segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O quase cafezinho que tomei com um amigo


Artigo remixado. Original publicado em fevereiro.
Saí pelas ruas com o olhar meio nublado. Ouvia Thomas Newman no CD player do carro. Desejei chuva fina para compor o cenário, mas o solão estava inclemente naquele para e anda do trânsito. Sentia a música. Acho que também ouvia. Música não. Há quem prefira chamar de “tema” em se tratando de Thomas Newman. Tudo bem. O tema se chama “Plastic Bag Theme” e freqüentou a trilha do filme “Beleza Americana”, o tal que quase me deixou de quatro no cinema. Único filme que me fez mudar, concretamente, alguns aspectos de minha vida.
Se eu fosse um famoso astro e desse uma entrevista para a CNN, certamente diria que estava num dia “totalmente Beleza Americana”. Desejando rupturas, cavalos de pau existenciais, como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada nessa direção quando, ao contrário, estou numa fase vulcânica que beira a descacetação generalizada.
Foi quando resolvi entrar numa ruela, dobrar em outra ruela, uma rua, uma avenida e fui sair na praia. Ouvindo Thomas Newman, vidros fechados, sentindo cada nota, cada toque, cada carícia que o teclado dele faz. É, talvez a palavra seja essa, carícia.
O mar estava meio, como dizer, numb. Ah, por favor meu amigo, não vou traduzir porque vai quebrar a métrica dessas empenadas letras. Vá até o dicionário veja o significa numb e aplique o conceito ao mar. Você vai entender. Logo. Certamente você já deve ter se sentido numb algumas vezes na vida.
Thomas Newman acabou, entrou uma música do alemão Neu, anos 1970, chamada Hallogallo que pouca gente conhecei. Eu acho. Também abstrata, também nublada, também numb. Como será que eu estava no dia em que copiei o CD? Parei o carro perto de umas pedras. Meu celular não parava de tocar. Três pessoas e a mesma pergunta: “onde você está?” Resposta única: “estou a caminho.” Uma quarta queria me convencer a mudar de operadora de celular. Quebra de paradigma.
Vi um jipão Hummer passar lentamente. Preto. Saudade do amigo Aron, grande conhecedor de automóveis do hemisfério sul. Vontade de tomar um cafezinho com ele, contemplar motores de carros japoneses e como um Nissan GT-R Premium, 545 cavalos, motor V-6 3.8 twin turbo. “Taí, eu vou”, decidi. Mas o celular tocou de novo. Gente me esperando para uma reunião frutífera. O cafezinho fica para outro dia. Troquei o CD. Jack White, álbum Lazaretto. Que disco. Que discaço! Mas, apesar disso, ainda acho que “Le Noise”, de Neil Young, merece o prêmio de melhor da década por antecipação.
Cheguei na reunião e disseram que estava bem disposto. Ia responder “a música tem esse poder” mas achei piegas. A reunião corria animada, orgasmos múltiplos de ideias e quando acabou sentei num computador e sem pensar disparei um e-mail. Vai dar merda, mas disparei assim mesmo. Na sequência tomei um cafezinho, água, escrevi um poema que, como sempre, deletei porque não sou e não me sinto poeta.
Na volta para casa, pus de novo o CD de Thomas Newman. Numb. Fazer o que?

Viva a abstração!