segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Verão Pirata – por que Willis Carrier, inventor do ar condicionado, não ganhou o Premio Nobel?

Estamos no verão pirata já que o Brasil só abriga duas estações: quente e muito quente. Eventualmente, no inverno, dá uma esfriada, o cheiro de naftalina dos casacos ganha as ruas, mas é muito breve e rápido. Esse ano nem isso. Nosso “acordo” é com o suor e ar condicionado e não com lareiras e cachecóis.
Todo mundo reclama do calor mas o verão é adorado. Sempre foi. Até os últimos, quando as temperaturas passaram de 40 graus e os meios de Comunicação importaram dos Estados Unidos uma baranga chamada sensação térmica. Cheguei a ler nos jornais que este ano a tal da sensação térmica bateu os 50 graus algumas vezes.
Verão tem a seu favor algumas datas cruciais: Natal, Ano Novo e Carnaval. Por isso inventaram a lenda de que o país entra em férias em dezembro e só volta a trabalhar na segunda-feira depois da quarta de cinzas. Mentira. Quer dizer (olha a elegância, rapá!), não é verdade. Brasileiro trabalha pra cacete. Em alguns países europeus como a Espanha, há 30% mais feriados (fora o ronco diário depois do almoço) do que aqui.
Verão é aeroporto de mitos. No topo da lista as praias do Rio. Durante séculos cariocas sacanearam paulistanos por causa de praias que, diziam, nós temos e os paulistanos não. Ouso informar que praia no verão carioca é virtual. Superlotadas, tomadas de flanelinhas, arrastões, camada de ozônio furada, cachorros largando barro na areia, poucos são loucos de se aventurarem a um mergulho em Ipanema, Leblon ou na eterna Princesinha do Mar, minha amada Copacabana e seu amante inseparável, o Leme.
Como hoje todo mundo tem carro, milhões se deslocam de todos os pontos do Rio e periferia rumo as praias. Estimulados pela propaganda maciça de cerveja na internet, TV, jornais, rádios, revistas, enchem a cara. Muitos brigam. Mal intencionados fazem arrastões e num domingo apenas 20% conseguem curtir a chamada “praiana” sem se aporrinhar.
Em suma, na boa, sem provocações, os paulistanos são veranistas mais felizes porque, na certeza de que não tem praias, inventam piscinas, vão as represas, partem para dentro dos cinemas. É hora da revanche. Quem já passou um fim de semana em São Paulo (capital) sabe do que falo. Passei vários e o que mais fiz foi me divertir, relaxar, ir a dezenas e dezenas de piscinas, cinemas, parques.
Em 2012, o verão foi palco de um horror na região serrana do Estado do Rio. Aos que dizem que “aquilo já era esperado por causa da profusão de favelas”, peço um humilde peraí. Conheço a fundo a Serra dos Órgãos e, subindo para Teresópolis ainda dá para ver dezenas de barreiras que formam línguas de barro em áreas de vegetação nativa. Mas, é claro que a favelização (de ricos também) das encostas agravou mais.
Fora isso, o péssimo hábito de construir em beira de riachinho romântico, saído de historinha tipo Alice no País das Maravilhas, que quando bate um toró de verão vira rio asfixiado que sai do leito detonando tudo e todos pela frente.
Verão lança modas. Nesse noto que o genial shortinho esfarrapado das mulheres vai se manter na crista. Como em todo verão, meus colegas de grosso calibre vão sair de férias. Sites, jornais e revistas infestados de interinos, o que irrita muita gente. É no verão que as concessionárias de luz gozam com as contas astronômicas (des) graças a roubalheira planaltina e o uso de ar condicionado. Cheguei a entrevistar um engenheiro que garantiu que quanto mais novo é o aparelho menos luz ele consome. Só que é no verão que o desgoverno autoriza os aumentos de tarifas e nós, talvez por estarmos trôpegos de calor, nada fazemos. A última manifestação saudável de protesto contra a má qualidade de serviços foi em Piratininga, Niterói, anos 90. Consumidores apedrejaram uma subestação de energia.
Espero que todos vocês estejam tendo um ótimo verão pirata. Quanto as centenas (literalmente falando) de leitores que vivem na Europa, Asia, Estados Unidos, espero que o outono não esteja tão complicado. E que surja um novo Albert Camus para escrever mais um “Núpcias, o Verão”, que releio ano sim, ano não. E você, nunca leu? Corra e compre.