domingo, 31 de maio de 2015

Quando a existencialista avenida Brasil elegeu Nebraska, obra prima de Bruce Springsteen

                                                                               
A avenida Brasil parece íntima, mas não é. Nos anos 1970, 80, 90, 2000, subi e desci suas pistas literalmente milhares de vezes. Em busca de notícias, de mulheres que me incendiaram, casa de amigos. Conheço cada pista, cada palmo, cada faixa, mureta da avenida Brasil, mas ainda a estranho. Por que? Porque ela sempre me estranhou e vai me estranhar sempre.

A avenida Brasil é existencialista, despreza o amanhã, ignora o ontem. Ali o que vale é o agora, o bang bang afetivo, o caos que eventualmente se torna Cosmos. Ou não. É pegar ou largar. Quem desiste não volta, quem insiste demais bate de frente.

Se eu fosse Bruce Springsteen teria composto Nebraska, sua obra prima, em algum ponto daquela torta avenida e seu asfalto roto que liga a tristeza a esperança, o sorriso ao nó na garganta, o nada ao lugar nenhum, nervos nublados a euforia existencial. Façam os jogos, senhores. A avenida Brasil é o pano verde de cada dia, onde milhares de pessoas jogam todas as suas fichas, dia sim o outro também.

Nebraska, canção que abre o álbum, fala de um degenerado executado na cadeira elétrica. A avenida Brasil também olha, prende, julga, condena e mata. E não é preciso ser o degenerado descrito por Springsteen e muito menos o assassino do árabe de “O Estrangeiro” de Albert Camus. Basta ser gente. Gente que vai e não volta. Gente que volta e não vai. Os sulcos da avenida, volta e meia salpicados de sangue, jogam na vala. Vala comum. Vala incomum.

Avenida Brasil, Nebraska nosso de cada dia. Sem gaita, sem voz, sem violão. Apenas um som. Ermo, brusco, surdo, como os baques, os beijos, o soco, a bruma, a fumaça. Nebraska, sim.

Sempre.
                                                     
Nebraska

(Bruce Springsteen)

I saw her standin' on her front lawn just twirlin' her baton
Me and her went for a ride sir and ten innocent people died

From the town of Lincoln Nebraska with a sawed-off .410 on my lap
Through to the badlands of Wyoming I killed everything in my path

I can't say that I'm sorry for the things that we done
At least for a little while sir me and her we had us some fun

The jury brought in a guilty verdict and the judge he sentenced me to death
Midnight in a prison storeroom with leather straps across my chest

Sheriff when the man pulls that switch sir and snaps my poor neck back
You make sure my pretty baby is sittin' right there on my lap

They declared me unfit to live said into that great void my soul'd
Be hurled
They wanted to know why I did what I did
Well sir I guess there's just a meanness in this world




Figuraça de hoje: Jim Marshall, o inventor do megafone do rock

    Jim Marshall
    Parede de Marshalls
    Jimi Hendrix
         Eric Clapton
    Jimmy Page
James Charles "Jim" Marshall (29 de julho de 1923 - 5 de abril de 2012) conhecido como o “pai do volume” ou “senhor da pauleira” foi um empresário inglês e pioneiro da amplificação de guitarra.

Sua empresa, a Marshall Amplification, criou os equipamentos que são usados por alguns dos maiores nomes do música rock, transformando os amps em ícones do rock and roll. Entre os músicos que usaram (e usam) Marshall a vida toda estão Jimi Hendrix, Jimmy Page, Eric Clapton, Ritchie Blackmore, entre muitos outros.

Em 2003, Jim Marshall foi premiado pelo governo inglês pelos "serviços a indústria da música e à caridade ". Ele é considerado um dos pais de equipamentos de rock, juntamente com Leo Fender e Les Paul .

Em 1960, Marshall era dono de uma loja de música em Hanwell, oeste de Londres, que vendia bateria  mas em seguida especializou-se em guitarras. Seus muitos clientes incluíam Ritchie Blackmore, Big Jim Sullivan e Pete Townshend que queria um tipo de amplificador, "maior e mais alto". Jim não perdeu a oportunidade.

Contratou o aprendiz de eletrônica Dudley Craven de 18 anos, que estava anteriormente trabalhando para gravadora EMI e, com a ajuda dele, começou a produzir amplificadores protótipos, resultando na fundação da Marshall Amplification, em 1962. Dudley fez seis tentativas para criar o amplificador que Jim Marshall achava ideal e foi testado por Pete Townsend, do The Who, que batizou "o som Marshall", que revolucionou a música.

Enquanto a empresa crescia, Marshall expandiu seus produtos e lançou vários modelos de amplificadores. Assim que começou a produção em série músicos como Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page estavam usando seu equipamento. A "pilha de Marshall", uma parede de preto, armários revestidos de vinil, um sobre o outro, era visto como a personificação física do poder, a majestade de rock.

Jim Marshall morreu em 5 de abril de 2012 em um hospício em Milton Keynes, Buckinghamshire. Ele tinha 88 anos. Músicos incluindo Paul McCartney, Slash, Dave Mustaine do Megadeath, e o baixista Nikki Sixx do Mötley Crüe prestaram homenagens a ele.


Todos os anos, em 5 de abril guitarristas de todo o mundo gravam vídeos contendo um minuto de esporro, em vez de 1 minuto de silêncio, como um tributo ao criador do Marshall. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Exposição internacional sobre Jimi Hendrix vai pousar em São Paulo














A exposição "Hear my Train a Comin: Hendrix Hits London", dedicada ao guitarrista Jimi Hendrix, chegará a São Paulo em 10 de junho, no shopping JK Iguatemi. São cerca de 140 peças da coleção do Experience Music Project Museum, de Seattle (EUA). Entre elas guitarras, roupas e cartazes de shows.

