sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Paulistanos ainda reclamam do canto do sabiá. Pois viva o sabiá!

A Folha de S. Paulo publicou em 2013 uma reportagem de Roberto de Oliveira que ainda permanece no centro de uma forte polêmica. Intitulada “Cantoria de sabiá-laranjeira na madrugada divide ouvidos paulistanos”, a matéria registra várias reclamações contra o canto do pássaro nessa época do ano.
Teria esquecido o assunto caso não recebesse hoje de manhã um e-mail de uma amiga de Sampa confirmando que continua a gritaria contra o canto das sabiás e, meio brincando e meio a sério, ela teme que o governo petista da capital de São Paulo extermine, também, com o pássaro.
Aqui na nossa área, apesar daqueles meliantes que com suas kombis berram em altos falantes as 8 da manhã que compram ferro-velho, apesar das festinhas em plays de prédio nos fins de semana vomitando lixo musical em alto volume, apesar da buzinaria nas ruas, apesar das serras elétricas e daquela famigerada “makita” que corta mármore, apesar do abandono dos governos que joga nossos tímpanos ao léu ainda há (mal amados, mal resolvidos, mal comidos, mal o que?) quem caia de paulada nos sabiás.
Não há nada de tão bizarro pois já ouvi reclamações assim no Rio, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Mais: há tempos um amigo tentou me convencer que o canto do sabiá ao cair da tarde, misturado ao dos pardais deprime, joga pra baixo, baixa a crina. Será?
Diz a matéria da Folha:
Por volta das três da matina começa a sinfonia. O cantante é o sabiá-laranjeira, ave-símbolo do Brasil e do Estado de São Paulo, que vive no campo e na cidade.
Por causa do insistente gorjeio, "posts" vêm pipocando nas redes sociais, reivindicando o silêncio dos passarinhos em prol do sono.
O diretor de arte Gilberto Leite, 38, postou: "Ele canta três acordes e fica o dia inteiro martelando isso. É insuportável!". À reportagem, disse ele: "Vou ser linchado pelos protetores dos pássaros, mas que é insuportável, isso é".
A reportagem segue registrando reclamações e elogios ao canto do sabiá-laranjeira, a meu ver (ou ouvir) de um lirismo especial que me transporta para a infância, lá em Angra dos Reis, quando eu ficava sob um ingazeiro contemplando sabiás, coleiros e canários da terra cantando sem parar.
Informa que, a cinco metros de distância, o canto do sabiá 75 decibéis, contra 80 do ruído do trânsito e 90 da buzina de um carro.
Aqui onde moro, ouço ao longe o canto dos sabiás. Eram três no ano passado, hoje restou um. Os outros dois foram comidos por micos carnívoros importados da Bahia nos anos 1980. Esse solitário sobrevive a fumaça, a especulação imobiliária, trânsito infernal e até, caramba, ao ser humano, essa mula sem cabeça que transforma o planeta numa calota de fusca.
Quando ouço o sabia agradeço porque o canto que simboliza o Brasil mostra que ainda há natureza resistindo ao massacre que transforma cidades em aldeias de cimento, sem rosto, sem alma, sem caráter.
Também por isso, viva os sabiás! Viva!