sábado, 31 de janeiro de 2015

Anderson Silva retorna ao moedor de carne

                                                                           


Dinheiro, muito dinheiro. O lutador Anderson Silva tenta explicar o seu retorno ao moedor de carne, vulgo UFC, com outras desculpas, mas todo mundo sabe que, ganhando ou perdendo, surrando ou surrado pelo outro primata, o americano Nick Diaz, ele terá pelo menos mais um milhão de dólares limpos em sua conta bancária. A volta do lutador será na madrugada deste sábado para domingo, mas a TV não vai transmitir ao vivo.

Como se sabe, Anderson Silva quebrou a perna há um ano, quando chutou de mal jeito um outro animal, Chris Weidman. Lembro do grito lancinante do brasileiro, do sangue que jorrou, da histeria da torcida clamando por morte, do orgasmo no locutor ao vivo, exatamente como a horda que ia ao coliseu romano ver leão comer cristão, dois mil anos atrás.

Anderson Silva é um milionário, assim como todos os campeões dessa boçal modalidade chamada MMA, ou UFC (não vou perder meu tempo pesquisando prováveis diferenças entre as duas modalidades), e ganha a vida dando e arrancando sangue nos octógonos, rinha de luxo sustentada pela dinheirama das redes de TV, da indústria do álcool, do jogo e também da publicidade “limpa” de uma maneira geral.

Esses bípedes podem continuar se destruindo à vontade em frente a milhões de TVs porque sou contra qualquer tipo de censura. O que me incomoda, e muito, é a divulgação maciça dessa barbárie pelos meios de comunicação, especialmente no Brasil, país falso-moralista que proíbe, por exemplo, briga de galos. Ora, podemos pegar o galo, matar o galo, por na panela e comer, mas não podemos assistir os galos imitarem Anderson Silva. Por que?

O ser humano não está tão distante dos primatas assim. Eu diria que nosso antepassado mais direto mora no octógono da esquina. Afinal, a massa (pelo que observo) fica histérica e goza quando lutadores arrancam vísceras nos ringues do planeta. Esquisita a espécie humana. Por um lado torce para que todas as doenças tenham cura e, por outro, alimenta a morte apostando em MMA/UFC, roleta russa (aquela do revólver na cabeça com uma bala só) e na Coréia do Norte paga ingresso para assistir a fuzilamento de condenados.

As crianças não entendem nada. Na falta de explicação, vendo seus pais urrarem de luxúria assistindo na TV homens suados sangrando e quase matando outros homens, num ringue de luxo acabam achando que é tudo normal. E é aí que mora o perigo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Encerrado em paz o ciclo da Fluminense FM de 1982

                                           Jimi Hendrix
Há poucos dias atrás fui procurado por uma editora de São Paulo que me propôs escrever um livro sobre a geração musical que precedeu a Rádio Fluminense FM e também a que sucedeu. Quase ao mesmo tempo, estudantes de uma faculdade queriam fazer uma entrevista em vídeo sobre a rádio. Pauta: o início, o meio e o fim.

Em ambos os casos agradeci mas me recusei a participar. No caso do livro deixei bem claro que a minha história com a Fluminense, conhecida também como Maldita, se refere ao parto, a vida, aos sonhos, desejos, um delírio real e maravilhoso. Cheguei lá em agosto de 1981 com meu saudoso amigo Samuel Wainer Filho, que trabalhou no projeto até novembro e no dia i de março de 1982 a rádio entrou no ar, exatamente as seis horas da manhã.

Viramos a noite do dia 28 de fevereiro pra 1 de março para que a emissora entrasse no ar com as vinhetas. Eu e os produtores, Sergio Vasconcellos e Amaury Santos. A locutora que estreou a rádio foi Selma Boiron e na produção estavam na equipe, também, Alex Mariano e Maurício Valladares.

A Fluminense FM de 1982 era maravilhosa Tão maravilhosa que se entrasse no ar hoje, com pequenos ajustes na programação musical, faria o maior sucesso. As meninas na locução ainda estão à frente do tempo, assim como os textos dos produtores, a criatividade das promoções, enfim, o conjunto da obra (e da equipe, genial equipe) foi tão espetacular que resistiu a 33 anos. Trinta e três!

Publiquei livros sobre a minha passagem por lá e neles deixo claro que só comento o que vivenciei e testemunhei entre 1 de março de 1982 e 1 de abril de 1985 (quando deixei a Fluminense) e entre 1989 e 1990, quando voltei lá e encontrei uma equipe espetacular. Locutoras e produtores de altíssimo níve. 

Não falo sobre antes nem depois porque não vi, não ouvi. Seria leviandade.
Mas ao longo do tempo, muitos ouvintes me mandaram CDs com a programação de rádio em seus últimos anos de vida. Impressionante. Não tinha nada, absolutamente nada a ver com a rádio que nasceu em 1982. Confirmei o raciocínio ao ler “Rádio Fluminense FM - A porta de entrada do rock brasileiro nos anos 80”, livro de Maria Estrella que conta a história da rádio (a partir de muitos depoimentos) do início ao fim.

