quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Será que o ser humano despreza as boas notícias?

Nos anos 1980, eufórico, um colega decidiu lançar um jornal semanal só com boas notícias. Não vou esquecer o seu semblante, sua vibração, algo como se tivesse inventado a roda, a pólvora, a lâmpada. A mesa, com quase dez colegas jornalistas, estava cética. Houve muita discussão.
Uns diziam que um jornal assim seria alienante, tiraria o público da realidade e que a realidade, queiramos ou não, é brutal e na época o Brasil vivia a ditadura militar. Nosso animado colega rebatia dizendo que, exatamente por isso (realidade brutal) o público deveria estar buscando um antídoto. Outros acharam a ideia engraçada, mas o fato é que ninguém levou fé no projeto do R. A. (iniciais do meu colega).
R.A. era perseverante. Não desistia sob nenhuma hipótese, mesmo levando um nove a zero numa mesa de bar. Não chegou a dez a zero porque dei força ao projeto, e continuo acreditando (hoje mais do que nunca) que um jornal só com boas notícias seria um sucesso sensacional. R.A. procurou um desenhista, fez o esboço do jornal (o termo técnico é "boneca do jornal") e saiu por aí à cata do fundamental para qualquer mídia: anunciantes.
Antes, deu um giro pelo Rio conversando com jornaleiros, observando o comportamento dos leitores, principalmente aqueles que antes de comprar um jornal dão uma conferida nas manchetes, nos exemplares que ficam expostos do lado de fora das bancas. Mesmo percebendo que as notícias ruins tinham muito peso na decisão do consumidor de comprar um jornal foi mais fundo.
Conversou com alguns desses leitores e, segundo me contou mais tarde, a maioria quase absoluta optou por primeiras páginas equilibradas. Algo como sangue, suor e cerveja, digamos assim. Nem muito lá, nem muito cá.
Mas o persistente R.A. estava longe de jogar a toalha. Um dia me ligou para me mostrar o projeto do jornal. Gostei. Descobertas científicas maravilhosas, entrevistas com gente otimista, muita cultura, palavras cruzadas só com questões positivas, enfim, o jornal parecia uma espécie de "Shangri-lá News". E durante um ano ele tentou arranjar anunciantes. Conseguiu alguns, mas não foi suficiente para cobrir os custos do jornal. Em vez de desistir, vejam vocês, R.A. decidiu ir para o exterior onde hoje comanda um pequeno império de jornais e revistas especializadas em lazer e turismo. Infelizmente não consegui localizá-lo para publicar seu nome.
A verdade é que o ser humano tem uma fixação pela tragédia. Uma espécie que pagava ingresso para ver leão comendo cristão no Coliseu romano e até hoje paga para ver lutas , assiste mundo-cão na TV e tudo mais.
Será que um jornal só de boas notícias, nos moldes do que R.A. bolou, daria certo neste século 21? Totalmente apolítico, bem-humorado, com notícias de coisas que estão dando certo, doenças que estão sendo curadas, tecnologias que melhoram a nossa qualidade de vida, mas tudo sem histeria. Linguagem tranquila, como se fosse a mídia do lado bom do mundo, ou da humanidade se preferirem. Não sei se é o caso de se fazer um jornal desses mas, com certeza, é hora de se pensar em algo assim.
Ou não?









domingo, 27 de dezembro de 2015

Só a ficção é capaz de construir um mundo sem ódio

Até recentemente não acreditava na existência do ódio. Mais do que isso. Não acreditava que alguém pudesse me odiar até que tudo aconteceu, ou tudo não aconteceu. Não conheço o ódio. Não sei se ele faz acontecer ou faz não acontecer. Os motivos que nos tornam odiados variam de acordo com a pequenez de quem odeia, mas em geral é uma mistura de intolerância, impaciência, burrice emocional, falta de contraprestação afetiva (de nossa parte) ou interesses contrariados, tudo sob o manto da onipotência cavalar, egolatria, egoísmo e outras baixarias.
Situações que os cafajestes tiram de letra, na base do rabo de arraia, da rasteira existencial. Eles vem do nada, papo lascivo, dão boas bimbadas, ficam por ali um tempo até enjoar, mentem alucinadamente, caem fora, somem, voltam, comem de novo...ódio? De jeito nenhum. Até na lamúria de suas consentidas “vítimas” o cafajeste é cultuado em frases lapidares do gênero “veio aqui na maior cara de pau, me comeu horas. Acordei de manhã e ele já tinha sumido, aquele canalha, que não me liga, não me escreve...vândalo adorável”.
No planeta da ficção podemos viver sem a presença cinzenta do ódio porque lá podemos inventar presenças e ausências. Um mundo sem ódio, por exemplo. Mergulhei fundo no mundo da ficção quando escrevi meu primeiro (e ainda único) romance, “5 e 15”, que foi lançado em 2007 pela Tech & Mídia Comunicação da amiga Liliana de La Torre. Este ano resolvi por o livro na internet. Quem quiser ler (aviso que é barra pesada) é só clicar aqui: http://5e15lam.blogspot.com.br/

Não foram poucas as pessoas que leram “5 e 15” e depois mandaram e-mails com perguntas do gênero “como nasceu a ideia que você colocou no capítulo X?”. Sempre respondi “não sei” porque de fato não tenho a menor ideia de onde vem as ideias.
Todo ser humano tem suas ficções. Isso é fato comprovado até por revistas de fofocas. Existem as ficções do bem, que se transformam em livros, filmes, peças de teatro, poesias, letras de música e as do mal, muito chegadas a paranoias, medos inexplicáveis, fofocas e dezenas de outras consequências. Fato é que há muitos anos li num livro que botar pra fora as boas ficções faz bem a saúde.
Eventualmente me aventuro a escrever devaneios totalmente ficcionais, mas, ainda assim, alguns leitores perguntam se o que escrevi aconteceu ou não. Ou então, se aquela ideia foi inspirada em alguma experiência pessoal que vivi, enfim, parece que alguns leitores precisam ver um pouco de realidade nas ficções.
Tenho colegas jornalistas que se dão muito bem com a ficção, mas eles sempre dizem que o pavio é aceso por algum elemento factual, alguma coisa que aconteceu ou que eles achavam que iria acontecer. Outros não conseguem. No máximo produzem uns ensaios, sempre baseados em fatos, dados, comprovações.
Um de meus primeiros textos de ficção brotou da história que foi contada em uma roda por um lendário cascateiro de Niterói. Ele disse que certa vez estava numa boia de pneu de caminhão na Praia de Icaraí, pegou no sono e acordou em Copacabana. Sem ter o que fazer, dormiu de novo e acordou em Icaraí. E ai daquele que o questionasse porque além de truculento ele brigava bem pra cacete.
Tanto que, anos mais tarde quando publiquei a história num jornal local (totalmente maquiada, disfarçada, cheia de artifícios, mas não adiantou porque ele reconheceu) o cara andou me procurando. Diziam que queria me dar uma surra.
Até que o acaso me fez encontrá-lo na fila do cinema Icaraí e ele me tratou amavelmente, ofereceu pipoca e o falecido (eu acho) Chucola, drops de Coca Cola. Entendi. No fundo, ele adorou ver sua história publicada, apesar de todas as deformações que cometi para ocultá-lo. Vai entender. Aliás, entender pra que? Por que temos essa cisma de querer entender muitas coisas que nos são totalmente inexplicáveis, entre elas a ficção?


