheia de pompa. Sentiu orgulho. De si, mas sobretudo do céu. Ou seria dos céus?
Tudo bem. Céus, diante de tantas variáveis. "E eu não estou aqui como astrofísico e sim como um homem comum em busca do acalento que só a Natureza consegue passar", pensa. Pensa sim na espiritualidade quase palpável do mar, da brisa, do céu, da infinidade de luzes e da eterna gratidão que sente por tudo.
Desde pequeno o homem "tem" uma estrela só sua. Anos antes, comentou com um colega sobre a sua estrela e no dia seguinte, no computador, estava o recado. "Meu caro, a “sua” estrela morreu há pelo menos 300 mil anos-luz. Abraços". O homem agradeceu por e-mail a pesquisa involuntária do colega, mas optou por não se render as evidências científicas. Se havia luz, havia estrela. Ponto. E ela estava lá. Ponto. O homem lembra que desde os cinco anos de idade tem aquela estrela como sua e que a eternidade nada mais é do que o tempo em que permanecemos por aqui. Logo, sua estrela é eterna.
Uma tainha salta perto, bem perto. Tainhas são curiosas. Como os pinguins no inverno. Jogado nos braços do mar, no aconchego do mar, que o homem sempre temeu e respeitou, sente até medo quando pensa "a vida é bela".
Prefere não olhar o relógio. O homem não quer saber quanto tempo está nos braços do mar e no berço do céu. Como também não faz idéia dos motivos que o levaram a mudar de rota e seguir para o mar, apesar da palavra gratidão não sair de sua cabeça.
Atravessa a areia, onde um cachorro vira-latas dorme. Veste a calça por cima da sunga, coloca a camisa. Tudo muito devagar. Liga o carro e sai, ouvindo “Je Suis Désolé”, com Mark Knopfler.
A 60 quilômetros por hora o homem agradece por aquele pedaço de noite. Percebe que uma lágrima escorre de seu olho esquerdo e em poucos minutos faróis, luzes artificiais, gente. O homem, relaxado, suspira e nada diz. Talvez um leve "tudo bem".