Está tudo muito bom, está tudo muito bem mas a exposição só aborda os anos 1966 e 1967, quando Hendrix se tornou uma lenda em Londres para onde foi levado pelo baixista do The Animals, Chas Chandler, que tornou-se produtor e tutor do músico. Mesmo assim é ótima e vale uma ida a Sampa para conferir.

A curadoria da exposição é de Jacob McMurray. A meia-irmã do músico, Janie Hendrix, diz que também é curadora. Não sei, no site oficial de McMurray (www.jacobmcmurray.com/Hendrix-Hits-Londonwww.jacobmcmurray.com/Hendrix-Hits-London) o nome dela sequer aparece. Sei que quando o guitarrista morreu ela tinha apenas 9 anos e, muito esperta, ótimo faro para negócios, hoje é presidente da empresa que cuida dos interesses ($$$) da família Hendrix. Aliás, toda a família está empregada na empresa.

Janie, que andou até por Niterói nos anos 1990, deveria estudar um pouco mais a biografia do meio irmão Jimi antes de falar asneiras por aí. Por exemplo, ela disse ao site Classic Bands que Jimi estava muito feliz dois meses antes de morrer (ela o viu, pela última – dizem que única – vez em 26 de julho de 1970), animado com o estúdio que tinha acabado de inaugurar (Electric Lady, em Nova Iorque) e com a turnê que iria fazer pela Europa.

Não é verdade, Janie. Jimi estava deprimido, em crise quanto aos rumos que sua música iria tomar, falido porque foi roubado por todo mundo e só dormia a base de tranquilizantes fortíssimos. Você cometeu outra asneira ao dizer ao Classic Bands que o sonho de seu meio irmão era fazer um som tipo Earth, Wind and Fire. Quanta bobagem.

Historinha que a meia irmã de Hendrix deveria ler:

Em 1966 Hendrix estava tocando no bar Café Wha? no Greenwich Village (Nova Iorque) e lutando para fazer sucesso com o seu grupo Jimmy James and The Blue Flames.

Uma noite, o ex-baixista do The Animals Chas Chandler foi lá vê-lo tocar. Chandler prometeu que ele poderia fazer Hendrix uma estrela se ele se mudasse para a Inglaterra dois dias depois. Hendrix concordou, com uma condição: que Chandler o apresentasse aos deuses da guitarra Jeff Beck e Eric Clapton, amos britânicos.

Uma semana depois de chegar a Londres, Hendrix e Chandler convidaram o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell para criar Experience, na minha opinião o melhor grupo de Jimi Hendrix. Como um raio, o trio tomou a cena da swinging London. Ao longo dos próximos nove meses o trio excursionou sem parar, lançou três singles e um álbum de estreia que ficou no topo das paradas, e conquistou a imprensa musical britânica.

Nove meses depois de conquistar o Reino Unido, Hendrix se despediu de Londres com um show no Teatro Saville, quebrando sua guitarra psicodélica pintada em homenagem a Inglaterra. Duas semanas depois, Paul McCartney (fã de carteirinha do músico) ligou para John Phillips (do Mamas & Papas) que estava organizando o festival de Monterey, indicando o nome de Jimi. Ele apresentou-se para a América com uma performance incendiária para no festival.

Desconhecido nos EUA antes do festival, virou uma estrela internacional, mas sempre chamava Londres de “minha casa”, já que até o Festival de Monterey foi renegado nos Estados Unidos.

Sem Londres seus dons musicais não teriam atingido o público mundial. Hendrix tinha o talento, o carisma e a ambição, enquanto Chas Chandler tinhas as influências e as conexões. Mas swinging London teve a moda, a música e a cultura única que se mostrou vital para o sucesso de Hendrix.


quinta-feira, 28 de maio de 2015

A lua ainda é dos poetas, mas o mundo não esquecerá de Neil Armstrong

A lua jamais deixará de ser a musa encantada dos poetas, mesmo depois que Neil Armstrong desceu do módulo lunar da missão Apolo 11 em 20 de julho de 1969 e marcou o solo lunar com sua bota prateada. 1969 foi um ano de muitas mudanças, entre elas o maior protesto contra a guerra do Vietnã reunindo meio milhão de pessoas (90% jovens) em Woodstock, no mês seguinte. Esse ano foi tão significativo que, inspirado nele, Paul Auster escreveu o magistral “Palácio da Lua”, livro que devorei em dias noites.

Sempre fui um apaixonado pelo céu e os astrólogos dizem ser uma característica de meu signo. Lembro bem do dia em que o homem pisou na lua. Tinha 14 anos e morava na rua Alvares de Azevedo em Icarai (Niterói), onde o nosso bando tinha o hábito de jogar taco (uma espécie de baseball tupiniquim) no meio da rua. Atento a propaganda sobre a hora em que Armstrong pisaria na lua, fui cedo para casa para assistir pela TV. Acho que não foi uma transmissão ao vivo, mas sei que a narração era de Hilton Gomes, um célebre locutor. A imagem em preto e branco cheia de imperfeições me hipnotizou e quase não ouvi o pipocar dos fogos que algumas pessoas soltaram celebrando aquele momento. Um momento crucial na história de todos nós que algumas pessoas insistem em afirmar que foi uma fraude, que o homem pisando na lua teria sido uma gravação simulada em estúdios. Que bobagem.