Não sei.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O anti clima de verão, ou, o brasileiro trabalha pra cacete; é só pararem de roubar seus empregos


O verão voltou a cena. Aberta. Todo mundo reclama do calor, mas o verão é adorado. Sempre foi. Até os últimos, quando as temperaturas passaram de 40 graus e os meios de Comunicação importaram dos Estados Unidos uma baranga chamada sensação térmica. Cheguei a ler nos jornais que no verão do ano passado a tal sensação térmica bateu os 50 graus algumas vezes.
Pode ser impressão minha mas a tal euforia de veraneio, o culto ao sangue, suor e cerveja, anda de bola murcha. Pelo menos nas chamadas redes sociais onde a maioria clama por chuva, por temperaturas mais baixas. Deduzo (dentro da boçalidade consentida pela estação) que o preço da conta de luz (estupro consentido pelos votos que jogaram essa gente lá), somado a arrastões nas praias, falta d´água, falta de grana e, por que não, falta de ânimo, deram uma brochada ampla no chamado “tecido social”, que diante das circunstâncias começa a enxergar o verão como vilão e não como heroizinho de quinta.
O verão tem a seu favor algumas datas cruciais: Natal, Ano Novo e Carnaval. Por isso inventaram a lenda de que o país entra em férias em dezembro e só volta a trabalhar na segunda-feira depois da quarta de cinzas. Mentira. Quer dizer (olha a elegância, rapá!), não é verdade. Brasileiro trabalha pra cacete; é só pararem de roubar seus empregos. Em alguns países europeus como a Espanha, há 30% mais feriados (fora o ronco diário depois do almoço) do que aqui.
Verão é aeroporto de mitos. No topo da lista as praias do Rio. Durante séculos cariocas sacanearam paulistanos por causa de praias que, diziam, nós temos e os paulistanos não. Ouso informar que praia no verão carioca é virtual. Superlotadas, tomadas de arrastões, flanelinhas, camada de ozônio arrombada, cachorros largando barro na areia, poucos são loucos de se aventurar a um mergulho em Ipanema, Leblon ou na eterna Princesinha do Mar, minha amada Copacabana e seu amante inseparável, o Leme.
Como hoje muita gente tem carro, milhões se deslocam de todos os pontos do Rio e periferia rumo as praias. Estimulados pela propaganda maciça de cerveja na internet, TV, jornais, rádios, revistas, enchem a cara. Muitos brigam. Mal intencionados fazem arrastões e num domingo apenas 20% conseguem curtir a chamada “praiana” sem se aporrinhar.
Em suma, na boa, sem provocações, os paulistanos são veranistas mais felizes porque, na certeza de que não tem praias, inventam piscinas, vão as represas, partem para dentro dos cinemas. É hora da revanche. Quem já passou um fim de semana em São Paulo (capital) sabe do que falo. Passei vários, quando trabalhei como freelancer do Estadão e o que mais fiz foi me divertir, relaxar, ir a dezenas e dezenas de piscinas, cinemas, parques.
Em janeiro de 2011 o verão foi palco de um horror na região serrana do Estado do Rio. Aos que dizem que “aquilo já era esperado por causa da profusão de favelas”, peço um humilde peraí. Conheço a fundo a Serra dos Órgãos e meses depois subindo para Teresópolis ainda dava para ver dezenas de barreiras que formaramm línguas de barro em áreas de vegetação nativa. Mas, é claro que a favelização (de ricos também) das encostas agravou mais. Fora isso, o péssimo hábito de construir em beira de riachinho romântico, saído de historinha tipo Alice no País das Maravilhas, que quando bate um toró de verão vira rio asfixiado que sai do leito detonando tudo e todos pela frente.
Verão lança modas. Noto que muitas mulheres usam o shortinhos jeans esfarrapado, uma maravilha genial. Genial exatamente por ser extremamente simples, despojado, ousado. Como em todo verão, meus colegas de grosso calibre saíram de férias. Sites, TVs, jornais e revistas infestados de interinos, o que irrita muita gente.
É no verão que as concessionárias de luz gozam com as contas astronômicas (des) graças a invenção das bandeiras vermelhas do governo locupletadas com o uso de ar condicionado. Cheguei a entrevistar um engenheiro que garantiu que quanto mais novo é o aparelho menos luz ele consome. Só que é no verão que o desgoverno autoriza ainda mais os aumentos de tarifas e nós, talvez por estarmos trôpegos de calor, nada fazemos. A última manifestação saudável de protesto contra a má qualidade de serviços foi em Piratininga, Niterói, anos 90. Consumidores apedrejaram uma subestação de energia e o serviço melhorou.
Espero que todos vocês estejam tendo um ótimo início de verão. Quanto aos leitores que vivem na Europa, Asia, Estados Unidos, espero que o inverno não seja tão complicado. E que surja um novo Albert Camus para escrever mais um “Núpcias, o Verão”, que releio ano sim, ano não. E você, nunca leu?
Corra e ache um.





quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Feliz Natal!

Meu Natal é totalmente lúdico. Tem neve, Papai Noel com trenó puxado por renas sob um céu azul-petróleo bem frio, crianças as gargalhadas fazendo guerra de bolas de neve e, claro, os sinais de Deus. Quais sinais? Não sei porque Deus sinaliza o tempo todo, de todas as formas, caminhos, descaminhos. Deus é Deus.
Ouvi um cidadão dizer para a sua amiga/mulher/namorada/amasia/não sei, algo do tipo “acho o Natal uma boçalidade”. Não sou de me meter na conversa dos outros, mas por que uma boçalidade? Perguntei a mim mesmo enquanto caminhava numa rua qualquer.
Nesse meu rápido rali à pé notei, sim, uma euforia meio histérica nas pessoas, mas preferi valorizar as vitrines das lojas que, não sei se por coincidência ou por regulamento fashion, estão mais tradicionais. Numa delas, modernosa de janeiro a dezembro, havia até um presépio completo, com vários populares tirando fotos com seus celulares.
Lembrei ainda do enorme texto de Natal que escrevi ontem para publicar aqui na Coluna mas que, por razões que ainda desconheço (acho que a mão da autocrítica estava pesada demais) acabei deletando. Lembro de cenas envolvendo flocos de neve, cachorros, crianças e pinheiros, ou seja, um cenário nada tropical.
Da mesma maneira que o hemisfério norte do planeta jamais conseguirá fazer um carnaval como nós fazemos, aqui jamais conseguiremos concretizar o imaginário do Natal como eles conseguem. Por que? Cadê a neve? Cadê o frio? Cadê as renas? Cadê...enfim, cadê, entendeu?
Você não vai encontrar nessas frases nenhuma sacada genial, mas apenas o que alguns escritores, filósofos e pessoas anônimas sentiram e escreveram sobre o Natal. Uma data tão poderosa que só o silêncio da contemplação sabe explicar.
"O Natal é um tempo de benevolência, perdão, generosidade e alegria. A única época que conheço, no calendário do ano, em que homens e mulheres parecem, de comum acordo, abrir livremente seus corações."(Charles Dickens)
"Natal é tempo de encontros e reencontros, procure ser e fazer feliz. É tudo o que importa! (L. Bonotto)
"Será que diante de tantas evidências de felicidade seria utópico conseguirmos fazer do Natal uma data que se repetisse, trezentas e sessenta e cinco vezes por ano?" (Ivan Teorilang).
"Lembre-se, se o Natal não é achado em seu coração você não o encontrará debaixo da árvore" (Charlotte Carpenter).
"Ainda que se percam outras coisas ao longo dos anos, mantenhamos o Natal como algo brilhante. Regressemos à nossa fé infantil." (Grace Noll Crowel).
"A única pessoa realmente cega na época de Natal é aquela que não têm o Natal em seu coração." (Helen Keller).
"Há mais, muito mais, para o Natal do que luz de vela e alegria; o espírito de doce amizade que brilha todo o ano. É consideração e bondade, é a esperança renascida novamente, para a paz, para entendimento, e para benevolência dos homens." (Autor Desconhecido).
"Paz e generosidade e ter graça é compreender o verdadeiro significado de Natal." (Calvin Coolidge).
"Bendita seja a data que une a todo mundo numa conspiração de amor." (Hamilton Wright Mabi).
"É tempo de reflexão, vejamos o que construímos de bom para a humanidade e, em todo Natal, façamos esta reflexão para que possamos construir um mundo melhor." (Bruno Calil Fonseca).



