terça-feira, 1 de dezembro de 2015

‘Ora que melhora!’, mensagem no vidro de um carro

Antigamente as mensagens, digamos, automotivas eram vistas (e lidas) nos pára-choques de caminhões. Mensagens bem humoradas, outras mais reflexivas, mas quase todas de bem com a vida. Com o passar do tempo, essas mensagens acabaram chegando ao automóvel, via adesivos. Linguagem direta, objetiva.
Tempos atrás, debaixo de chuva, dentro de um táxi vi as ruas cheias de gente com a aparência de cansaço, uma imagem meio em câmera lenta. Resolvi me distrair lendo os dizeres dos adesivos dos carros que tentavam se deslocar naquele trânsito preguiçoso dos dias chuvosos.
A primeira que li no vidro de um carro foi: "Ora que melhora!". Gostei da mensagem, da ideia, da intenção. Afinal, se existe um conceito universal que une todas as religiões, crenças e correntes filosóficas é o poder da oração, poder esse que a ciência já reconhece há bastante tempo.
Mais à frente, na tampa do porta-malas de um carro bem usado, um adesivo anunciava: "É velho, mas é meu". Também gostei. Afinal, que história é essa de que todos têm que ter carros novos, sapatos novos, roupas novas? A mensagem mostrava o orgulho do proprietário daquele carro, o cheiro de vitória, mais uma etapa de sua vida, do seu trabalho.
Claro período eleitoral começam a surgir nomes e apelidos em vidros de todos os tipos de veículos anunciando que alguém vai se candidatar a alguma coisa. E esse alguém, com toda a razão, confia no poder dos adesivos. O que faz uma pessoa comprar e colocar, muitas vezes em letras garrafais, a frase "Vivo arranhado, mas não largo a minha gata" no vidro traseiro do carro? Há ainda o já tradicional: "Eu amo minha família", que surgiu depois do "Eu amo minha esposa". Acho que não há explicação, a não ser o desejo dessas pessoas em dividir suas histórias, ou brincar com nossos humores.
Mensagens em adesivos colocados em veículos estão longe de ser uma exclusividade brasileira. Os norte-americanos adoram adesivar seus carros, motos, caminhões, ônibus, com mensagens que muitas vezes não fazem o menor sentido. Uma delas é "Não me siga, estou perdido também", que pode ter mil conotações. Desde o perdido no trânsito banal até o perdido na vida, nas perspectivas, no emaranhado de dúvidas e angústias.
No caso do "Ora que melhora!", que vi no trânsito moroso, chamou minha intenção porque no táxi ao lado uma senhora de idade fechou os olhos e juntou as mãos assim que leu a mensagem. Só ela sabe porque orou, para quem ou o que orou, mas o fato é que a mensagem atingiu seu objetivo.
Muito já se escreveu e falou sobre as frases de pára-choques de caminhões. Há, inclusive, um livro a respeito que li há anos atrás. O autor colecionou as frases ao longo de anos viajando pelas estradas brasileiras e reuniu um esplêndido coquetel de reflexões, algumas de extrema sensibilidade, outras de ótimo humor, mas nenhuma negativa, difamadora, rancorosa.
Quando migraram para os carros, o objetivo foi o mesmo. Humor, boas sacadas, fé e muito pouca baixaria. O que é muito bom para todos nós.