quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O tiro existencial (e de escopeta) de Beleza Americana, um tornado que engoliu a vidinha de muita gente. Ainda bem.


Faz sentido um sonho que tive, noites atrás. Muitas noites atrás. Muitas e muitas e muitas e muitas noites atrás. Provavelmente nem era nascido.
Sonhei com o filme “Beleza Americana”, obra genial de Sam Mendes lançado em 1998, com Kevin Spacey, Annette Bening e Thora Birch nos papeis principais. Bem, o filme mexeu tanto na minha vida (literalmente) que comprei uma cópia em DVD para assistir de novo de tempos em tempos. Mas não assisto porque as vezes é melhor deixar nossos baús trancados.
A guinada existencial do personagem de Kevin me deixou boquiaberto dentro do cinema, onde permaneci uns cinco minutos depois que o filme acabou, completamente abobalhado, besteirão, queixo caído, vendo os créditos subirem na tela enquanto as pessoas saiam, com o capacete da minha Suzuki DR 800 no colo. Eu tinha moto naquela época, mas motocicleta deixou de ser um veículo civilizado nessa nação de flanelinhas, motoboys e assassinos que usam as ágeis motos de duas rodas para assalto, sequestro, tráfico e tal.
No dia seguinte comecei a sentir os (bons) sintomas do filme e, mais uma vez, escrevi não sei onde (acho que foi no Estadão) que o cinema tem o poder de meter uma colher de sopa em nossas vísceras. O cinema, em muitos casos, faz o papel do inconsciente gente boa despejando em via pública o que muitas vezes nos falta: ousadia, coragem.
Mas aí mora um problema: somos todos impublicáveis, diz o regulamento politicamente correto da casta mediana que esfola o país.
Beleza Americana” me disse “larga essa vidinha e caia dentro com vigor, tesão e uma leve dose de irresponsabilidade”. Aquilo ficou martelando em minha cabeça (e a trilha sonora idem) e, meses depois, quando olhei para trás vi que também tinha dado uma guinada. E que a tal “vidinha” denunciada em silêncio pelo filme tinha sido substituída pelo vigor da tal leve irresponsabilidade.
Respeitei a máxima de que todos somos impublicáveis e continuei a viver a nova vida calado. Que beleza.
O sonho que tive (concordo com C.G. Jung sobre os poderes dos sonhos e suas mensagens cifradas) não foi nada demais, mas para mim foi como se um torpedo de um submarino alemão singrasse o fundo do mar em direção a um porta-aviões americano, em 1944.
O que fazer? Acessei o You Tube e fiquei contemplando a beleza que é a instalação que o artista plástico Daniel Wurtzel fez (postei lá em cima), baseado na magistral trilha sonora do filme composta por Thomas Newman. Imersão total. Beleza mais que americana. Absoluta.
Agora é só ouvir os berros do inconsciente e seguir em frente.


Calado, quieto.