segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Adiei o lançamento de meu novo livro

Semanas atrás escrevi aqui que estava finalizando a seleção de contos, crônicas e espasmos que vão formar um novo livro. Muito texto, muita lambança, muitos vacilos e, por que não, alguns momentos bem interessantes. Li (ou quase li) mais de dois mil e fui cortando, cortando, até chegar em 80.

Ótimo. Encaminhei o material para São Paulo onde nesta segunda-feira, vulgarmente conhecida como hoje, iriam começar a trabalhar no projeto gráfico. Eu quero uma coisa meio pós-punk, meio  Staatliches-Bauhaus , meio Claudio Valério Teixeira, meio Luiz Carlos Lacerda (o Bigode), meio Glauber Rocha, meio Luiz Carlos Maciel, meio Tarsila do Amaral, meio Oscar Niemeyer, meio Burle Marx, meio Carlos Zéfiro, meio Di Cavalcanti, meio Pete Townshend, meio Egberto Gismonti, meio Almir Satter, meio Ramones, meio The Clash, meio Gestalt, meio Anais Nin, meio Henry Miller, meio Blur, meio Radiohead…

Bom, os caras disseram que entenderam o que eu quero e ainda me falaram “como você diz aí no Rio, vai ficar do cacete”. Caminhando pelas ruas do Centro fui pego pelo calor de 31 graus em plena cloaca do inverno. Foi aí que desisti de lançar meu novo livro este ano porque, decididamente, não quero mais submeter meus amigos, convidados, parentes, colegas e a mim mesmo ao inclemente calor tropical que devasta amores, humores e quase literatos. Isso já aconteceu outras vezes e não vou repitir a festa da garoupa suada.

Por causa do calor, o personagem Meursault do clássico do existencialismo “O Estrangeiro”, de Albert Camus, matou um árabe a facadas. Pois também por causa do calor, parei o meio livro, cujo lançamento fica adiado para o início do outono do ano que em. Até lá reunirei mais material e jogarei no moedor de carne da seleção.

Liguei para São Paulo e falei com o pessoal do projeto gráfico e, na boa, senti um certo alívio também por parte deles. Mas garantem que até o verão terão chegado a uma conclusão sobre o sarapatel de porco que sugeri ali no parágrafo dois.

É isso aí.



domingo, 30 de agosto de 2015

A Kombi branca, meus discos, meus livros, meus amigos

Na tarde deste sábado decidi arrumar meus CDs. Tinha superado o trauma (conto a seguir) e apesar de cansado e preguiçoso, resolvi por a mão na massa. No computador programei dois discos do Blur e dois concertos do Radiohead, bandas que adoro e comecei a arrumar os discos em ordem alfabética. Desisti. Banzo. Bateu banzo e uma lembrança.

Gozado, mas ninguém sabe dessa história. Nem meus familiares. Anos atrás mudei de endereço e contratei o frete de uma picape Kombi branca. Foi numa manhã de sábado. O dono, super gente boa, estava subindo na vida. Quando o conheci era flanelinha, passou a manobrista, comprou metade da Kombi de um primo, depois a Kombi inteira e fazia frete do bom, seguro e barato.

Não sou muito apegado as coisas, por isso toda a minha casa coube num pequeno caminhão baú enquanto que as coisas mais íntimas como discos, livros, botas e capacetes de motocicleta, mais pratos, talheres, etc foram na Kombi branca.

Fui para o novo endereço, o caminhão chegou, os caras descarregaram tudo rapidamente, mas a Kombi branca...o celular tocou, ligação a cobrar, era o dono da Kombi de um orelhão em prantos balbuciando que havia parado num sinal (semáforo) perto do antigo endereço e encostaram um revolver na cabeça dele. Teve que descer para não morrer, caminhar sem olhar para trás.

Levaram a Kombi com tudo dentro. A letra de “Casa no Campo” de Zé Rodrix me veio a cabeça...”Onde eu possa plantar meus amigos/meus discos e livros e nada mais”. Felizmente, meus amigos não estavam naquela Kombi. Seria insuportável perder o que tenho de valor maior.