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A lua ou o urubu? A escolha é nossa

O publicitário Nizan Guanaes dono do grupo ABC (o maior do país) escreveu o sublime texto “Rezar” na Folha de S. Paulo desta terça-feira. Alguns trechos:

Inspirado por Abilio Diniz e pelo meu personal trainer, que é presbiteriano, comecei a rezar todas as manhãs. Leio os jornais e depois rezo.”

Não rezo para ser santo. Rezo para ser homem, para ser humano. No sentido divino desta palavra: ser um líder humano, um profissional humano, um marido humano, um pai humano. “

Quando você reza ou medita, você foca, concentra, reúne forças, toma o controle da sua vida. Você toma o controle da besta, como a inveja, a usura, o olho gordo, a pequenez, o medo e os instintos animais que existem em cada um de nós.”

Sem a oração e a meditação a gente desembesta a fumar, a beber, a tomar Rivotril. Desembesta a sofrer e a passar as noites acordado. Desembesta a pensar com o fígado em vez de pensar com a cabeça, com o coração e com a alma.”
A besta é uma má pessoa e um péssimo empresário. Rezar é o meu antídoto contra ela.”
A oração está em minha vida 24 horas por dia desde sempre, mas especialmente a partir de 1985 quando conheci a Igreja Presbiteriana Betânia. Lá percebi que orar é como respirar, contemplar, orar é um ato reflexo e não uma formulação, um comando racional como imaginava. Aprendi que falar com Deus dispensa protocolos, dispensa artifícios, dispensa formalismos.
Para mim esta terça-feira foi um dia difícil. Desde a madrugada. Dormi mal, muito mal, acordei várias vezes atormentado por um mal estar físico acompanhado de uma dose de angústia fora do comum. No início da tarde, a caminho do dentista, a pé, a oração chegou a mim, como sempre sem explicações. Orei muito, orei forte, a ponto de meus olhos ficarem marejados, mas infelizmente não consigo chorar.
No final do dia, depois das seis e meia, quis o destino que eu tivesse um problema e não conseguisse sair do Centro de Niterói em direção a Igreja Betânia. Simplesmente a chave de ignição do meu carro não quis virar. De jeito nenhum. Liguei para o meu mecânico há 20 anos que, espantado, disse “estranho...muito estranho esse defeito. Em geral quando trava a chave não sai...”. Enfim, não havia explicação lógica. Liguei para o seguro e, sabem como é, hora do rush e tudo mais, esperei mais de uma hora em 15.
Orando, calado, quieto, porta do carro aberta num beco sem saída que todo mundo acha perigoso, menos eu porque...bom, não sei por que não acho muito perigo por aí, mas eventualmente o perigo me flagra em lugares e situações absolutamente ingênuas e cotidianas.
O reboque chegou, o motorista apanhou para conseguir manobrar o caminhão e guinchar meu carro. Ao todo foram mais de três horas e acabamos deixando o carro em frente a seguradora. Amanhã vai um chaveiro lá consertar o que todo mundo chama de “bobagem”, mas que eu prefiro tratar como “livramento”. Pela ilógica da minha fé, ao travar a chave do carro me livrei de algo ruim. O que? Não me interessa. Só me resta agradecer. E muito.
Senti a presença do alívio quando lembrei da imagem ali de cima, a lua e o urubu. Uma imagem que tirei da capa de uma página do Facebook que estava anunciada. Cliquei, entrei e peguei. Adoraria dizer o nome da pessoa da página mas vacilei, perdi, mas se ela entrar em contato é claro que darei o crédito.
O urubu simboliza o mau agouro. Voz do povo. Simboliza o baixo astral, a imundice física e espiritual. Não a ave em si, que não tem nada com isso, mas o seu arquétipo. A lua? Simboliza a beleza, a mulher, o amor, a leveza e também (por que não?), a loucura. O álbum “The Dark Side of the Moon” do Pink Floyd é uma amostra, especialmente na arrepiante “Brain Damage” (“Cabeça Doente"”).
Mas a lua é a lua e é com ela que eu vou. Os urubus, que por sinal andam sumidos, eu não conheço e não quero conhecer. Escolher entre a lua e o urubu é uma decisão nossa. Existencialmente falando, há quem prefira a lamúria, a carniça cotidiana, há quem funcione como um imã de más notícias, coisas ruins e como sacramentou Carl Jung a energia psíquica é uma só. Quem decide pelo positivo ou pelo negativo somos nós.
Logo, quem opta pelo urubu fique a vontade mas não me convide. O inconsciente é uma esponja, absorve tudo; o bom, o ruim, o belo, o feio. Logo, urubuzou? Estou fora. A minha opção existencial/espiritual é a lua, o sol, o mar, a luz e, diz a lenda em minha família, meu nome começa com Luiz em homenagem a meu pai e também a Luz.
Pode ser?