Algumas pessoas diziam o fato do homem pisar na lua anularia seu poder poético. Não acho. A lua continua comovendo, mesmo depois de Neil Armstrong e também da Apolo 13 que passou perto mas não pode descer (o filme com Tom Hamks é fabuloso). E se a humanidade evoluiu, pelo menos cientificamente, devemos muito a desbravadores heroicos como Armstrong. 

Aliás, sugiro a todos que peguem nas locadoras o filme “Os Eleitos”, de Philip Kaufman que conta a história da corrida espacial de um jeito completamente diferente. O filme é baseado no livro de Tom Wolfe.

Neil Armstrong morreu em agosto de 2012 triste com o corte de verbas para o programa espacial e até se reuniu com Barack Obama para tratar do assunto. Obama explicou que é uma questão temporária mas, ainda assim, Armstrong não engoliu. Discreto, nunca transformou a sua grande viagem numa egotrip pessoal e, só eventualmente, dava uma ou outra palestra. Admiro pessoas assim. Por tudo que representa e simboliza, por tudo que fez, Neil Armstrong, um ícone dos anos 60, deixa muita saudade.

E já que existe lua, vai-se para a rua. (Gilberto Gil).



A importância visceral de Nova Friburgo

Ontem estava conversando com uma amiga sobre cidades serranas. Tudo começou quando ela entrou no Message do Facebook comentando o texto “Meu Afeto não se Encerra” que publiquei essa semana aqui na Coluna (http://www.colunadolam.blogspot.com.br/2015/05/o-meu-afeto-nao-se-encerra.html) . Foi quando lembrei que, afetivamente falando, Nova Friburgo teve uma importância crucial em minha evolução afetiva.

Nos anos 1980 me senti tão íntimo da cidade serrana que também comecei a chama-la apenas de Friburgo, abolindo o Nova, como fazem os locais que vivem lá e as pessoas que há anos curtem a cidade.

Também para mim os anos 80 foram cruciais, muita coisa aconteceu nos terrenos afetivo, profissional, existencial, transcendental, uma década de decisões (muitas) e indecisões (várias), que surfei na medida do possível. As trilhas de Friburgo, em especial de Macaé de Cima (Gaudinópolis, Lumiar, São Pedro, Rio Bonito de Cima) testemunharam momentos meus de total entrega e devoção aos sentimentos mais nobres, poéticos, singulares.

Se nas férias em Teresópolis vivi intensamente a segunda fase da minha adolescência, em Friburgo mergulhei na intimidade do afeto adulto, menos volátil, mais relaxado e contemplativo. Mergulhei nele como mergulhava nos rios que cortam a serra, sem medo, sem receios, sem condições. O afeto de Friburgo me ensinou a ser afetivamente incondicional.

Se sinto saudade? Não. Meus momentos em Friburgo (foram milhares), movidos a amanteigados, picanha na Rosa Amarela, maça do amor, circo com Egberto Gismonti tocando “Palhaço”, estão muito bem guardados em meus cofres, ao lado de outras vivências abundantes, generosas, íntimas.

Talvez por isso nunca mais tenha voltado a Friburgo porque, diz a lenda, não devemos retornar a lugares onde fomos afetivamente muito felizes porque a cena é outra e, principalmente, as protagonistas não estão mais lá. Ou seja, a Friburgo que tenho guardada não é a mesma que está a 200 quilômetros daqui.

Será?


A verdade sobre a luta armada no Brasil, ou, a ditadura chegou a proibir que as rádios falassem em epidemia de meningite

O candidato a vice na chapa de Aécio Neves a presidente foi um homem importante na luta armada no Brasil. Aloysio Nunes Ferreira, preso várias vezes mas nunca torturado, avalia hoje que a opção pelas armas foi um erro da oposição brasileira. Um tema que mexe com os nervos, becos, artérias do inconsciente coletivo nacional.

Desde que foi criada a Comissão da Verdade tenho recebido correntes com e-mails enaltecendo o golpe de 1964, os algozes como alternativa moral para o país, detonando quem se engajou na luta armada que, nessas mensagens, são tratados como bandidos, ladrões, assassinos. Como se na ditadura vivêssemos numa Shangri-la tropical.

Entendo a revolta das pessoas (minha, inclusive) contra aqueles que se dão bem graças a vitimologia. Gente que ganha milhares de reais por mês de indenização, sem terem tocado num pedaço de pau nos anos de chumbo. Também é justificável o desprezo coletivo (meu também) com ex-guerrilheiros que quando chegaram ao poder caíram de boca no dinheiro público no maior cinismo. Mas pretendo falar de regras e não de exceções.

Tempos atrás recebi uma mensagem que me deu vontade de golfar. O remetente, que copiou o e-mail para dezenas de pessoas, clamava que nós, segundo ele “brasileiros autênticos” pedíssemos que os militares saíssem dos quartéis para acabar com os comunistas que tomaram conta do Brasil, como em 1964.

O tal remetente disse que o golpe de 64 salvou o país das “garras vermelhas” (chega a ser engraçada essa expressão), mas que hoje o país clama pela volta dos fardados ao poder para que possamos viver livres, definitivamente, dos “comunas”.

O que esses fabricantes de e-mails (escritos aos milhares) querem é convencer que “naqueles tempos” (ditadura) não havia ladrões, vivia-se o milagre brasileiro na economia, enfim, um lixo de informações distorcidas e propositalmente equivocadas.