Senti uma espécie de tonteira, uma vertigem estranha a ponto da diarista que trabalhava em minha casa perguntar se eu estava bem. Disse que não, depois disse que sim, voltei a dizer que não. Eu comemorava o fato do dono da Kombi não ter morrido mas pensava nos meus discos e livros.

CDs, mais de mil (dois mil?) e os livros...não dá para contar. Tudo de Machado, tudo de Rubem Fonseca, tudo de Paul Auster, tudo de….cacete. Mas o dono da Kombi tinha sobrevivido e eu não tinha o direito de ficar lamuriando.

Fui a delegacia com ele. A pé. No caminho encontrei um amigo de adolescência que era rábula. Contei por alto o que tinha acontecido e mesmo de calção e sandálias havaianas (era sábado) se ofereceu para ir a delegacia como nosso advogado. Topei. Francamente mal sabia o que estava dizendo.

Ele pediu para pararmos num bar para nos instruir. Tomou uma dose de jurubeba. Eu seria apenas testemunha e a vítima, única e exclusivamente o dono da Kombi porque segundo o rábula "a verdade é o caminho mais curto”. Ficou combinado assim. Se bem que a vítima realmente tinha sido o cara da Kombi que sentiu o frio do cano da arma, eu era um coadjuvante que “apenas” tinha perdido parte da história pessoal.

Na delegacia pegaram o depoimento dele. Nome, endereço, placa da Kombi, cor, ano, modelo, o que tinha havido, ele falou que transportava minhas coisas, o policial perguntou o que, eu disse livros, discos, capacetes e botas de motocicleta, cabides, pratos, facas e o policial digitou num computador com monitor de fósforo verde o Boletim de Ocorrência.

O dono da Kombi chorava copiosamente e aquilo me comoveu. Eu e o rábula falávamos “calma, podia ter sido pior”, mas não adiantava. Lágrimas, lágrimas, lágrimas. Em mim um nó na garganta por ele e por tudo o que havia perdido, praticamente todos os discos de rock dos anos 60, 70, 80 e 90, mais tudo de Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Beto Guedes... “Só isso”.

O dono da Kombi assinou como vítima, eu como primeira testemunha e o rábula como segunda testemunha. Saímos e meu amigo rábula me abraçou comentando “cacete, que coisa...seus discos é?”. Eu disse “pois é, o importante é que não morreu ninguém” e fui embora. O dono da Kombi jurava que iria me pagar, apesar de eu tentar explicar que o que levaram não era mensurável. Ele não entendia o mensurável e muito menos o que era rábula. Paguei a quantia acertada (afinal, bem ou mal, o frete aconteceu) e fui para a minha nova casa.

Na semana seguinte, no trabalho, o celular tocou e era o cara da Kombi eufórico. A picape foi encontrada num matagal junto a rodovia Niterói-Manilha. Quando comecei a querer ensaiar uma comemoração ele explicou que “só levaram a carga...”. menos mal. Menos mal? Menos mal. Menos mal? Menos mal. Menos mal?

Hoje mantenho alguns CDs, 10% do que tinha e livros, 5%. As músicas estão no computador, formato MP3 e acho que se continuar resgatando daqui a três anos vou conseguir atingir a meta de 80% do material roubado. Livros? Jamais chegarei perto do que tinha em três estantes.

Quis o destino que eu desapegasse. Desapeguei. Felizmente, quatro preciosos amigos que não vejo há tempos me ligaram na tarde deste sábado. Que bom! Dá para viver sem discos, sem livros, sem cabides, mas sem amigos? Não tenho ideia de como deve ser.





