domingo, 27 de dezembro de 2015

Só a ficção é capaz de construir um mundo sem ódio

Até recentemente não acreditava na existência do ódio. Mais do que isso. Não acreditava que alguém pudesse me odiar até que tudo aconteceu, ou tudo não aconteceu. Não conheço o ódio. Não sei se ele faz acontecer ou faz não acontecer. Os motivos que nos tornam odiados variam de acordo com a pequenez de quem odeia, mas em geral é uma mistura de intolerância, impaciência, burrice emocional, falta de contraprestação afetiva (de nossa parte) ou interesses contrariados, tudo sob o manto da onipotência cavalar, egolatria, egoísmo e outras baixarias.
Situações que os cafajestes tiram de letra, na base do rabo de arraia, da rasteira existencial. Eles vem do nada, papo lascivo, dão boas bimbadas, ficam por ali um tempo até enjoar, mentem alucinadamente, caem fora, somem, voltam, comem de novo...ódio? De jeito nenhum. Até na lamúria de suas consentidas “vítimas” o cafajeste é cultuado em frases lapidares do gênero “veio aqui na maior cara de pau, me comeu horas. Acordei de manhã e ele já tinha sumido, aquele canalha, que não me liga, não me escreve...vândalo adorável”.
No planeta da ficção podemos viver sem a presença cinzenta do ódio porque lá podemos inventar presenças e ausências. Um mundo sem ódio, por exemplo. Mergulhei fundo no mundo da ficção quando escrevi meu primeiro (e ainda único) romance, “5 e 15”, que foi lançado em 2007 pela Tech & Mídia Comunicação da amiga Liliana de La Torre. Este ano resolvi por o livro na internet. Quem quiser ler (aviso que é barra pesada) é só clicar aqui: http://5e15lam.blogspot.com.br/

Não foram poucas as pessoas que leram “5 e 15” e depois mandaram e-mails com perguntas do gênero “como nasceu a ideia que você colocou no capítulo X?”. Sempre respondi “não sei” porque de fato não tenho a menor ideia de onde vem as ideias.
Todo ser humano tem suas ficções. Isso é fato comprovado até por revistas de fofocas. Existem as ficções do bem, que se transformam em livros, filmes, peças de teatro, poesias, letras de música e as do mal, muito chegadas a paranoias, medos inexplicáveis, fofocas e dezenas de outras consequências. Fato é que há muitos anos li num livro que botar pra fora as boas ficções faz bem a saúde.
Eventualmente me aventuro a escrever devaneios totalmente ficcionais, mas, ainda assim, alguns leitores perguntam se o que escrevi aconteceu ou não. Ou então, se aquela ideia foi inspirada em alguma experiência pessoal que vivi, enfim, parece que alguns leitores precisam ver um pouco de realidade nas ficções.
Tenho colegas jornalistas que se dão muito bem com a ficção, mas eles sempre dizem que o pavio é aceso por algum elemento factual, alguma coisa que aconteceu ou que eles achavam que iria acontecer. Outros não conseguem. No máximo produzem uns ensaios, sempre baseados em fatos, dados, comprovações.
Um de meus primeiros textos de ficção brotou da história que foi contada em uma roda por um lendário cascateiro de Niterói. Ele disse que certa vez estava numa boia de pneu de caminhão na Praia de Icaraí, pegou no sono e acordou em Copacabana. Sem ter o que fazer, dormiu de novo e acordou em Icaraí. E ai daquele que o questionasse porque além de truculento ele brigava bem pra cacete.
Tanto que, anos mais tarde quando publiquei a história num jornal local (totalmente maquiada, disfarçada, cheia de artifícios, mas não adiantou porque ele reconheceu) o cara andou me procurando. Diziam que queria me dar uma surra.
Até que o acaso me fez encontrá-lo na fila do cinema Icaraí e ele me tratou amavelmente, ofereceu pipoca e o falecido (eu acho) Chucola, drops de Coca Cola. Entendi. No fundo, ele adorou ver sua história publicada, apesar de todas as deformações que cometi para ocultá-lo. Vai entender. Aliás, entender pra que? Por que temos essa cisma de querer entender muitas coisas que nos são totalmente inexplicáveis, entre elas a ficção?


Não sei.