Na ditadura os meios de Comunicação estavam sob censura, especialmente a partir do famigerado AI-5, baixado pelo marechal-presidente Arthur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 que degolou todos os direitos de liberdade de expressão no país.

A ditadura manipulava a inflação, o crescimento econômico, epidemias, enfim, sob o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o” roubaram muito. Só na construção da Transamazônica, usina de Itaipu e Perimetral Norte (sim, existiu uma estrada ao norte com esse nome) foram bilhões.

Em 1974, para combater uma gravíssima epidemia de meningite no país, que matou muita gente, a ditadura (na época sob o comando de Ernesto Geisel), em vez de fazer vacinas decidiu censurar a imprensa. Eu trabalhava no jornalismo Radio Tupi AM, uma emissora popular, e chegavam várias ordens de censura da Polícia Federal proibindo a emissora de mencionar a palavra meningite.

Até o AI-5 a oposição conseguia funcionar relativamente, mas a partir dele todas as vozes que não babassem os ovos dos ditadores eram cassadas ou assassinadas/torturadas. Foi quando a luta armada de esquerda começou a ganhar força, tentando peitar a ditadura.

Hoje já está mais do que claro que foi um erro, um gravíssimo erro. A História (sempre ela, sábia) explica que os verdugos, a tortura, a matança na ditadura foi uma reação à luta armada, um argumento com o qual nunca concordei.
No Araguaia, pouco mais de 60 militantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil, hoje o mesmo que em 2008 elegeu vereador em São Paulo – urgh! – o cantor Netinho de Paula) entraram em confronto com as tropas do Exército. Coube ao general Hugo Abreu, que entrevistei em 1978, a missão de fazer a chacina.

Ele chegou lá com centenas de militares e até napalm usou. Pendurou guerrilheiros mortos de cabeça para baixo em helicópteros e, munido de um alto-falante, alertava a população sobre o perigo de dar apoio aos comunistas. Morreu muita gente no Araguaia. Pior: sumiu muita gente naquela selva e é isso que a Comissão da Verdade ainda pretende desvendar.

No círculo civil (aliás, havia muitos civis beijando a boca da ditadura) o maior carrasco foi o delegado do Dops de São Paulo Sergio Paranhos Fleury, o homem que matou Carlos Marighella e torturou e matou outras dezenas e mais dezenas de pessoas. Dizem que ele morreu assassinado em seu iate.

Para se ter uma breve ideia do que acontecia naqueles tempos vale à pena procurar o filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, dirigido por Roberto Farias. Mas quem quiser ir fundo no assunto, leia a coleção “As Ilusões Armadas”, quatro livros de Élio Gaspari que vão ser relançados não e deixam dúvidas.

Como se sabe, a luta armada perdeu. Muitos morreram, a maioria (dizem) desapareceu e outros tantos foram para o exílio. Em 1979, o general presidente João Baptista Figueiredo assinou a anistia e todos voltaram. Todos, sem distinção, mesmo os mais ferrenhos radicais, disseram que a luta armada foi um erro e que a democracia deveria ser conquistada através de meios pacíficos, o que, de fato acabou acontecendo.

E a democracia, digam o que disserem, é o melhor regime já inventado. O fato de poder escrever essas linhas na certeza de que não serei preso e detonado por causa disso é um exemplo. Mínimo, mas é.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Sonhando com “Starship Trooper”, do Yes, tocando numa praça em Teresópolis

                         Texto restaurado e remixado
Sonhei que era 1973 e eu ouvia/via, na primeira fila, o Yes tocando a magistral “Starship Trooper”, no alto da nossa pedra de fé fincava na praça Ginda Bloch, Teresópolis, caminho para a Cascata dos Amores. Acordei cedo com a música na cabeça e enquanto tomava café lembrei de alguns momentos do Yes na minha vida e da minha vida no Yes.

Em janeiro de 1985, Rock in Rio I, convidado por André Midani, fui almoçar com o grupo no hotel Marina, em Ipanema. Não só o Yes, mas boa parte dos artistas da Warner (gravadora que o André presidiu) que participou do festival.

Fiz questão de cumprimentar Chris Squire, meu baixista-herói, tão importante como músico como Paul McCartney e John Entwistle. Afinal, como Macca e Entwistle, Squire tirou o contrabaixo da cozinha e colocou no salão principal da Música, transformando numa espécie de segunda guitarra.

Por falar em segunda guitarra, balbuciei algumas palavras com o sul africano Trevor Rabin, na época sucessor de Steve Howe nas guitarras. Impressionante a levada desse cara, especialmente na segunda parte de “Starship Trooper”, aquele instrumental hipnótico. Vão perguntar “é melhor do que o Howe?” e a resposta me parece muito simples: nada a ver. O estilo de um está longe do estilo do outro, mas apesar da levada final da guitarra em Starship ter sido composta por Howe, para o meu gosto prefiro a versão rascante e demolidora de Rabin.

Alguns dias não saem da nossa lembrança. O Yes Album (disco de 1971) rodando no toca discos da pracinha de Teresópolis, onde meu irmão Fernando César e nossos amigos sorvíamos os delírios da adolescência, mais esse encontro com o Yes em 1985, cara a cara, com certeza nunca mais esquecerei. A ponto de sonhar com eles hoje, sem qualquer motivo aparente. Melhor ouvir de novo.