sábado, 29 de agosto de 2015

A angustiante velocidade do tempo

Texto restaurado e reeditado
Não sei se o tempo é a maior angústia do ser humano, ou está entre as principais, mas fato é que, ultimamente, muita gente tem falado da velocidade dos calendários e relógios, o que me faz lembrar de uma frase do amigo Alvaro Acioli: “agora, enquanto ainda”. Ou seja, faça enquanto há tempo.
Lógico que o tempo também me angustia. Lembro que tempos atrás tive um dia duro de trabalho. Muito duro. Achei que o tempo tinha voado bem mais rápido do que no dia anterior, quando o trabalho foi mais light. Será que a distração proporcionada pelo trabalho aumenta a nossa percepção de velocidade do tempo? Sei lá. Um alto executivo de uma montadora de automóveis nos Estados Unidos, em sua autobiografia, escreveu que “agora, aposentado, sinto vontade de atirar o relógio pela janela na ilusão de que fazendo isso estarei parando o tempo”.
Nós aceleramos a percepção de velocidade do tempo? Nós temos esse poder? Quando um supermercado coloca ovos de Páscoa (que é em abril) na vitrine, praticamente na primeira semana de março, está acelerando a percepção de velocidade do tempo de muita gente? Não sei. Na verdade, muita gente passou pela vida pensando nisso e, no final da história, a vida acabou passando por cima de todo mundo que caiu nesta cilada de transformar o tempo em passatempo.
Para mim, Caetano Veloso é o maior poeta brasileiro. Lendo sua coluna aos domingos, percebo que ele anda super angustiado com o tempo. Volta e meia diz coisas do tipo “antes de ficar velho, eu ia mais a Bahia”. Caetano fez e faz muita gente pensar com a letra da canção “Oração ao Tempo”, de 1979:
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo


Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo


Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo


Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo


Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo


De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo


O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo


E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo


Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo


Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo









sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Water of Love, um devaneio direstraitsano pelas veias de São Paulo