A rádio de 1982 era inteligente, ousada, criativa, engraçada, politizada, elegante, discreta, vivia lá na frente, além do futuro, mas respeitava os clássicos, a história, os corações e mentes dos ouvintes. Não era uma rádio da moda. A Fluminense de 82 criava a moda. Por isso, o sucesso avassalador e, para nós, imprevisível.

A editora entendeu e ainda me propôs um outro livro, sobre outro assunto que, certamente, vou escrever. Quando tiver mais detalhes, publicarei aqui na Coluna. Os estudantes também foram bem legais, aceitaram meu ponto de vista e ficou tudo bem.

Afinal, já se vão 33 anos, muitas celebrações, livros, discos, palestras, muitos debates. Está mais do que na hora de deixar a bela história do início da Fluminense FM em paz, para ela pairar sobre o planeta numa boa. Mesmo que eu tivesse elementos para escrever o tal livro que me foi sugerido sobre o antes e depois (num esforço, até daria), já passou, já foi, está cansada, dorme confortavelmente no Olimpo dos vencedores.

O belo ciclo da rádio foi cumprido e para começar outro, gerar uma nova onda só se ela voltasse ao ar, num formato idêntico (evidentemente atualizado) ao de 1982, quando foi reconhecida em todo o país como uma grande emissora de rádio. E de rock.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Morre Antonio Quintella; calam-se as guitarras

                                                                    
    Capa do CD "Araribóia Blues". Óleo sobre tela de Claudio Valério Teixeira  
Serei breve. No início da tarde de ontem entrei no Facebook e fiquei sabendo da morte do querido, muito querido amigo Antonio Quintella. Me explicaram que na noite de quarta-feira ele se sentiu mal em sua casa em Maricá e foi levado para uma Unidade de Pronto Atendimento, UPA. Foi examinado e foi liberado pois nada grave foi constatado. Antonio chegou em casa e morreu.
Ao longo do dia de ontem e de hoje também, a emoção de dezenas e dezenas de pessoas na internet, lamentando profundamente a partida deste grande homem, pai, marido, amigo, cantor, músico. Eu tenho muitas historias para lembrar do nosso Antonio, mas, como as guitarras, optei pelo silêncio.
Mas não poderia deixar de falar do orgulho e da honra que tive em produzir seu primeiro disco, o CD Arariboia Blues, lançado pelo selo Niterói Discos em 1994. 
Ao longo de três meses, seis horas por dia, convivi com ele no Castelo Estudio, de Fabio Motta, na Estrada Fróes, em Niteroi. Com Antonio, com Zelly Mansur (engenharia de som) com músicos sensacionais e com o próprio Fábio Motta, nosso amigo. 
Minuto a minuto, musica por musica, instrumento por instrumento, Antonio me privilegiou com a sua absoluta confianca. Antes de começarmos a gravar ele me disse "Toni, faca o que quiser". E fiz. Logo, todos os acertos e erros do disco são de minha total responsabilidade e o talento, a ousadia, o desprendimento, o brilho, são e sempre serão do maior bluesman brasileiro que conheço: Antonio Quintella.
Obrigado, me amigo. Fique com Deus. Sempre.
Na sequência, uma Coluna do LAM que publiquei ano passado:

Antonio Quintella: Araribóia Blues e Sincronicidade:

Um dos discos que mais gostei (e me orgulhei) de produzir foi “Araribóia Blues” do cantor e compositor Antonio Quintella, pelo selo Niterói Discos, nos anos 90. Tempos atrás, por pura saudade, peguei o CD e ouvi todo, de ponta a ponta, lembrando das dezenas de sessões de gravação no Castelo Estúdio, de Fábio Motta, que duraram quase seis meses.

Antonio é um dos melhores cantores que conheço e à medida que o CD ia mudando de faixa lembrei de momentos das gravações. Muitos hilários, outros dramáticos, enfim, gravar um disco exige de todos os envolvidos muita calma, tolerância, paciência e resistência.

Disco pronto, lançado, Antonio Quintella mudou-se para a Califórnia onde foi vizinho de, nada mais, nada menos, Neil Young. Vinha esporadicamente a Niterói, mas não nos encontrávamos.



Pois bem, caro leitor, exatamente no dia seguinte da minha audição o telefone tocou e era ele. Cheguei a ficar meio mudo no início da conversa porque achei incrível essa coincidência. Afinal, não via o meu amigo-cantor há anos e não ouvia o seu disco há bastante tempo.



Ele voltou para Niterói definitivamente e está morando com a família em um belo sítio em Maricá. Vai estar no show “De Volta a Estrada” com Os Lobos, dia 6 de setembro, no Teatro Municipal de Niterói. Ele tem muitas histórias para contar sobre seu longo período nos Estados Unidos e vamos marcar um encontro exclusivamente para atualizarmos nossas agendas existenciais. Há muito o que falar, de ambos.



Aliás, naquela época do retorno do Antonio, vivenciei coincidências que, em alguns casos, chegaram a ser assustadoras. Carl Gustav Jung, um dos pais da psicanálise, não acredita em meros acasos. Ele criou a Teoria da Sincronicidade que em resumo diz que tudo no universo está interligado por um tipo de vibração, e que duas dimensões (física e não física) estão em algum tipo de sincronia, que fazia certos eventos isolados parecerem repetidos, em perspectivas diferentes.