Faz bem.                                                      

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O meu afeto não se encerra

Passei o dia resolvendo assuntos diretamente ligados a meu afeto profundo. Muito profundo, abissal. A cada lugar que fui, lembranças, muitas lembranças e um sentimento bem mais poderoso do que a saudade. É quando sentimos falta, muita falta, de pessoas e momentos que se eternizam no afeto profundo, lá embaixo, no abissal e mistérios inconsciente.

Óbvio, ninguém é igual. O ser humano é diferente até dele mesmo já que a coerência radical, prima bem próxima da teimosia, é eventualmente burra. Por isso, por essa livre e saudável ausência de isonomia afetiva, cada humano tem com o afeto uma relação distinta. Com o afeto profundo, essas diferenças se abrem como grandes abismos e muita gente sente dificuldade de lidar com ausências.

Pessoas que acham que o choro é fraqueza, que o lamento é covardia dispensável, que o “estado blues” que nos acomete tem que ser massacrado, assassinado, deletado, arquivado, atirado no lixo, em nome de uma suposta superioridade existencial. Dizem que os ocidentais, em especial os pequeno-burgueses (também chamados de “coxinhas”), preferem ignorar o afeto profundo e substituir, por exemplo, pela trilogia cerveja-futebol-churrasco. É mais fácil? Não. Essa trilogia é como um cheque pré-datado, daqueles que batem na conta lá na frente, com juros e correção.

O meu dia foi especial porque mergulhei até o afeto profundo. Nó na garganta quando o cheiro do mar misturado ao de óleo combustível dos navios de guerra me bateu na alma. Foi bom. Foi bom homenagear quem eu queria que fosse homenageado, através de lembranças, poemas, vento do litoral, o azul profundo do céu de outono.


O meu afeto não se encerra. Prefere transmutar como as auroras boreais. Nunca as mesmas. Sempre as mesmas. Assim é. Assim será. Sempre.

sábado, 23 de maio de 2015

André Midani, um predestinado que mantém um pacto com o sucesso

                                                                                 

                                 
                                                                                                               



                                                                                                          
                                    André Midani conta que esse filme, de 1944,
                                    literalmente mudou a sua vida 
Estou lendo a autobiografia de André Midani, chamada “Do Vinil ao Download”. Tento ler devagar para curtir cada linha, mas o texto é tão bom (praticamente linguagem falada, que gosto muito), tão curioso, as histórias são tão impressionantes, que em duas noites já passei da metade.

Uma história muito rica, que começa em Damasco, Síria, em 1932, atravessa a II Guerra Mundial, um milhão de outras situações, atravessa o Atlântico, chega ao Brasil e ...bom, quando terminar a leitura farei uma resenha detalhada.
Homem de excelente caráter, André Midani é um dos maiores executivos do mercado fonográfico mundial. Tive o privilégio de conhece-lo lá por 1980, quando estava fazendo uma matéria sobre as estrelas do mercado. André tinha deixado a presidência da gravadora Polygram (hoje Universal Music) para assumir a presidência da Warner no Brasil.

Ele assumiu a Warner com 3% do mercado brasileiro. Após contratar artistas como Elis Regina, Tom Jobim, Gilberto Gil, Belchior, Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Ney Matogrosso, Marina Lima, Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil), Pepeu Gomes, A Cor do Som, Banda Black Rio e As Frenéticas, entre outros, viu sua participação de mercado subir para 14%.

Na década de 1980, Midani resolveu apostar no rock brasileiro, contratando artistas como Titãs, Ultraje a Rigor, Ira!, Inocentes, Kid Abelha, Camisa de Vênus, Lulu Santos entre outros. Em 1983, levou a Warner também para a Argentina, e, em 1984, para o México. Em 1990, foi transferido para Nova York, onde assumiu o cargo de presidente da Warner para toda a América Latina.

Ao longo de minha vida profissional sou extremamente grato a algumas pessoas que me mostraram caminhos, apontaram rumos, trilhas, alternativas. No jornalismo musical e no rádio, destaco amigos como Roberto Menescal, Carlos Celles (in memoriam) Marcos Kilzer, Jorge Davidson, Miguel Aranega que me deram (e dão) muita força. E, é claro, entre eles está André Midani.

No tempo da Rádio Fluminense FM, quando a dirigi entre março de 1982 e abril de 1985 e depois em 1989 e 1990, ia de 15 em 15 dias dar um giro nas gravadoras para conversar com esses meus amigos. André Midani foi um deles. 

Perguntava muito pela rádio, pelos artistas, opinião dos colegas de lá, dos ouvintes. Até hoje, Midani é um GPS, ligado dia e noite e tem um faro impressionante para o sucesso. Impressionante! Ele gostava de ouvir, ouvir muito. Eventualmente anotava o que mais chamava atenção num bloco com uma elegante caneta tinteiro.

Lembro que quando a rádio tinha acabado de entrar no ar e tocava cópias de fitinhas K7 de bandas nacionais novas, o produtor Ricardo Silveira (homônimo do musico) apareceu lá. Ele era produtor da Warner e, em nome do André Midani, tinha ido lá pegar fitinhas K7 para fazer um disco. Entregamos e as fitinhas, sem qualquer “maquiagem”, viraram o disco Rock Voador, parceria da rádio com o Circo Voador. Os artistas: Celso Blues Boy, Kid Abelha, Sangue da Cidade, Maurício Mello e Companha Mágica, Papel de Mil e Malu Vianna.

Enfim, enquanto leio André Midani na primeira pessoa penso que sua vida daria não só um outro livro (pessoas contando suas histórias) como um excelente filme. André Midani é raro, muito raro.

