sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Diálogo Interno, ou, “toda a vez que andei na linha o trem matou”, ou, todo inconsciente é profissional, assim como o todo consciente é amador

Texto remixado. Publicado originalmente em janeiro de 2014
Consciente – Gozado, escrevi um artigo apoiando o amor incondicional e quase fui apedrejado. Quase arrancaram o meu saco, penduraram numa pipa (ou cafifa, ou papagaio) e mandaram para longe.
Inconsciente – É assim mesmo. Quem tem sul tem medo. O pavor das pessoas com o amor só perde para o cagaço que sentem da paixão. Principalmente a paixão virtual, que eu chamo de cisma, sabe qual é? Não, você não sabe qual é.
C – Lá vem você com essas conversas, como se Jung, Freud e Lacan não tivessem feito o seu rastreamento. Só falta agora arrancar de uma frase solta e sem nexo a máxima “toda a vez que andei na linha o trem matou” e colocar no título do artigo.
I – Será que vale à pena não arriscar e fingir que estou submetido ao seu comando? Todo inconsciente é profissional, assim como todo consciente é amador. E se eu te induzir a colocar essa máxima, que tem zaralhadas de explicações e análises, no título do texto, o que vai fazer?
C – Alguns riscos valem à pena. Eu ariscaria clicar num blog para ler uma opinião favorável a suruba existencial. Como você sabe (você é muito fofoqueira, com A mesmo) estou no meio de uma.
I – Você está diferente hoje. Meio nublado, quase mormaço. Esquisito pra cacete, meu chapa.
C – Ando tão a flor da pele que até beijo de novela me faz gozar (Carlos Zéfiro).
I – Que gracinha. Só rindo, diria aquele personagem de Rubem Fonseca.
C – Não acho gracinha coisa nenhuma. Se um dia eu conseguir chorar vou te interfonar, sua vadiazinha fofoqueira.
I – Nada que o tempo não resolva.
C – O tempo e o vento. O importante é que continuo no timão de meu destino.
I – Hahahahahahahahah. Ninguém regula o destino, meu chapa. Nem eu. Ou você deixou de acreditar em inconsciente coletivo?
C – Isso começou a virar papo de intelectualóide babaca. Nós dois já combinamos, tempos atrás, não cair mais nessa cilada imbecil. Mas achar que estamos no timão já dá uma força. Esse negócio de “deixa a vida me levar” é conversa de pagodeiro.
I – Provavelmente por isso você não publicou o artigo sobre o amor incondicional, paixão virtual, esses sentimentos impossíveis, logo, tolos. Só falta me dizer que está apaixonado por uma mulher com quem nunca conversou para eu me mijar de rir aqui.
C – Publiquei, sim! Ainda pus uma fogueira da Inquisição ilustrando o amor impossível porque o amor impossível, a paixão virtual, são escroques que merecem ser queimados em praça pública. Mas já que você insiste que toda a vez que se anda na linha o trem mata, assuma logo a irresponsabilidade irrestrita e vá viver como os existencialistas.
I – Seu livro está quase pronto, né?
C – Sim. Vai sair ano que vem e nele deixo você, Inconsciente, falar a vontade. Até agora não sei direito se vai ser bom ou não. Volta e meia eu te chamo de privada, lodo, caixa de gordura de minha essência.
I – Sei disso. Acho bonitinho.
C – Aliás, as pessoas deveriam conversar mais com seus inconscientes.
I – Somos muito incômodos porque guardamos verdades ácidas e, talvez por isso, as pessoas prefiram nos apagar, ou, como dizem atualmente, deletar.
C – Como assim?
I – Ora, passarinho quando anda com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo. Estamos dentro de vocês e continuamos falando. Uma canção do Pink Floyd chamada “Comfortable Numb” descreve exatamente essa situação.
C – The Wall é uma obra prima.
I – Muros. Quando submetidos a traumas muito violentos nós, inconscientes, nos tornamos muros.
C – Que todo mundo tenta derrubar para se libertar. Estou tentando falar fácil para não espantar os leitores.
I – Todo mundo não. Há os que preferem viver em bares todos os dias, o dia todo, tomando cerveja e conhaque, assistindo TV, fumando maconha, hahixe. Essas pessoas acham que estão nos dando uma rasteira. Hahahaha. Só rindo, diria o tal personagem de Rubem Fonseca.
C – Aprendi muito conhecendo um pouco de você nas terapias ao longo da vida.
I – Obrigado, você também é gente boa e, se tudo der certo, vai pro céu. Rsrsrsrsrs.
C – E, no mais?
I – Siga. O sinal está verde.