terça-feira, 27 de outubro de 2015

Porque detesto disco de vinil, aquele porco redondo

Em novembro vai rolar a 15a. Feira de Discos de Vinil do Rio de Janeiro. Dizem os apaixonados que é a maior e melhor do gênero. Recebi o convite de uma amiga logo de manhã e educadamente respondi dizendo que não vou. Ponto.

Respeito muitíssimo os apaixonados pelo vinil e também os que cultuam leques na parede, coleção de corujas de porcelana, carros antigos, revistinhas de sacanagem, enfim, não me meto na vida de ninguém. No entanto, confesso aqui o hediondo e absoluto horror que nutro pelo vinil desde que comecei a ouvir música. Tanto que quando saiu o CD (para mim a melhor de todas as mídias), dois anos depois doei todos os meus dois mil e varada LPs para uma instituição de caridade. Me livrei de um fardo que me perseguia. Os poucos que sobraram derreti e transformei em cinzeiro, que dei de presente aos amigos.

Como princesa Isabel, o CD me libertou da senzala. Senzala que me obrigava a ouvir música ao som de “clac, clac, clac” ou faixas que agarravam ou pulavam, agulhas que acabavam no meio da madrugada me deixando na mão, mofo, fedor. Os importados, mais pesados, eram menos problemáticos, mas muitos nacionais pareciam tampa de privada. Lembro de um disco do Nektar que simplesmente veio sem os graves. O primeiro lote chegou a ser recolhido porque deu um problema no azimute (toc, toc, toc na madeira) e a tal leva saiu bichada.

Quando comecei a trabalhar em rádio aos 16 anos de idade vi que não estava só. Os operadores de áudio odiavam o vinil porque ele “derrubava” os profissionais no ar. Faixas agarravam, ou o braço do toca discos sem mais nem menos saia voando sobre o disco causando aquele “vruuuuummm”, músicas pulavam, problemas que, em geral, causavam punições aos operadores.

Um dos programas mais importantes e sisudos da história do rádio foi o de música clássica na radio Jornal do Brasil FM. Só musicais de altíssimo nível, utilizando vinis importados tratados a pão de ló. Numa noite, um desses discos estava com uma pequena falha de fabricação e no final de um movimento agarrou. Já vivíamos a era do locutor-operador e ele tinha ido ao banheiro. O vinil fez o estrago, ficou mais de cinco minutos repetindo o mesmo trecho e, dias depois, o locutor recebeu a primeira advertência profissional de sua carreira.

Na Rádio Fluminense FM um disco durava, no máximo, 100 execuções. Depois a introdução das músicas saia com chiado porque para colocar no ponto as locutoras-operadoras tinham que rodar com a mão o início, para frente e para trás. Caos. Sem saída, inventei a expressão “reprodução a prego” para justificar o injustificável. Mais: vi locutoras colocarem moedinhas no braço do toca discos, sobrar a agulha, enfim, faziam feitiçarias para que aquela bosta tocasse direito.



E foi assim, derrubando profissionais, enchendo o meu saco que o vinil, aquele porco redondo saiu de cena (viva!) lá por 1985, dando lugar ao CD, isso sim uma mídia decente na minha modesta opinião. Desejo a todos uma ótima feira, desejo que curtam, cultuem, enfim, desejo tudo menos que me convidem.