Aqui, uma breve sinopse do livro segundo a editora Nova Fronteira:

Testemunha ocular do Dia D, desertor da Guerra na Argélia, confeiteiro em Paris, executivo da Odeon, Phonogram e WEA, pioneiro na iniciativa de análises qualitativas de mercado, negociador da libertação do publicitário Washington Olivetto.

A autobiografia de André Midani é mais do que um depoimento de quem desde a década de 50 observa sob um ângulo privilegiado os bastidores do mercado musical brasileiro.


Além de viver alguns dos grandes momentos da história, Midani participou ativamente do nascimento da bossa nova, da tropicália e do rock nacional, dos grandes festivais de música e das jogadas de marketing das gravadoras para projetar seus ídolos.



















sexta-feira, 22 de maio de 2015

“Eu apenas canto”

1966, confusão sem toque de recolher. 1966, 11 anos de idade, uniforme, pasta, lápis, caneta, livros. 1966, ônibus, bombas, rock and roll, algazarra, caderneta, 10 em português, 3 em matemática. 1966, The Troggs, a banda, a minha banda, do além mar, Londres, Inglaterra, queria conhecer um dia. 1966, meu primo Cornélio tocando The Troggs, Aero Willys, ideias, sonhos, repressão, cuidados, pipa no alto, balão, brigas, lutas, amor, beijo na boca. 1966, 11 anos, o primeiro gozo, a primeira vertigem, a primeira pedra no mamilo esquerdo. 1966, The Troggs no pequeno toca-discos, amigos, bola, jogo de taco, garotas, meninas, beijos relapsos, dança torta, pernas trocando. 1966, amigos, cuba livre, cachaça, campari, coma alcoólica, mães no hospital, esporro, lágrimas, alta de manhã, escola, castigo, pedradas, vidraças rachadas, polícia nas ruas. 1966, meu irmão César, amigos Márcio, Renatinho, os Vergara, Raulzinho, Ronaldo, Beto, a casa da Rose no centro da cidade, o sexo só oferecido aos mais velhos. 1966, nós? Virgens, ávidos, curiosos, temerosos, roqueiros, tentando sem conseguir a alienação do The Troggs que mandava “I Just Sing” quando as coisas apertavam. Compromissos, provas, férias ameaçadas, rock and roll, a primeira banda, festinhas, quermesses, garotas, garotas, garotas, frustração a meia noite e meia, hora limite, “I Just Sing” no quarto...não havia “I Just Sing”, lágrimas, choro contido no travesseiro. Perguntas, muitas, voos espaciais, drogas entre amigos mais velhos, LSD, mescalina, maconha, bolinha, éter, a primeira morte, o primeiro corpo, o primeiro enterro, o primeiro amigo afogado no mar, doidão. Nada de “I Just Sing”, mas viva “I Just Sing”! Sempre, The Troggs.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Quando você diz que conhece alguém torna-se seu fiador moral

Texto restaurado e remixado

O cara é invejoso, rancoroso, provinciano, arrivista e, dizem todas as línguas, as más inclusive, é um caloteiro, desses que não pagam a ninguém na maior cara de pau. Aí chega alguém e pergunta se você conhece o tal meliante. Você já o viu e até conversou com ele algumas vezes, mas por força de expressão acaba dizendo que “conheço sim”. Ferrou! Sem querer, virou avalista de um canalha. Melhor seria dizer, apenas, que “conheço de vista”, mas os hábitos da fala as vezes nos metem em roubada.

Por uma questão cultural dizemos que “conheço” a quem vimos algumas vezes. Pior: em muitos casos estabelecemos relações pessoais e profissionais com pessoas que não conhecemos sem tomar o cuidado de pedir referências a terceiros. Os ingleses tem esse hábito. Só fazem negócios ou se relacionam com pessoas quando três, quatro ou cinco amigos de confiança confirmam que a tal pessoa é do bem, honesta e tudo mais.

Por exemplo: não conheço nenhum Babalu, apesar de um colega, que encontrei no catamarã, ter insistido em me mandar um “abraço do Babalu”. Sabe aquele sono eventual que bate depois do almoço, você entra num catamarã social vazio e fica ao sabor da brisa? Foi o que planejei naquela tarde.

Corta! Encontrei o conhecido na chamada “fila do gado”, aquela que o povão forma para entrar na embarcação e posso afirmar do fundo do coração: o cara é chato pra cacete. Mas, fazer o que? Ele se aproximou, colou em mim e sentou a meu lado.

E tome a falar do tal Babalu que, segundo ele, é meu amigo de infância. Mentira porque passei minha infância (três a nove anos) em Angra dos Reis, não havia nenhum Babalu e, de lá, todos os meus amigos se espalharam pelo mundo.
Mas eu não estava a fim de discutir, apesar de ser rigoroso com esse papo de “fulano é seu amigo”. Não é assim.  Muitas vezes já me perguntaram “você conhece Fulano?”, e respondi, com elegância, “não, conheço só de vista”. Como disse lá em cima, dizer que conhecemos alguém nos transforma em fiadores existenciais do “conhecido”.

Não é o caso do sujeito que encontrei no catamarã que, de fato, sei quem é, mas saber quem é e conhecer são situações completamente diferentes. E quando o barco atracou no Rio, confesso que me deixei levar pela multidão e, propositalmente, me perdi do conhecido que me congestionou com uma overdose de palavras e frases soltas. Não agüentei ouvir tanta inutilidade pública e estava vendo a hora que ia pegar no sono no meio do monólogo dele.