(Texto de 2013) O som do Dire Straits em alto volume, num dia totalmente beat na cidade de São Paulo. Os sons, aromas, suores, o tapa de São Paulo, o beijo de São Paulo a bordo de um texto livre, quase caótico e com pretensões líricas.
Mont Serrat, ilha-berçário de "Water of Love", regida por George Martin.
Virou cinzas com o rugir dos furacões. Ficaram muitos pergaminhos dos anos 1980, escritos pelo Police, Dire Straits e até The Clash.
Ouço "Water of Love" sem parar, tarando. Pena, não existe o verbo tarar.
Eu taro
Tu taras
Ela tara
Desço os Jardins, São Paulo capital, domingo de sol. Crianças, bola de futebol, "Water of Love" numa loja de discos.
Ibirapuera, parque popular, pipa no alto, tiro a camisa, cheiro de churrasco. Chafarizes despejam "Water of Love" para o alto. Vejo rostos. Na pipa.
Mulheres, mulheres, mulheres. Flutuam. Lúdicas, crianças olhando, bocas arreganhadas.
Chamam pipa de papagaio e meu suor de suor. Frustro, mas canto o refrão "yes, I need a little water of love".
Subo a rua Augusta a três quilômetros por hora.
Itaim Bibi escrito no trolley bus, que se arrasta ao som do rádio. Ouço "Water of Love", camisa encharcada, carrapicho nas botas.
São Paulo, meu repouso. São Paulo, meu sossego. Hélices não param de bater. A máquina de sucos, helicópteros que toureiam antenas parabólicas.
Um Boeing passa rasante. Arrasta meus sonhos para o Rio de Janeiro. Sonhos dos anos 80 que vivi intensamente.
Sonhos dos anos 70 que senti como agradável tormento.
Mas estou de caso cheio. Saco cheio. Saco cheio. Beija minha boca, São Paulo. Ouça meus gritos, São Paulo. Não desabe sobre mim, São Paulo. Me deixe desabar em você, São Paulo.
Hoje eu não quero só sonhar.
Quero me perder nesta canção, "Water of Love".
Como Caetano se perdeu em "Terra", na vertigem do cinema.
Posso me deixar levar por São Paulo porque hoje é domingo de sol.
O trolley bus me larga num lugar que nunca vi.
Urbano relativo, algo entre Filadélfia, Arembepe e Camaçari.
Arempebe hippie, de Zé Celso, Mautner, Glauber, Gil e Caetano está num banco de praça.
Bancos de praça, bancos de memória.
Quem não lembra dos bancos da Urca seduzida há milênios pelo Pão de Açúcar?
O banco da praça me conta que o bom de partir é o desejo de voltar.
Arnaldo Dias Baptista, Rita Lee, Titãs, Ricardo Giesta, Antonio Quintella.
"Water of Love" e seu poder de mixar o tempo.
Nunca mais haverá anos 60 porque jamais ousaremos tanto, de novo. Não há nada de novo no novo.
As vitrines da avenida estão cheias de Ferraris, Porsches e até Buicks.
Buicks como os que Nabokov usava para caçar borboletas, que viraram Lolita.
Bugattis como o de Rubens Gerchman, que explode na parede de algum lugar em Ipanema.
São Paulo seduz aos domingos. Seduz e induz a "Water of Love", a minha canção.
Canção que não fiz. Arranquei do coração de Mark Knopfler e implantei no meu.
Num inverno qualquer, anos 80, Saquarema, surfboard, pôr-do-sol laranja e azul.
Será que alguém já perambulou numa metrópole vazia ouvindo "Water of Love"?
Já. O dono da voz, Mark Knopfler, rodou pelo West Side pensando em "Water of Love" para filmar "Going Home". New York City.
Queria me perder mais. Tatuapé, Bexiga, Avenida Paulista.
Mas os táxis não deixam ninguém se perder numa grande metrópole.
Pergunto: o que é isso que escrevo?
"Um texto de outono", responde alguém lá de dentro.
"Yes, I need a little water of love."
E se ninguém entender?
Mas o outono não foi feito para se entender.
Nasceu para ser vivido, celebrado, comido.
Comido como manga-rosa, voraz e salobra como as conas.
So, I´m content.
O pen drive tocava "Water of Love" quando o atirei no mar de Margarita.
Margarita, Paralamas, saudade de Herbert Vianna quando vejo uma estrela do mar.
Herbert, Bi e Barone me arrancaram lágrimas secas num documentário de TV.
HBO, você viu? Tem tempo.
O mar de Margarita ouve "Water of Love", Dire Straits.
E eu me sinto descendo aquelas águas mornas, des-harmônicas.
Como o violão e a percussão existencial da canção que não quer calar.
"Yes, I need a little water of love."
Queria ser poeta, não consigo. Poesia é perigo.
Poesia não dá abrigo a aventureiros e indolentes.
Como eu, industrial de textos enta-latados.
Como os que Herbert e Knopfler não escrevem.
Pode vaiar, pode vaiar porque eu ligo e sofro.
Sofro como espectador da última cena de "Jules & Jim". Truffaut.
Truffaut que nada nos acordes de "Water of Love", longe da noite americana.
América Latina que seduziu Herbert e Sting, o tal do casamento secreto.
"Nada como o sol", gritou Sting em Margarita, 1986.
E o pen drive no fundo dos olhos verdes de Margarita insiste em tocar.
"Water of Love" para as sereias de Netuno, filhas de Iemanjá.
Tudo ao mesmo tempo agora, Titãs, elétrico, cáustico. Morte ao acústico!
Ouço o mar sugando os poros da areia, no gozo eterno do entardecer.
São assim os textos de outono, descalços, incoerentes, "Water of Love", livres.
Como os anjos, centenas, sentados à nossa volta, fogueira acesa, aurora boreal.
Merecemos a paz antiga e remota das auroras boreais que "Water of Love" evoca.
Evoco anjos indígenas, evoco anjos ocidentais, evoco as Três Marias e o Cruzeiro. Inevitável o banho de orvalho, olhos marejados, tudo aquilo que "Water of Love" seduz.
Ouço todos os mares, como se editados em estúdio digital.
E eles estão aqui, atraídos pelo poder intuitivo de "Water of Love".
Vejo o medo sentado, só, numa pedra distante.
Vejo o medo do medo caído na arrebentação, pedindo punição.
Vejo o medo do medo do medo...ora, "Water of Love" anistia todos os medos.
A coragem é filha do amor sublime e supremo. A coragem é filha da música.
Um satélite corta o orvalho da noite, beira-mar.
Peço que ele arraste "Water of Love" e jogue no ar para o mundo ouvir.
Oiapoque ao Chuí, via Quênia, Angra, Saquarema.
O anjo de alumínio nos diz que "Water of Love" já banha o mundo. Internet.
"Ser feliz, o melhor lugar é ser feliz", Caetano.
Caetano zeloso em espalhar "Water of Love" como água benta.
Bonfim, Senhor do Bonfim, como é bom beijar suas mãos.
Ao som de "Water of Love", a canção que reelegi como minha, anos depois.
Agora.



