sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O anti clima de verão, ou, o brasileiro trabalha pra cacete; é só pararem de roubar seus empregos


O verão voltou a cena. Aberta. Todo mundo reclama do calor, mas o verão é adorado. Sempre foi. Até os últimos, quando as temperaturas passaram de 40 graus e os meios de Comunicação importaram dos Estados Unidos uma baranga chamada sensação térmica. Cheguei a ler nos jornais que no verão do ano passado a tal sensação térmica bateu os 50 graus algumas vezes.
Pode ser impressão minha mas a tal euforia de veraneio, o culto ao sangue, suor e cerveja, anda de bola murcha. Pelo menos nas chamadas redes sociais onde a maioria clama por chuva, por temperaturas mais baixas. Deduzo (dentro da boçalidade consentida pela estação) que o preço da conta de luz (estupro consentido pelos votos que jogaram essa gente lá), somado a arrastões nas praias, falta d´água, falta de grana e, por que não, falta de ânimo, deram uma brochada ampla no chamado “tecido social”, que diante das circunstâncias começa a enxergar o verão como vilão e não como heroizinho de quinta.
O verão tem a seu favor algumas datas cruciais: Natal, Ano Novo e Carnaval. Por isso inventaram a lenda de que o país entra em férias em dezembro e só volta a trabalhar na segunda-feira depois da quarta de cinzas. Mentira. Quer dizer (olha a elegância, rapá!), não é verdade. Brasileiro trabalha pra cacete; é só pararem de roubar seus empregos. Em alguns países europeus como a Espanha, há 30% mais feriados (fora o ronco diário depois do almoço) do que aqui.
Verão é aeroporto de mitos. No topo da lista as praias do Rio. Durante séculos cariocas sacanearam paulistanos por causa de praias que, diziam, nós temos e os paulistanos não. Ouso informar que praia no verão carioca é virtual. Superlotadas, tomadas de arrastões, flanelinhas, camada de ozônio arrombada, cachorros largando barro na areia, poucos são loucos de se aventurar a um mergulho em Ipanema, Leblon ou na eterna Princesinha do Mar, minha amada Copacabana e seu amante inseparável, o Leme.
Como hoje muita gente tem carro, milhões se deslocam de todos os pontos do Rio e periferia rumo as praias. Estimulados pela propaganda maciça de cerveja na internet, TV, jornais, rádios, revistas, enchem a cara. Muitos brigam. Mal intencionados fazem arrastões e num domingo apenas 20% conseguem curtir a chamada “praiana” sem se aporrinhar.
Em suma, na boa, sem provocações, os paulistanos são veranistas mais felizes porque, na certeza de que não tem praias, inventam piscinas, vão as represas, partem para dentro dos cinemas. É hora da revanche. Quem já passou um fim de semana em São Paulo (capital) sabe do que falo. Passei vários, quando trabalhei como freelancer do Estadão e o que mais fiz foi me divertir, relaxar, ir a dezenas e dezenas de piscinas, cinemas, parques.
Em janeiro de 2011 o verão foi palco de um horror na região serrana do Estado do Rio. Aos que dizem que “aquilo já era esperado por causa da profusão de favelas”, peço um humilde peraí. Conheço a fundo a Serra dos Órgãos e meses depois subindo para Teresópolis ainda dava para ver dezenas de barreiras que formaramm línguas de barro em áreas de vegetação nativa. Mas, é claro que a favelização (de ricos também) das encostas agravou mais. Fora isso, o péssimo hábito de construir em beira de riachinho romântico, saído de historinha tipo Alice no País das Maravilhas, que quando bate um toró de verão vira rio asfixiado que sai do leito detonando tudo e todos pela frente.
Verão lança modas. Noto que muitas mulheres usam o shortinhos jeans esfarrapado, uma maravilha genial. Genial exatamente por ser extremamente simples, despojado, ousado. Como em todo verão, meus colegas de grosso calibre saíram de férias. Sites, TVs, jornais e revistas infestados de interinos, o que irrita muita gente.
É no verão que as concessionárias de luz gozam com as contas astronômicas (des) graças a invenção das bandeiras vermelhas do governo locupletadas com o uso de ar condicionado. Cheguei a entrevistar um engenheiro que garantiu que quanto mais novo é o aparelho menos luz ele consome. Só que é no verão que o desgoverno autoriza ainda mais os aumentos de tarifas e nós, talvez por estarmos trôpegos de calor, nada fazemos. A última manifestação saudável de protesto contra a má qualidade de serviços foi em Piratininga, Niterói, anos 90. Consumidores apedrejaram uma subestação de energia e o serviço melhorou.
Espero que todos vocês estejam tendo um ótimo início de verão. Quanto aos leitores que vivem na Europa, Asia, Estados Unidos, espero que o inverno não seja tão complicado. E que surja um novo Albert Camus para escrever mais um “Núpcias, o Verão”, que releio ano sim, ano não. E você, nunca leu?
Corra e ache um.