Fui a uma reunião e, na saída, em frente ao Museu de Belas Artes, na Rio Branco, encontrei um leitor. Ele estava acompanhado da mulher, me apresentou e tal. Achei engraçado porque não o conheço e nem ele a mim, apesar de minhas crônicas e contos, eventualmente, abrirem o buraco da fechadura. O leitor estava satisfeito, cheio de “Fulaninha, esse aqui é o Luiz Antonio...” e a esposa, também constrangida, disse “muito prazer” e tudo ia muito bem até ele me perguntar para onde eu ia. Temendo que ele fosse para Niterói, sapequei um “vou até o Rio Comprido resolver uns assuntos”, quando ele rebateu “pois nós estamos indo para o Leme”.


Encerrado o encontro, quando inclusive me chamou de “amigão”, fui embora pensando. Pensando nessa profissão maluca que fabrica conhecidos pelo mundo e até amigos próximos sem que saibamos o que está acontecendo. Esquisito pra caramba.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sob o manto azul marinho de uma noite translúcida

Como sempre faço, olhei para o céu hoje à noite, antes de entrar no carro. Senti uma emoção diferente com as luzes. Luzes das estrelas, dos aviões, das torres de comunicação, luzes da vida.

Antes de vir para casa fui até a beira de uma praia que era deserta até ontem, anos 1970. Parei o carro, saí e fiquei olhando para o céu. Ignorei a prudência coletiva que recomenda cuidado; entrar e sair rápido do carro porque a cidade está entregue aos bandidos.

Olhando o céu avistei um satélite artificial cumprindo a sua missão, em órbita constante singrando a Via Láctea. A emoção me tomou de novo, reforçada pelo ruído suave das ondas pequenas e distantes, desabando na areia.
O céu...claro!, estamos em maio, e foi em maio, em pleno outono, que com cinco anos de idade fui levado por meu pai para a praia da vila onde vivi a minha infância. Todas as pessoas com binóculos, lunetas e até um telescópio diziam estar avistando o Sputnik 4, satélite artificial russo.

Eu não entendi. Não entendi porque o Sputnik que vi nas fotos da revista O Cruzeiro não tinha nada a ver com aquele minúsculo ponto luminoso, menor do que todas as estrelas, do que todos os coleirinhos que cantavam no alto dos ingazeiros e que cortava rápido, bem rápido, o nosso céu. O Sputnik das fotos não era um ponto, mas uma esfera. Eu vi.

Meu pai explicou. Falou da distância, da luz do sol incidindo na esfera, falou do céu, das estrelas, falou de novo dos satélites artificiais, do seu brilho fixo, oposto ao cintilar eterno das estrelas. Falou, falou, falou e recitou um poema. 

Estávamos ele eu e meu irmão, quase a beira mar naquela noite translúcida. 

Meu pai recitou Olavo Bilac:

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Não entendi nada sobre a incidência da luz, o tamanho do Sputnik, gravidade, força. Mas ali, naquela noite de 15 de maio de 1960, meu pai me ensinou a ouvir estrelas.

E eu nunca mais esqueci.



segunda-feira, 18 de maio de 2015

                                                                                 
                                                                                     
Amigo, recebi o seu e-mail. Sei que a mensagem atravessou um deserto, algumas metrópoles e o oceano Atlântico em questão de segundos. Como você bem escreveu, “chegaria da mesma forma se eu a tivesse colocado numa garrafa e atirado ao mar que cerca essa ilha de angústia transformada em alívio nos últimos dias, quando fui apresentado, pessoalmente, a Fé”.

Ando cada vez mais cauteloso com esTa Coluna, cujo volume de acessos tem crescido assustadoramente (obrigado, leitores!), já beira os 200 mil, desde que entrou no ar.  Aliás, muito entre nós meu caro amigo, sua mensagem é impublicável porque, penso, a maioria não iria entender. Entender a Fé? O momento em que a Fé entra em nossa vida, nosso corpo, nosso hálito? Como explicar? Como entender essa sublime abstração?

É como pretender explicar pela lógica o poder da música? Que sentimento nos faz ficar zonzos quando ouço Claire de Lune de Claude Debussy, de preferência com Nelson Freire ao piano, ou “Hawkmoon 269” com o U2, “Gallows Pole” com o Led Zeppelin, tudo do Who, tudo de Caetano, Milton, dessa bela morena chamada Céu, enfim, não dá para explicar e nem entender o que essas músicas fazem com a gente.

A Fé é assim. A diferença é que ela surge no horizonte quando estamos passando por algum sufoco. A minha Fé em Deus aconteceu numa noite de tempestade, raios para todos os lados, lá em 1974, ou 1975, ou 1977. Eu estava dirigindo uma Brasília na estrada e, de repente, sem mais nem menos, um Opala que vinha na pista contrária perdeu a direção e, sei lá porque, como, de que jeito, capotou e passou por cima de meu carro. Por cima, sem tocar! Parei, socorri o sujeito (que estava bêbado) e depois, bem depois, tremi. Tremi de ansiedade. Tremi de emoção. Eu tinha acabado de ser apresentado a Fé.

A Fé é etérea e justa. Justa como as coisas honestas que fazemos todos os dias, ajudando pessoas, projetos para pessoas, escrevendo para pessoas porque a vida só faz sentido se nos dedicarmos as pessoas. As coisas? As coisas vem e vão, mas também são consequências das pessoas.