Escrever para ninguém é coisa de eunuco

Algumas pessoas perguntam por que não tenho mais postado vídeos no Facebook. Tive uma fase em que postava direto, compartilhava o prazer da música com todas as pessoas que estão lá. Só que resolvi investir mais aqui nesta Coluna.
Lembrei do amigo Miguel Aranega que, como eu, também postava muitos vídeos musicais em sua página. Um dia, ele escreveu um longo texto dizendo que iria parar de postar por uma série de razões e eu até deixei uma mensagem para ele protestando. Depois foi o Lula Tiribás, Sonia Toledo, Débora Dumar, enfim, todos os meus amigos (reais, conheço há anos) pararam de postar músicas.
Não sei se a falta de contato com eles durante a postagem, a troca de comentários e informações sobre as músicas, foram me desestimulando ou se a rua, a chuva e a fazenda se tornaram mais interessantes.
Lembro dos tempos do extinto Fotolog. Tive um chamado Quadrophenia 1973 só sobre The Who. Todos os dias, durante meses a fio, eu publicava um texto baseado em alguma foto inédita da banda. Havia dezenas de pessoas de várias partes do mundo acompanhando, comentando, enfim, interagindo.
Até que um dia tiraram o meu Fotolog do ar. Vim a saber que foi por causa de direitos de imagem, algo que não discuto. Direito é direito. Mas, não nego, foi uma ducha de água fria porque, afinal de contas, sou fã da banda e já havia postado dezenas de páginas fartamente ilustradas.
Por causa disso me distanciei das mídias sociais, mas quando me apresentaram ao Facebook, gostei. Quanto a esta Coluna está nítido que é minha mídia predileta, que não pretendo abandonar. O número de acessos só cresce, o retorno está sendo ótimo e, além disso, sou do time que gosta de escrever para milhares. Gosto de compartilhar o que sinto, penso, vejo, e mais ainda de ouvir/ler opiniões. Se eu fosse um intelectualóide masturbador diria que sou “midiático” (urgh!).
Nunca tive diários, não gosto de escrever bilhetinhos essas coisas porque meu negócio é escancarar, de preferência para milhares por dia, possibilidade que esta Coluna vê como altamente viável em breve. Com a força de vocês, amigos, colegas leitores, sem o que nada, absolutamente nada faz sentido.





domingo, 20 de dezembro de 2015

O sedã japonês

O sedã japonês é verde escuro e estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Ele entrou disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, para viajar pelo Pantanal e fazer uma perna para o deserto de Atacama, Chile. Ele sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando o olhar dele fixou-se no sedã japonês.

Levantou, olhou a frente, traseira, laterais. Abriu o motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV.

Mudou de ideia. Em vez do SUV comprou o sedã japonês. No dia seguinte saiu da loja, pôs um CD no Kenwood de fábrica e saiu. Foi até Barra do Sana resolver um assunto, desceu por Teresópolis e retornou como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixou a BR e decidiu ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês...passou! Com água na porta, muita vezes boiando, sequer falhou.

De dois em dois anos pensava em trocar o sedã japonês por um mais novo, mas se perguntava para que se o carro até alma de jipe tinha. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que ele iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Ele e o sedã japonês já não sabiam mais quem era quem. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais...jamais traiu o seu DNA japonês.

Mas um dia...bem um dia surgiu um outro japonês novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também...e ele vendeu o sedã japonês. Quase ficou arrasado mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, ele teve certeza de que seu grande amigo continuaria em boas mãos.

O novo japonês parece ter gostado do novo dono. Começaram a construir uma história bacana, leve, rápida, precisa, estável. Sem problemas. Como os carros japoneses e alemães.

Como a vida deveria ser.


sábado, 19 de dezembro de 2015

O Brasil é o único lugar no mundo onde o fundo do poço tem sub-solo. Ou, overdose de tecnologia faz bem ou mal?

Eu tinha uma agenda no computador onde registrava todos, absolutamente todos os meus compromissos. Não sei por que, numa manhã, a tal agenda deu pau. Não queria abrir de jeito nenhum. Procurei me acalmar (tecnologia e pânico não combinam), reiniciei o computador e tentei abrir de novo. Nada. Em suma, a agenda de última geração foi para o espaço por razões que até hoje ignoro.
Mais. Meu computador tem mouse, teclado e monitor sem fio. No início foi uma maravilha, máquina super prática, ótima mobilidade, enfim, os gênios acertaram na mosca. Era o que pensava até as 3 horas da madrugada de um dia de semana quando a pilha do mouse descarregou e eu tive que interromper uma matéria que escrevia, com prazo.
Peguei o carro e parti para as lojas de conveniência de postos de gasolina atrás de uma pilha. Para não ter dúvida, levei o mouse comigo e, ufa!, no terceiro posto encontrei a pilha. Comprei duas (o teclado tem pilha também) e retornei para casa. Consegui terminar o trabalho. Mas, no dia seguinte, comprei um mouse convencional e um teclado ídem. Ou seja, no final voltei a ter um desktop convencional. Problema? Nenhum. O negócio é ficar tranquilo, dormir bem, sem estresse.
O episódio da agenda no computador serviu para que eu simplificasse mais a minha vida tecnológica, que já não era exagerada. Eu poderia simplesmente baixar a instalar outra agenda, ou usar a do Google, mas optei por usar um antigo telefone celular que comprei em 2005 (isso mesmo, lá em 2005!) cujo código de segurança tornou-se indecifrável. Em outras palavras o telefone não aceita chip de nenhuma operadora. Pois, desde o episódio da agenda que “morreu” na minha máquina ele se tornou a minha nova ferramenta para marcar compromissos. Simples, fácil e, sobretudo, tranquila.
Um dia desses peguei um táxi que parecia camelô vietnamita. A bordo, um smartphone que berrava “taxi!” de 15 em 15 segundos (do serviço Easy Taxi), GPS, um monitor que checava corridas on line da cooperativa dele), mais uma central de multimídia com previsão do tempo, temperatura externa, interna, mais o rádio de comunicação, e um sistema de som compatível com pendrive. Estava tocando Anitta (para meu desespero) e depois dela uma cordilheira de baixarias já que, dependendo da capacidade, um pendrive pode armazenar meses de música sem repetir. Ah, sim, no meio desse cipoal tecnológico estava o taxista, orgulhoso de seus brinquedos. Eu pensei: “se eu fico seis horas aqui dentro, jogo esse carro num abismo”.
Esse sentimento de overdose de tecnologia é um problema meu ou todo mundo sente? Meu irmão, é o cara que conheço que mais entende de computadores e afins. Ele já tinha um portátil chamado CP-500 se não me engano na segunda metade dos anos 70. Seu telefone é de última geração, o GPS do celular está OK, do carro também, e cada vez mais ele estuda e dá aulas de tecnologia.
Para ele, tenho certeza, a overdose de tecnologia não faz mal algum. Para mim? Por displicência de raciocínio, preguiça mental, sei lá mais o que essas coisas não funcionam direito. Não tenho paciência para insistir, não gosto de ler manuais e pago para não me aborrecer.
Mas a questão é: estou sozinho nisso? Fora meu irmão, alguém mais é vidrado nas novas tecnologias que, quando bem tratadas, funcionam perfeitamente? Ou tem muita gente de saco cheio disso tudo também? Aguardo opiniões.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Diálogo Interno, ou, “toda a vez que andei na linha o trem matou”, ou, todo inconsciente é profissional, assim como o todo consciente é amador

