sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

“Thin Lizzy”, uma grande mulher que detestaria que eu sofresse sozinho na cidade deserta

Ela e eu tínhamos a mesma idade e estávamos saindo da adolescência. Eu a apresentei ao Thin Lizzy, mega banda irlandesa, no começo dos anos 70 e imediatamente ela se apaixonou. Gravei num K-7 o álbum “Night Life”, de 1974.
Ela não parava de ouvir e por isso a apelidei de Thin Lizzy, codinome que só nós dois conhecíamos. Ninguém mais, em parte alguma do mundo, sabe que um dia ela foi apelidada de Thin Lizzy. Eu sei.
Quatro anos atrás dobrei uma esquina apressado perto de casa, por volta das duas da tarde. Um cara me abordou “sabe, meu irmão, desculpe te parar assim no meio da rua... você certamente me conhece de vista... enfim, não me leve a mal, mas a Fulana morreu”.
Foi assim que soube que Thin Lizzy tinha partido. Acidente de carro. Um amigo de um dos irmãos dela me parou na rua, disparou aquele míssil no meu ouvido e foi embora. Fiquei em pé na esquina, sem saber o que fazer, sem saber no que pensar, e, confesso numa boa, cheio de culpa porque não via Thin Lizzy desde os anos 1980.
Sentei num banco bem perto de um quiosque de flores. Vontade de comprar flores do campo...comprei flores do campo e subi o Parque da Cidade. Da rampa de vôo livre, vazia, atirei as flores, mas infelizmente não consegui chorar. Um choro que Thin Lizzy merecia.
Foi uma maravilhosa mulher, que me apresentou a um monte de coisas que pairam pelo mundo, pelos poros, pelos mares, enfim, até então eu não conhecia muita coisa, ou, quem sabe, coisa alguma. Senti vontade de entrar num ônibus qualquer, sem saber qual e só parar no ponto final, diante daquele triste e definitivo fim.
Muitas coisas ainda me lembram Thin Lizzy (e mesmo assim nunca telefonei para desejar feliz ano novo) porque, durante os três anos de namoro, nós fazíamos o nosso “Reveillon” numa praia minúscula e erma da cidade, para onde levávamos alguma coisa para comer, champanhe para ela, coca cola para mim e ficávamos lá, vendo as estrelas e, logicamente, ouvindo muita música num aparelhinho de som que suportou bravamente três das nossas viradas de ano.
É lógico que colocávamos discos do Thin Lizzy porque, de alguma maneira, além de Quadrophenia do Who, o Lizzy tinha a ver com a gente, com nossas conversas e objetivos de vida, nossa cáustica adolescência que se aproximava do crepúsculo.
Rebelde, livre, Thin Lizzy foi expulsa de casa algumas vezes. Nessas fases moramos em alguma espelunca no centro da cidade já que orçamento de adolescentes é e sempre foi arrochado. Aí, ela se acertava com a família e, três, quatro dias depois voltava para casa. Querem saber? Amei profundamente aquela garota que vi virar mulher. Amei e sabia que estava amando, sem esse papo de “só anos depois percebi o que estava sentindo”. Nada disso. Foi tudo em tempo real. Amei, sabia que estava amando e vivia dizendo a ela que a amava.
No final do ano passado fui dar uma volta de carro, cabeça quente, vi uns presépios, a luz do Rio, um avião e lembrei da Thin Lizzy que, repito, não vejo desde os 80 e não verei mais. Pus uma canção do Lizzy chamada “Fats”, de 1981, que meu querido e muito saudoso amigo Alex Mariano vivia programando na Rádio Fluminense FM, Maldita (ele era produtor lá) e fiz uma oração para a Thin Lizzy. E para o Alex também. Sem drama, sem nó na garganta, sem nada de ruim porque ela detestaria que eu sofresse sozinho na cidade deserta ao som de “Fats”, que certamente ela conheceu.

Não sei porque escrevi esse texto torto, mas dizem que os blogs são para isso mesmo.