A ideia desenvolveu-se primeiramente em conversas dele com Albert Einstein, quando ele estava começando a desenvolver a Teoria da Relatividade. Einstein levou a ideia adiante no campo da Física, e Jung, na Psiquiatria.



A sincronicidade é definida como uma coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos. Um sonho de um avião despencando das alturas reflete-se na manhã seguinte numa notícia dada pelo rádio. Não existe qualquer conexão causal conhecida entre o sonho e a queda do avião.



Jung postula que tais coincidências apoiam-se em organizadores que geram, por um lado, imagens psíquicas e, por outro lado, eventos físicos. As duas coisas ocorrem aproximadamente ao mesmo tempo, e a ligação entre elas não é causal.



Antecipando-se aos críticos, Jung escreveu: "O ceticismo... deveria ter por objeto unicamente as teorias incorretas, e não apontar suas baterias contra fatos comprovadamente certos. Só um observador preconceituoso seria capaz de negá-lo. A resistência contra o reconhecimento de tais fatos provém principalmente da repugnância que as pessoas sentem em admitir uma suposta capacidade sobrenatural inerente à psique".



Coincidência ou sincronicidade, Antonio Quintella deveria publicar uma biografia. Quem o conhece sabe que ele tem muitas ótimas histórias para contar, todas regadas a boa música.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Falta luz, falta água, falta vergonha na cara dos governantes e do povo

De tanto mentir e roubar o fascista Benito Mussolini (ex-primeiro ministro da Itália), foi justiçado pelo em povo 25 de abril de 1945. Da esquerda para a direita, os corpos de Nicola Bombacci, Benito Mussolini, sua amante Clara Petacci, Alessandro Pavolini e Achille Starace, expostos na Piazzale Loreto, Mezzegra, Itália.

Desde o ano passado todo mundo diz que os governos iam fazer racionamento de água pela mais simples das razões: a água acabou. Os governos, levianos, visando as eleições, desmentiam o racionamento categoricamente, as vezes com indignação e cara de choro, como foi o caso do governador de São Paulo.

A verdade boiou ontem. Se a seca continuar, dos sete dias da semana, São Paulo vai ficar cinco sem água. Racionamento. Mais: ontem o governador do Rio, que é saco e ovo com a presidente, descartou racionamento em terras fluminenses, onde vários reservatórios estão secos. Uma afirmação dessas é piada, cinismo e leviandade ampla, geral e irrestrita.

É óbvio que vem aí o racionamento de luz porque os governos não investiram o que tinham que investir em construção de hidrelétricas, reservatórios, ou deixaram que sumissem com o dinheiro da famigerada infraestrutura que o Brasil não tem.

O governo preferiu o populacho, e injeta mais grana no bolsa-família que drena 24 bilhões de reais por ano (e vai aumentar neste 2015), bolsa isso, bolsa aquilo. E já que impera o populismo, por que não criar o bolsa-idoso, para atender a pessoas com mais de 70 anos, que vivem em estado de penúria já que a maioria não conseguiu contribuir para o INSS ao longo da vida? Por que o populismo brasileiro só pensa em criança?

O governador do Estado do Rio preferiu dar R$ 50 milhões, uma espécie de bolsa-chuva, para produtores rurais em vez de ter feito obras preventivas antes. Era o vice-governador de Sergio Cabral desde 1 de janeiro de 2007, e assumiu o poder em 3 de abril de 2014 e, como todo o país, também sabia que a água ia acabar. Nada fez durante sete longos anos, quando mandava muito no Estado do Rio.

Poucas vezes mentiu-se tanto no Brasil como agora, o que confirma a velha rasteira, o estelionato político a luz do dia, rabo-de-arraia, sem que a sociedade civil reaja. A presidente “desdisse” tudo o que prometeu na campanha para a reeleição; o juro do cheque especial bateu calamitosos 200,6% ao ano e ainda vai sumir mais.

A taxa Selic subiu mais 0,5% (bateu 12,5%), combustíveis vão aumentar ainda mais (ao contrário do resto do planeta onde o preço desaba), o preço da energia elétrica suga a jugular do eleitor que, de novo, nada fez, nada chia, não reage, mesmo sabendo que está sendo estuprado pelo governo que tem que arranjar dinheiro para bancar a corrupção na Petrobrás e em outras estatais que não estão na berlinda. Aliás, quando irão abrir as caixas pretas de todas as estatais? Nunca? Pode ser.

A leviandade não tem cara, partido, credo. A leviandade é leviana e fim de papo. Continuam roubando na saúde, na educação, nos transportes e os governos mentem, mentem, mentem dizendo que tudo está sendo apurado com o maior rigor. 

Rigor mortis? Só pode ser.

P.S. - A propósito, uma frase de Benito Mussolini, aquele senhor que está pendurado de cabeça para baixo na foto:

          " Eu sempre achei mais fácil convencer uma grande massa do que uma só pessoa." (B. Mussolini).