Texto remixado. Publicado originalmente em janeiro de 2014
Consciente – Gozado, escrevi um artigo apoiando o amor incondicional e quase fui apedrejado. Quase arrancaram o meu saco, penduraram numa pipa (ou cafifa, ou papagaio) e mandaram para longe.
Inconsciente – É assim mesmo. Quem tem sul tem medo. O pavor das pessoas com o amor só perde para o cagaço que sentem da paixão. Principalmente a paixão virtual, que eu chamo de cisma, sabe qual é? Não, você não sabe qual é.
C – Lá vem você com essas conversas, como se Jung, Freud e Lacan não tivessem feito o seu rastreamento. Só falta agora arrancar de uma frase solta e sem nexo a máxima “toda a vez que andei na linha o trem matou” e colocar no título do artigo.
I – Será que vale à pena não arriscar e fingir que estou submetido ao seu comando? Todo inconsciente é profissional, assim como todo consciente é amador. E se eu te induzir a colocar essa máxima, que tem zaralhadas de explicações e análises, no título do texto, o que vai fazer?
C – Alguns riscos valem à pena. Eu ariscaria clicar num blog para ler uma opinião favorável a suruba existencial. Como você sabe (você é muito fofoqueira, com A mesmo) estou no meio de uma.
I – Você está diferente hoje. Meio nublado, quase mormaço. Esquisito pra cacete, meu chapa.
C – Ando tão a flor da pele que até beijo de novela me faz gozar (Carlos Zéfiro).
I – Que gracinha. Só rindo, diria aquele personagem de Rubem Fonseca.
C – Não acho gracinha coisa nenhuma. Se um dia eu conseguir chorar vou te interfonar, sua vadiazinha fofoqueira.
I – Nada que o tempo não resolva.
C – O tempo e o vento. O importante é que continuo no timão de meu destino.
I – Hahahahahahahahah. Ninguém regula o destino, meu chapa. Nem eu. Ou você deixou de acreditar em inconsciente coletivo?
C – Isso começou a virar papo de intelectualóide babaca. Nós dois já combinamos, tempos atrás, não cair mais nessa cilada imbecil. Mas achar que estamos no timão já dá uma força. Esse negócio de “deixa a vida me levar” é conversa de pagodeiro.
I – Provavelmente por isso você não publicou o artigo sobre o amor incondicional, paixão virtual, esses sentimentos impossíveis, logo, tolos. Só falta me dizer que está apaixonado por uma mulher com quem nunca conversou para eu me mijar de rir aqui.
C – Publiquei, sim! Ainda pus uma fogueira da Inquisição ilustrando o amor impossível porque o amor impossível, a paixão virtual, são escroques que merecem ser queimados em praça pública. Mas já que você insiste que toda a vez que se anda na linha o trem mata, assuma logo a irresponsabilidade irrestrita e vá viver como os existencialistas.
I – Seu livro está quase pronto, né?
C – Sim. Vai sair ano que vem e nele deixo você, Inconsciente, falar a vontade. Até agora não sei direito se vai ser bom ou não. Volta e meia eu te chamo de privada, lodo, caixa de gordura de minha essência.
I – Sei disso. Acho bonitinho.
C – Aliás, as pessoas deveriam conversar mais com seus inconscientes.
I – Somos muito incômodos porque guardamos verdades ácidas e, talvez por isso, as pessoas prefiram nos apagar, ou, como dizem atualmente, deletar.
C – Como assim?
I – Ora, passarinho quando anda com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo. Estamos dentro de vocês e continuamos falando. Uma canção do Pink Floyd chamada “Comfortable Numb” descreve exatamente essa situação.
C – The Wall é uma obra prima.
I – Muros. Quando submetidos a traumas muito violentos nós, inconscientes, nos tornamos muros.
C – Que todo mundo tenta derrubar para se libertar. Estou tentando falar fácil para não espantar os leitores.
I – Todo mundo não. Há os que preferem viver em bares todos os dias, o dia todo, tomando cerveja e conhaque, assistindo TV, fumando maconha, hahixe. Essas pessoas acham que estão nos dando uma rasteira. Hahahaha. Só rindo, diria o tal personagem de Rubem Fonseca.
C – Aprendi muito conhecendo um pouco de você nas terapias ao longo da vida.
I – Obrigado, você também é gente boa e, se tudo der certo, vai pro céu. Rsrsrsrsrs.
C – E, no mais?
I – Siga. O sinal está verde.









terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Coluna do LAM volta a ser Coluna do LAM

A lua surgiu
Redonda como um tamanco
Se você gosta de sorvete
Por que roubaste minha bicicleta?

Porque joguei um limão n´água
Pesado foi ao fundo
A água ficou turva
Camarão não tem pescoço”

- De um à toa cambalhotando em Barra do Sana, RJ


Muitas coisas não tem lógica nessa vida. Ontem, 14 de dezembro, foi aniversário da Coluna do LAM. Três anos. Num rasgo de sei lá o que decidi mudar o nome da coluna, o endereço e o design.

Hoje de manhã, chuva de e-mails. Leitores reclamando. Muito. Não entenderam o porque da mudança e eu nem perdi tempo em explicar por que...sei lá por que (rs).

Tendo em vista a reação (que bom! Horrível é o mutismo), volta a Coluna do LAM. Mesmo nome, endereço e design. E abaixo, o texto que inaugurou a outra coluna.

Cavalgando nas nuvens, memórias, sonhos, reflexões


Ia escrever que estou na internet desde os anos 90, mas na verdade a internet é quem está em mim desde sempre. Lembro bem. Fui a casa de meu irmão, Fernando Mello, brilhante advogado (www.fariasmelloberanger.com.br) para ver o que era isso. Isso, a internet. Na época, a conexão era feita por telefone, havia poucos sites, mas isso me fascinou. Especialmente quando mandei e recebi um e-mail, criado, se não me engano, no Hotmail.
Dois dias depois, chamei o técnico que dava alpiste, banho, enfim, cuidava de meu computador, e ele instalou um modem, assinei um provedor do Rio (ainda se chama Arras) e comecei a navegar. Nunca mais larguei a internet. Volta, de novo. A internet nunca mais me largou. Tornou-se cada vez mais fundamental para as minhas profissões (jornalista, radialista e escritor) e também para ampliar o leque de amigos. Fiz sim, muitos amigos nas salas de bate papo do BOL, que mais tarde virou UOL.
Hoje, redes sociais como o Facebook, parecem um acampamento virtual, onde milhares de pessoas desconhecidas, amigas, conhecidas, colegas, que o destino, em sua regência lógica, afastou. Sabemos que Facebook é um grande negócio, uma usina de dinheiro para quem o criou e mantém, mas nós não pagamos nada e, graças a ele, compartilhamos textos, fotos, desenhos, música, e, por que não, nos compartilhamos mutuamente.
Acho que foi Carl Jung quem escreveu, ou disse, que o ser humano não vive sem um hobby. Ou então vive mal. Não gosto de pescar, gostaria de voltar a surfar, mas falta tempo e disposição (teria que fazer um forte preparo físico para não acabar no helicóptero dos bombeiros). Descobri que meus grandes hobbies são fotografia e internet. Ando meio preguiçoso em relação a fotografia, mas tenho planos de retornar em breve a minha saga sobre nuvens. 
Explico: durante uns cinco anos, de moto, andava por aqui clicando nuvens. Os mais variados tipos, estilos, formas, cores. Aqui, na Bahia, no sul. Um amigo chegou a abrir um site e eu pus todas as 1.200 nuvens lá. Só que: 1 – a empresa que mantinha o site mudou de dono. Sem avisar deletou minhas nuvens; 2 – O HD de meu computador pegou fogo e com ele foram-se todas as nuvens. Aí você pergunta “mas você não fez backup”? Não. Não fiz e, o que é pior, não faço. Motivo: preguiça. Você pergunta de novo “e os negativos das fotos?”. Respondo, você sabe onde estão? Muito menos eu.

