quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O amor em tempos de ódio e neblina afetiva

Ódio. Não o conheço. Não sou santo, mas não o conheço. Conheço a euforia, a tristeza, a raiva, conheço a “out estima”, a baixa estima, mas o ódio? Não, não o conheço.

O ódio está no ar do Brasil neste momento, mas ao contrário do que muitos pensam a História (não fosse ela, o que seria de nós) todas as revoluções, batalhas e conquistas foram movidas pela fúria, ira, determinação.

O ódio sempre perdeu. Hitler perdeu. Mussolini perdeu. Getúlio perdeu. E agora, o ódio que sustenta a mentira no Brasil também vai perder. Que mentira? A História dirá.

Nos últimos dias tenho me sentido odiado. O que fazer? Nada. Foi assim a noite.

O que o Amon Düül*  tem que eu não tenho?


3h11m- Por motivos não alheios a minha vontade meu fuso horário deu uma virada e pelo visto terei uma longa madrugada pela frente. Não gosto de escrever e publicar quando estou emocionado e ontem passei o dia tomado pela neblina afetiva. Por isso, escrevo agora mas só vou publicar quando voltar da pauleira no início da noite.

O que o Neu!* tem que eu não tenho?

3h14m- O amor é um sentimento tão profundo, tão abissal, tão blues que assola os nevoeiros. Só o amor consegue assolar os nevoeiros. Nenhum intelectual chegou perto, nenhum filósofo, sociólogo, antropólogo conseguiu encarar a distonia neuro não vegetativa do amor.

Uma vez escrevi num trabalho de faculdade (cadeira de Psicologia Social) que o que mais nos difere dos chamados irracionais não é a inteligência mas a consciência do afeto. O professor não gostou por achar...por achar...por achar...esqueci. Conversamos, ele disse que viveu uma experiência num lugar bem perto de uma família de gorilas, o que virou a sua cabeça. Passou a achar que, de alguma maneira, os animais irracionais também tem essa percepção e me deu nota 7. No final do mês a nota tinha subido para 9. Perguntei por que e a resposta veio vaga: “Realocação de novos conceitos”, ele disse.

O que o Van Der Graff Generator* tem que eu não tenho?

3h 34m - Não quis reclamar porque estava apaixonado por uma garota (tínhamos 20 anos, ela e eu) e ingressava mais uma vez na ante-sala do amor comocional, aquele que ignora os raios e vendavais e nos faz rolar por virtuais calçadas encharcadas as nove horas da noite. Era o que fazíamos. Um namoro que durou, foi maravilhoso e nele eu tive a possibilidade de viver mais uma vez a ausência de explicações e, sobretudo, complicações. Mas jamais foi incondicional, papo de existencialista amador. O ser humano é condicional em sua essência.

Mas sabe como é o destino. Ela me elegeu o primeiro homem, a primeira cama. Eu também queria casar com ela, ter filhos, mas o destino nos chamou no centro de uma praça e sussurrou que não ia rolar, não. E não rolou. Saímos da praça, eu a levei até a porta de casa em meu Karmann Guia TC 1975, bege, que toda a faculdade conhecia e venerava.

Ela desceu do carro, eu também, fomos até a portaria do prédio, nos olhamos (olhos marejados) sem nada dizer apenas ouvindo ao longe, baixinho, o rádio do Karmann Guia TC na Eldo Pop FM tocando o Renaissance, ao vivo em Londres. Não esquecerei a música: “At The Harbour”, a que ela mais gostava. Sincronicidade. E como a música é a linha de tempo e afeto de minha vida, jamais desvinculei “At The Harbour” dela.

Ela entrou no prédio. Peguei o Karmann Guia TC e resolvi dar uma volta pela orla do Rio. Fui até o final do Leblon e voltei. Em Copacabana parei numa carrocinha da Geneal, comi duas mini pizzas olhando para o mar escuro e mexido (como eu), pensando naquela história de amor que havia acabado.

Pensei “o amor sozinho não sustenta”, como Machado de Assis já havia mostrado no século 19 e nem quando ela me pediu desculpas em prantos por ter comido outro, consegui reverter aquela sensação estranha, um vácuo chamado “perdeu”. De mim para ela. Amor condicional.

Ódio? Nenhum.


* - Magistrais grupos de rock experimental alemão dos anos 1970.