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O universo de Raimunda, feia de cara e feia de bunda

Isso mesmo, Raimunda feira de cara, feia de bunda, tinha um séquito de adolescentes que, sábia, muito sábia, culta e esperta manipulava eroticamente nos idos dos anos 1970. Os meninos, um bando de 28 ávidos comensais, burlavam ordem severas de pais e responsáveis para não se aproximarem de Raimunda porque, diziam, ela era terrorista. Diziam até que planejava sequestrar um avião e que tinha uma doença chamada “furor uterino”.

A meninada procurou saber o que era furor e o que era uterino, juntaram as coisas e deduziram que Raimunda era tarada. Que maravilha! Era o que bastava. Ao longo de 25 dias do mês (nos outros cinco Raimunda sumia mas emprestava sua amiga Alzirinha) os 28 comensais entravam e saiam da casa bege, fincada numa rua não muito calma de um bairro de classe média de uma cidade qualquer. Entravam, saiam, entravam, saiam. Presenteavam Raimunda com relógios falsificados, colares e pulseiras de camelô, perfumes baratos, batom, calcinhas.

Chegou o verão. O bando estava pálido, magro, arfando de cansaço. Pelo menos 12 perderam o ano no colégio, outros ficaram em recuperação e quatro foram expulsos por atentado violento ao pudor em sala de aula. Conversando sentados numa esquina chegaram a conclusão que Raimunda não dormia porque...eles praticamente viravam a noite na casa dela e, além disso, souberam enciumados, possessos, rubros de fúria, que ela estava tendo casos com guardas noturnos, operários de uma obra e até com um padre durante a madrugada e "ainda inventada que fazia reunião", comentaram indignados. Como um ser humano consegue viver sem dormir? Como um mamífero sobrevive apenas copulando, bebendo água, comendo somente amendoim, caju, salsicha?

Os 28 não confessavam, mas Raimunda os iniciara não só no sexo mas também no afeto. Negavam, rugiam, berravam, mas estavam sim apaixonados pela mais feia e gostosa mulher de suas vidas, para quem dedicavam músicas, poesias baratas e até xixi que faziam no muro em frente a casa dela, escrevendo com urina frases de amor, desejo, sofreguidão, povoadas de erros de português.

Um dia todos precisaram ir ao médico. Ardências, ardências, ardências. Diagnosticados com “doença de homem” nomearam um porta-voz para avisar a Raimunda que ela...ela...ela não estava bem. O porta-voz foi lá na casa bege, entrou, foi até a cama de Raimunda e disse que...que...que...ela não estava bem. Raimunda chorou. Muito. Pediu perdão e, delicadamente, mandou o porta-voz sair.

Diante da reação, a confraria de amantes de Raimunda decidiu fazer uma vaquinha e comprar 28 de rosas vermelhas para ela, devidamente envolvidas num buquê romântico com direito a cartão apaixonado com iniciais dos nomes. Nomearam outro pombo-correio para enviar o buquê, lindíssimo. Chico Pardo, que era albino, foi lá, entrou...não, Chico Pardo não entrou. Portão fechado. Pulou o muro. Porta fechada. Tudo fechado. Ninguém. Voltou para o bando. Onde foi parar Raimunda? O que houve?

Vários choraram e saíram caminhando pelas ruas desolados, em luto. Os 28 mataram aula, não conseguiram almoçar e se trancaram cada um em sua casa, em seu quarto pensando no amor perdido. Teria sido a ardência? Teria sido o padre? teria sido um operário, um guarda noturno?

A noite souberam pela TV que Raimunda tentara sequestrar um avião as três horas da tarde, mas não resistiu aos ferimentos durante a troca de tiros com soldados do Exército.