Este blog - que se chamava Coluna do LAM - é um sonho antigo. Quem me instruiu com relação a postagem, configurações e tudo mais, de novo, foi meu irmão, que é fera em computador desde os tempos de um tal de CP 500, uma espécie de fóssil digital. Agradeço a ele pela força e a vocês pela presença constante.





segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Os que reclamam da chuva, do calor, do frio, do vento, da vida...mimimimimimimimimimimimimi

Tenho entrado cada vez menos no Facebook por uma razão: overdose de baixo astral. Gente reclamando de chuva, raios, vento, depois reclamam do calor, do frio, enfim, em suma (ou em semem) reclamam da vida. Aí, meus amigos, estou fora.

Um dia desses sugeri uma emenda constitucional fictícia em que a cada dois anos um presidente da república (assim mesmo em letras minúsculas) deveria passar por um plebiscito. Fica ou cai fora? Seria a pergunta. Se a maioria não estivesse suportando mais (como é o caso agora, segundo todas as pesquisas), assumiria o vice ou um colegiado de notáveis.

Os dilmistas, lulistas, petistas, muitos regiamente pagos para defenderem a cloaca, unidos a uma penca de mamíferos que dormem nas tetas do dinheiro público me chamaram de golpista, disso, daquilo, enfim, a minha bem humorada sugestão provocou uma revolta no chiqueiro. Foi considerada uma afronta a democracia, apesar do plebiscito ser uma ferramenta amplamente democrática.

Reclamam de tudo no Facebook. Da chuvarada maravilhosa que arranca um pouco de esperança para que a suruba ambiental promovida pelas desautoridades públicas seja atenuada. Reclamam do calor, que assola essa terra há milhões de anos na primavera e no verão. Reclamam do frio, iguaria rara, cada vez mais rara, que chutado pelos canos de descargada locupletados com as autoridades pública vomitam toneladas de fumaça no ar, mais desmatamento generalizado turbinado pela especulação imobiliária, favelização em massa e afins. No final reclamam da vida, se colocam na condição de coitadinhos, “ai, por que ninguém me reconhece”, “oh, eu sou tão bonzinho, por que me tratam assim”. Fora, meu chapa!

Viver é uma guerra, no bom sentido. Todos os dias acordamos, tomamos um banho, escovamos os dentes, fazemos a barba, tomamos o café e no alto do armário pegamos o nosso imaginário fuzil AK-47 para partir pro pau, sobreviver ao mercado de trabalho, as desavenças, ao fiasco da segurança pública, a deturpada seleção natural. No final do dia, chegamos em casa, o que já pé motivo de comemoração.

Por isso não aturo mimimi. No Facebook menos ainda porque é fácil chegar lá, dar uma cusparada e ir embora. Duro é confrontar a realidade de que a decantada infelicidade pública é culpa nossa que não fazemos porríssima nenhuma. Fazer o que? Franceses, alemães, americanos do norte, vietnamitas sabem. No fundo, sabemos também.

Mas o arrego é maior.





quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Led Zeppelin, um pacto com a eternidade

        John Paul Jones, Robert Plant, Jimmy Page e John Bonham
Impressionante. Toda a vez que posto um vídeo do Led Zeppelin no Facebook em seguida vem uma tempestade de curtidas e comentários. Não importa a época, seja 1969 na Dinamarca ou na Inglaterra dez anos depois, quando em agosto, após quatro anos fora dos palcos, Jimmy Page, Robert Plant, John Jones e John Bonham explodiam o festival de Knebworth. Com a morte de Joh Bonham em setembro de 1980, em dezembro Page e Plant anunciaram o fim da banda. Mas, como os Beatles, o Led Zeppelin parece ter feito um pacto com a eternidade.
O interessante nessa história é que o vocalista Robert Plant gravou vários discos sem a banda, e demorou a acontecer. No início, 1982, composições fracas, discos medíocres e a guinada só veio em 1993 com o ótimo álbum “Fate of Nations”. Com Jimmy Page, mais ou menos a mesma coisa. Seus discos-solo também não decolaram e estiveram muito distantes do que esperávamos dele. John Paul Jones, idem. Não aconteceu.
Mas quando Page e Plant gravaram “No Quarter”, CD/DVD lançados em 1994, foi uma bomba. Sensacional, absolutamente mágico. O CD/DVD trouxe novos e revolucionários arranjos de clássicos do Led Zeppelin, mais músicas inéditas diretamente influenciadas pela cultura do Marrocos, do Egito.
Além do baixista Charlie Jones e do baterista Michael K. Lee, duas orquestras acompanharam Page e Plant, uma inglesa e outra egípcia. A sequência de Page e Plant cantando e tocando no meio de uma rua superlotada em Marrakesh é sensacional.
Como escrevi ali em cima, o fim do Led Zeppelin foi consequência direta da morte do baterista John Bonham, em setembro de 1980. O anúncio oficial do fim da banda foi feito por Jimmy Page em dezembro do mesmo ano, alegando que sem Bonham não havia condições da banda prosseguir.
Mas, em 2007, num show beneficente para comemorar a vida do dono da gravadora Atlantic Records, o turco Ahmet Ertegun, foi anunciada uma uma reunião do Led Zeppelin no Arena 02, Londres. Em dezembro, Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e Jason Bonham (filho de John), tocaram várias músicas para uma multidão enlouquecida que cantou todo o setlist, um total de 16.
Jimmy Page coordenou a gravação (em áudio e vídeo em HD) profissional do show com 16 câmeras, para o DVD e CD. Em outubro de 2012, o filme chegou aos cinemas e as lojas de todo o mundo em dois CDs e um DVD magistrais. Certamente é o melhor show do Led Zeppelin lançado em áudio e vídeo, desde o início da banda, em 1969.
Na época com quase 64 anos, Page (hoje tem 71) domina o palco e para responder aos críticos que diziam que ele não sabia tocar ao vivo solos de clássicos como o de Stairway to Heaven, ele passou meses ensaiando cada música como se não as conhecesse. Robert Plant, John Paul Jones e Jason Bonham também ficaram várias semanas trancados ensaiando exaustivamente com Page.
O resultado foi um banho de talento, entrega, genialidade dos quatro e como a coletânea “Mothership” de 2007, a capa dos CDs/DVD foi desenhada por Shepard Fairey. Alan Moulder trabalhou com Jimmy Page na mixagem do álbum, mas usaram apenas uma quantidade mínima de overdubs e correções. Optaram por manter a fidelidade máxima ao som do show ao vivo.
John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison não conseguiram gravar discos-solo que chegassem aos pés de qualquer um dos que foram produzidos pelos Beatles. Há controvérsias, eu sei, especialmente em se tratando do álbum triplo “All Things Must Pass”, considerada a genial obra prima de George. Sei que muitos leitores vão gritar, mas opinião não é palavrão.
No caso do Zeppelin a magia é ainda mais impressionante porque a biografia da banda mostra que Page & Plant formavam um conluio, uma mistura ideal, um caldeirão onde as porções de de talento extremo eram misturadas pela emoção. E é evidente que a potência devastadora de John Bonham na bateria e o baixo livre de John Paul Jones brilham até hoje a bordo do Led Zeppelin.
Outro fenômeno: nunca, em nenhum momento, milhões de fãs (nos quais me incluo) cansam de ouvir qualquer disco do Zeppelin. Do primeiro ao último. Fãs que sequer eram nascidos quando a banda acabou. O que será isso? Existe uma explicação? Enquanto pensamos e soltamos balões cheios de interrogações, ouvimos Page, Plant, Paul Jones e Bonham em mil novecentos e sempre.
Tenho ouvido o a face mais acústica do grupo. Na verdade ando numa fase existencial acústica, contemplativa, eventualmente insone, totalmente Led Zeppelin. Penduradas nas canções, lembranças de minha adolescência, ouvindo a banda em profusão, lixando LPs de vinil até gastar. Eu e amigos na também amada e fiel depositária de vastas emoções e pensamentos imperfeitos da adolescência (obrigado Zé Rubem Fonseca por esse belo título de livro), uma cidade chamada Teresópolis, que existiu. Não existe mais. Aquela dos anos 1970, não.
Não dá para ouvir o Led Zeppelin e não lembrar dos raios acrilíricos explodindo no Dedo de Deus, a jaqueta de camurça verde-garrafa desbotada, cabelos a la Roger Daltrey (pelo menos era a minha intenção) na altura dos ombros, meu irmão, também cabeludo, passando a 130 quilômetros por hora montado numa Yamaha 350 RD (mundialmente apelidada de “assassina” pela enorme quantidade de pessoas que matou até ter a fabricação proibida) azul, que pegava emprestada com um amigo.
Verões de 1970, 1971, 1972, 1973, todos eles embalados pelo Led Zeppelin. The Who? Sempre, mas o Zeppelin tinha (e tem) seu espaço em nossos corações e mentes. Por que não? Por que só os boçais podem se sentir eternamente teens?
Na semana passada ouvi de novo o Led Zeppelin, com direito as novas descobertas que sempre ocorrem a cada audição, mais uma leve e ao mesmo tempo dramática saudade de mim mesmo, de meu irmão, dos amigos da serra boate Bowling, no Alto, as duas boates do Higino, em especial a do subsolo onde só rolava rock progressivo, escuridão e garras femininas esparramadas em nossos recantos misteriosos e ardentes. Em algum momento o discotecário (não lembro do nome, um gordo que sabia tudo de música) despejava um inteiro LP do Zeppelin. Direto. Lá pelas 3 e varada da madrugada. Tocava o Zeppelin, acendiam as luzes, íamos embora e o Higino fechava e eu saia com a namorada da noite para ver o nascer do sol e copular (não necessariamente nessa ordem) dentro de um VW Variant de meu pai, na Cascata dos Amores.
Esse é um dos poderes da música. Transportar no tempo com apenas dois ou três acordes, para lugares onde estivemos, gostaríamos de ter ido ou que ainda iremos. Garotas maravilhosas que o Zeppelin seduzia para nós e que depois, como um solo de Jimmy Page, descarregavam seus indomados raios, gozos e unhadas de mulheres feitas cheirando a Campari. As vezes sem saber que eram mulheres feitas e muito menos se era mesmo Campari o que bebiam.
Pois é. The Song Remains The Same.







quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

“Responder e-mails é uma obrigação. Quem discorda deve deixar a internet”

O título está entre aspas porque quem disparou a frase foi um colega meu num bar do Largo do Machado (Rio) tempos. O assunto na roda (uns 10 caras) era e-mail. Todo mundo indignado com o fato de mandarem e-mails que não são respondidos.
Dias atrás aconteceu comigo. Enviei um para um executivo do mercado de discos, mensagem mega importante, mas até agora não recebi resposta. Tive o cuidado de chamar atenção, algo do tipo “favor confirmar o recebimento”. Nem isso. Se bem que antes de enviar a mensagem várias pessoas me avisaram que “esse cara não responde e-mails...”, insisti e deu no que não deu.
Voltando ao botequim do Largo do Machado, eu estava na boa, me divertindo com o assunto, mas lá pelas tantas opinei: “não responder a e-mails é a maior escrotália. Pior do que bater com o telefone na cara”. E voltei a me atracar com o filé à Oswaldo Aranha que, aliás, estava sublime.
Um outro colega contou que seu vizinho, mais mulher e três filhos, haviam viajado para Minas Gerais. Feriado prolongado. Uma equipe da companhia de energia elétrica chegou para fazer o corte por fala de pagamento. Meu colega se meteu no assunto, pediu que dessem uma chance e os caras concordaram “desde que ele mostrasse um comprovante de residência em nome do vizinho”.
Significava ter que entrar na casa vazia (fácil, ele sabia, pela janela, já tinha pensado) e por isso ele mandou um e-mail pedindo autorização para “invadir”. A equipe voltaria no dia seguinte. O vizinho não respondeu ao e-mail e quando chegou, dias depois, a casa estava sem luz, comida estragada e tudo mais. Pior: ele disse que tinha lido o e-mail mas que estava descansando...Sífu.
Saí do bar e a caminho de casa, madrugada com brisa e lua, pensei no assunto. Ano passado mandei um e-mail para um suposto grande amigo, de anos, que não via há tempos. Me passaram o endereço eletrônico dele e escrevi uma mensagem calorosa, falando da amizade, da saudade e tudo mais. Até hoje ele não respondeu.
A princípio fiquei indignado, semanas depois enfurecido e hoje apenas magoado, certo de que o sujeito desceu da condição de amigo para a de desafeto. Aí você pergunta “por causa de um e-mail?”. Sim, por causa de um e-mail que foi a única maneira que encontrei de restabelecer contato com um sujeito que, me disseram depois, está se achando depois que começou a nadar em verbas públicas. Pensando bem, foi até bom ele não ter respondido porque de uma coisa estou certo nesta vida: não tenho amigos corruptos.
O telefone celular é extremamente invasivo e o WhatsApp, para mim, é um papagaio neurótico, mal comido e obsessivo me enchendo o saco 57 horas por dia. Um dos colegas da mesa do bar, as gargalhadas, contou que o celular dele tocou durante um tenso exame de próstata, quando o médico só mantinha nove dedos das mãos do lado de fora.
Acho o e-mail a menos invasiva forma de comunicação porque quem recebe teve que entrar na internet, acessar o programa de mensagens, enfim, se preparou para isso.
Já há algum tempo venho radicalizando. Pessoas de meu convívio que não respondem a meus e-mails são sumaria e automaticamente limadas de minha lista de endereços. Ainda bem que são poucas, pouquíssimas. Todos nós temos defeitos, vários. Entre os meus está essa intolerância (quase mágoa) com a falta de consideração, em geral praticada por pessoas que nos acham babacas, quando na verdade babacas são elas.
Ou não?