Lendo sua mensagem, meu caro amigo, quase não o reconheço. Quando deixou o Brasil, naquele 2006 sob forte calor, você comentava com a sua companheira que estava saindo do caos para encontrar o cosmos. Não quis polemizar, não quis te contestar, mas essa frase é a primeira no cardápio dos iludidos. Ainda assim, te mandei um e-mail dizendo que li (acho que na obra de Carl Gustav Jung) que a ansiedade antecipatória deturpa as coisas. Ouso ir mais longe: você deformou as coisas, a ponto de tratar países como felicidade pré-paga e, não sei bem por que, não queria ouvir nada e nem ninguém que desmentisse essa sua verdade absoluta. E por causa disso, quase brigamos.

Aí aconteceu aquilo tudo, você acabou perseguido e preso, perdemos o contato. Minha amiga diplomata te ajudou, sua mulher te ajudou, até seu companheiro de cela te ajudou. Ainda assim, já solto, já com um subemprego na Holanda, você insistia na trilha da análise, das convicções cerebrais que nos diferem dos macacos. Stanley Kubrick insinuou em “2001, uma Odisséia no Espaço” que a alienação dos macacos atirou a espécie na felicidade, contrastando com HAL, o computador mau caráter.

Admito que estou falando demais, provavelmente escrevendo besteiras, tudo para te dizer (e a sua mulher) que estou feliz pra caramba por você ter encontrado a Fé. Que bom! Que bom! Para mim, a Fé é como uma daquelas ondas gigantes de 25 metros, que são quase comuns na “minha” Maverick, “minha” Califórnia, que quando descemos 70% estão nas mãos de Deus, 20% com o acaso, 5% com a sorte e somente os outros 5% com o nosso talento.
Deixe fluir, deixe rolar. Não sou teólogo, mas sei que a Fé chega até nós assim mesmo. Você quase morreu, foi salvo sabe-se lá como (li que o incêndio em seu prédio foi de grandes proporções) e hoje está inteiro.

Obrigado pela mensagem, obrigado pelas ótimas notícias e viva a nossa Fé.













sábado, 16 de maio de 2015

B.B. King – o homem que conheci era um autêntico bluesman




    O discípulo Eric Clapton conduz o rei

    Jimi Hendrix, discípulo
    Jeff Beck, discípulo
    Jimmy Page, discípulo
Participei de três entrevistas coletivas de B.B. King no Brasil, duas no Rio e uma em São Paulo. Um homem raro porque conseguia conciliar a humildade dos campos de algodão com a sua inquestionável realeza musical.

Longe de fazer o gênero “velhinho gente boa, pacato cidadão”, B.B. King nunca levou desaforo para casa. Nem nos tempos dos campos de algodão em Itta Bena, Mississippi, onde nasceu em 16 de setembro de 1925.

Batizado como Riley Ben King, aos 9 anos vivia sozinho e plantava para sobreviver. Perguntei duas, cinco, oito vezes ao longo das entrevistas se ele tinha sofrido maus tratos. Ele jamais respondeu, desviando a conversa.

Contou que jamais esqueceu de uma cena, barra pesada, quando uma roda de dezenas de membros da execrável Ku Klux Klan, que agia livremente até os anos 1960, enforcou um negro. O corpo pendurado, balançando, a euforia dos homens de branco encapuzados, são cenas que B.B. King jamais conseguiu apagar da memória. Ele disse que “naquele momento eu decidi lutar contra aquela monstruosidade, só que à minha maneira”. Em vez de fuzil, faca, B.B. King empunhou guitarras. E venceu! Alguém duvida?

Guitarras que ele, autodidata, tocou à sua maneira, solos curtos, sincopados, como rajadas ríspidas, seguras, amplificadores levemente saturados, uma invenção sua. Ele me disse “um jeito de tocar que tenta exprimir a maior quantidade possível de sentimentos”.

Sentir e tocar. Tocar e sentir. B.B. King teve com a música uma relação que durou toda uma vida e, de fato, nos momentos de solidão aguda (não foram poucos) ele ligava sua Lucille (várias guitarras batizadas com esse nome) e ficava “tirando o que ela tinha a me dizer...e ela sempre tinha muita sabedoria para me passar”, disse o mestre com um leve sorriso.

Bom lembrar que Lucille foi uma mulher que provocou uma briga entre dois homens num lugar onde B.B. King tocou. No verão de 1949, a lenda do Blues, B.B. King, tocou em um salão de dança em Twist, Arkansas. Para aquecer o ambiente, um barril quase cheio de querosene foi aceso, um procedimento bastante comum naquela época.

Durante a performance, dois homens começaram a brigar, esbarrando no barril e espalhando combustível em chamas pelo recinto. Quase todo mundo, inclusive King, correu para fora do lugar. Do lado de fora, King percebeu que tinha esquecido sua guitarra e voltou para o edifício em chamas para recuperar sua amada Gibson 335 de 30 dólares.

Dois homens morreram no incêndio e, no dia seguinte, King descobriu que eles estavam brigando por uma mulher chamada Lucille. King subsequentemente deu esse nome à sua primeira guitarra, assim como a toda guitarra que teve desde então, como um lembrete de nunca mais fazer algo tão estúpido quanto entrar em um prédio em chamas ou brigar por uma mulher.

Numa dessas entrevistas, um colega perguntou sobre a morte. Ele ficou calado, pensou, esboçou um leve sorriso e, jocosamente, disse que não conhecia o assunto e muito menos sabia se iria para o céu ou para o inferno.

Cumprimentou-nos e foi para o palco, seu habitat natural.