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Há 35 anos John Lennon morria mais uma vez, definitivamente

    A última foto. O assassino (a direita) deu cinco tiros em Lennon segundos depois
          Há quem diga que essa foto mostra John Lennon em paz. Mas ele amava a vida

Fale com a Coluna - lam@luizantoniomello.com

John Winston Lennon morreu várias vezes. Assistiu a morte de sua infância regada a miséria afetiva, desencontros, intolerância, o amor calado (e proibido) pela mãe Julia que ele mal conheceu mas que amou profunda, lírica, bela e loucamente. Julia quando se aproximou de John, ambos começaram a se entender, perceber afinidades cósmicas, terrenas e artísticas, o destino meteu a mão. Julia foi embora, para sempre, como Lucy in Sky with Diamonds. Lennon morria mais uma vez.
Vierem os Beatles e o quase garoto, quase homem, quase ancião John Winston Lennon casou-se com a doce, caseira, provinciana Cinthya e tentou não enxergar a luxúria, a esbórnia, o frenesi que era a vida de um beatle. O então amigo Paul McCartney nadava na fogueira, atirado as feras nos clubes psicodélicos de Londres, experimentando novos sons, novas drogas, novas mulheres. Lennon morria de novo, preso em sua pequena burguesia para qual não tinha a mínima vocação. Sobrou para o filho Julian, largado no mundo, até hoje. Culpa de quem? Há culpados? Há inocentes? O que há, além de mais uma morte de John Winston Lennon?
Lennon abandonou o casamento e juntou-se a experiente e vivida Yoko Ono. Perdição. Paixão louca varrida, psicótica, desmedida. A miopia afetiva de John ignorou os sinais amarelos e vermelhos. Kamikaze, fez-se capacho. Yoko fez com Lennon o que quis autorizada por ele. O filme “Let it Be” de Michael Lindsay-Hoog, lançado em maio de 1970, acabou virando testemunha ocular e auditiva da implosão dos Beatles e a mais um suspiro de liberdade de Lennon, submisso, jogado ao arrego do seu amor (?) por Yoko posando de esposa em praticamente todas as cenas. John morria como beatle em nome do torpor afetivo que mais tarde o jogaria nas agulhas da heroína.
Já sereno, já cicatrizado, já maduro, John Winston Lennon chegou do estúdio em sua amada e cultuada Nova Iorque. Seu carro parou em frente ao edifício Dakota, onde morava. John foi abordado por um rapaz que durante o dia havia lhe pedido um autógrafo. O rapaz era Mark David Chapman, um fã dos Beatles e de John, que acabou disparando cinco tiros a queima roupa com revólver calibre 38, dos quais quatro acertaram em John Lennon.
polícia chegou minutos depois e conduziu o músico na própria viatura para o hospital. O assassino permaneceu no local com um livro nas mãos, O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger. Preso, Chaman foi julgado e condenado a prisão perpétua. John morreu após perder cerca de 80% do sangue, aos 40 anos de idade. Logo após a notícia da morte, que correu o mundo, uma multidão se juntou em frente ao Dakota, com velas e cantando canções de John e dos Beatles. O corpo de John foi cremado no Ferncliff Cemetery, em Hartsdale, cidade do estado de Nova Iorque, e suas cinzas foram guardadas por Yoko Ono. Foi a morte final de John Winston Lennon.
Naquela manhã fui cedo para o trabalho. Chocado, ouvia em meu Fiat 147 as notícias transmitidas pela rádio onde trabalhava, a Jornal do Brasil AM. Trabalhava, também, como editor de jornalismo da Rádio Cidade (que pertencia ao Grupo JB) para onde rumei. Eram 9 e meia da manhã quando rumei para o prédio do Sistema JB, aquele belo “navio” que está ancorado na avenida Brasil 500, hoje sede do Into, já que, vejam vocês, conseguiram destruir uma instituição nascida no império, chamada Jornal do Brasil.
Como boa parte do planeta eu estava transtornado, confuso, triste, angustiado. Jornalista profissional desde os 16 anos, aprendi nas redações que o melhor remédio para amenizar esse tipo de dor é meter a cara nas notícias, escrever, apurar, enfim, mergulhar de cabeça no fato, enfrentar o monstro de frente. Foi o que fiz, desejando muito ir para Nova Iorque e agir.
Desejei ir ao necrotério, ir atrás de Chapman para tentar o impossível (entrevistá-lo) ir até a frente do Dakota, orar por Lennon e por nós, e gerar um milhão de matérias ao vivo da capital da desolação planetária. Sim, naquele 8 de dezembro, Nova Iorque foi a capital dos sonhos evaporados, desejos de liberdade ceifados e do tapete vermelho estendido para a triunfal chegada do famigerado politicamente correto que nos açoita dia e noite. O fim de Lennon mexeu até com nossas liberdades íntimas, transformadas em libertinagens levianas, passíveis de graves punições sociais.
Meu horário de trabalho era de meio dia e meia as 19h30m, mas fiz questão de assumir o jornalismo da Rádio Cidade as 10 e meia da manhã. Eu e a equipe de jornalistas, formada somente por mim. Isso mesmo. Eu era o único jornalista naquela adorável e muito saudosa emissora, onde fiz amigos como Fernando Mansur, Romilson Luiz, Eládio Sandoval, etc.
Evidentemente o dia foi dedicado a Lennon. As 2 da tarde, convidaram um sujeito que o destino colocaria em meu caminho como peça-chave em outras situações. Seu nome: Sérgio Vasconcellos. Foi convidado, naquele macabro dia, a dividir o microfone com Eládio Sandoval falando de John Lennon, Beatles, e tocando raridades que só ele tem.
Apesar do luto, Serginho deu um show ao longo de toda a tarde, contando histórias de bastidores da banda e de Lennon em particular. Eu me dedicava as chamadas “hard news”, ligando para Nova Iorque, acionando correspondentes, enfim, cuidando daquele dia fatídico.
De 15 em 15 minutos descia para o sexto andar do Jotabezão (as rádios ficavam no sétimo) e ia a sala dos telexes, máquinas que vomitavam notícias 24 horas por dia. Lá também funcionavam as transmissões de radiofoto e telefoto da Agência JB e das norte-americanas UPI e Associated Press, sediadas também no prédio do JB. Abro um parêntese: só muita incompetência e burrice para levar aquele império a falência. Fecho o parêntese.
Numa dessas descidas e subidas, o operador de radiofoto me chamou com uma foto na mão. Nela (veja acima), John Lennon aparecia morto no necrotério de Nova Iorque. Era um close de seu perfil, nariz curvado, sem óculos, expressão serena.
No dia em que John Lennon morreu, 34 anos atrás, trabalhei muito. Serginho Vasconcellos também. Lizzie Bravo, brasileira que gravou com os Beatles o vocal de “Across The Universe”, estava pelas ruas do Rio, organizando vigílias, enfim, cada um vivenciou o luto à sua maneira. No final do dia, por volta das oito da noite, fiz a última descida (foram dezenas) a sala dos telexes e as máquinas, que não paravam nunca, naquele 9 de dezembro estavam histéricas. Peguei o último boletim, acho que da Reuters, com algumas palavras que Paul McCartney conseguiu dizer.
No fim de jornada, abracei Sandoval, Serginho (e peguei o telefone dele), meus amigos do Departamento de Radiojornalismo da JB e fui para o Leme. Sentei sozinho na Fiorentina, que me pareceu deserta, mas na verdade quem estava deserto naquele estranho dia éramos todos nós.
Meses depois, liguei para Sérgio Vasconcellos. O primeiro convidado para participar de uma nova revolução. Em setembro de 1981, começávamos a montar a Rádio Fluminense FM, a Maldita, que entrou no ar em 1 de março de 1982, tendo o Serginho, que se tornou meu amigo, como seu produtor de ponta.

O resto, quase todo mundo sabe.