Amor eterno”, os 28 escreveram no muro da casa bege e...seguiram a vida, digamos assim.





quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sim, não, sim, não, sim, não, sim, não... necessária incoerência

Um dia desses me chamaram de incoerente. Ato-reflexo, pensei num poste. O poste coerente, teimoso, que quando venta tomba, ao contrário dos coqueiros que envergam, muitos roçam no chão mas a maioria, quando passa o vento, permanece de pé.
O homem só atingirá a plena maturidade quando aprender a conviver com a incoerência. Em muitas situações, incoerência é gol a favor e não contra. Cobrar coerência radical do ser humano é o mesmo que tentar convencer cobra a mugir.
Quando James Bond disse “nunca diga nunca mais” caminhava mais ou menos pela mesma picada. Todo mundo disse que jamais faria um monte de coisas que acabaram fazendo. Recentemente, percebi que sou uma das figuras mais incoerentes que conheço. E daí? Qual é o problema? Em muitas situações, incoerência talvez seja até virtude. Quem sabe? Não significa voltar atrás. Representa reavaliação, revisão, enfim, algo ligado ao prefixo re e não ré.
Na última semana do inverno do ano passado (estação que mais gosto) achei que estava assando o saco da humanidade. Andava meio tórrido, meio lancinante e áspero. Fiz vítimas preciosas e, numa segunda-feira, chuvosa e fria, comecei a trabalhar as 7 da manhã e só parei as 2 da madrugada. Dormi, acordei e fiquei na toca. Em seguida cometi outra incoerência: fui ao supermercado fazer compras. Eu que já tinha jurado que nunca mais pisaria naquela masmorra de soja, fubá e cebola, mas estava lá, carrinho na fila da caixa 5.
Apesar de tudo notamos que o povo, mesmo incoerente, cobra coerência. Exemplo: certa vez peguei um táxi, um Santana. O taxista disse, logo que entrei, que estava louco para trocar de carro, que estava achando aquele uma porcaria. Elogiei o conforto, a economia, resistência do bravo Santana. No final da corrida, o taxista não só havia desistido detonar o carro como começou a fazer declarações de amor ao Santana. E finalizou: “hoje estou de cabeça quente”. Incoerência? Sim, mas qual é o problema?
Na área afetiva as joaninhas e suas sirenes fazem ronda, marcam em cima. O que mais se ouve é “mas você não disse que o sujeito era um animal, minha filha? Como é que voltou para ele?” Não existe oceano de incoerências mais profundo do que o coração, essa coisa linda que carregamos na carcaça que é um verdadeiro porrete na face estranha e esverdeada da lógica. É o tal ditado: penso, logo pisso, ou penso. Aí alguém diz que não devemos satisfações a ninguém. Mentira. A incoerência, por mais sutil que seja, provoca um mal estar pois, queiramos ou não, vivemos numa tribo. E a tribo cobra satisfações que, mesmo inconscientemente, nos sentimos na obrigação de dar.
Alceu Valença gravou um clássico da música brasileira lá atrás, em 1977, chamado “Agalopado” onde logo na abertura escancara: “pois eu sou o porta-voz da incoerência”. Alceu é sensacional e desde que ouvi essa canção pela primeira vez achei incrível a coragem da confissão.
Será que a dinâmica existencial passa pela incoerência? Caso contrário como é ser dinâmico e coerente ao mesmo tempo? A coerência seria, em muitos casos, sinônimo de petrificação, de estagnação, de atraso de vida? Picasso era coerente? Não! Jimi Hendrix era coerente? Não! Einstein, Da Vinci, Vinicius de Moraes, Sartre, Mané Garrincha? Não! A incoerência, a incômoda e perturbadora incoerência foi a mais fiel escudeira desses gênios.
Não é pecado ir e depois dizer que vai voltar. Não é pecado voltar para quem juramos nunca mais ver pintada. Não é pecado desfazer e refazer. Não é pecado praticar, lucidamente ou não, esse bicho estranho e maravilhoso chamado incoerência. Por mais coerente que esse finado texto possa ter parecido.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

O amigo que perdeu a mulher

Um amigo desabafou com o outro pelo celular. Quase chorou. Quase, não. Chorou copiosamente. Ligou dizendo que estava sozinho sentado numa lanchonete no shopping Bay Market que fica ao lado da estação das barcas, em Niterói. O amigo estranhou porque era sábado quando a maioria das pessoas não atravessa a baía. Preocupado, pegou o carro e foi até lá bater um papo.
Nem tinha sentado quando o outro começou a falar. Uma história reta, direta, objetiva. Num dia daquela semana, decidiu ir trabalhar de catamarã, deixando o carro num estacionamento no Centro de Niterói. Na volta do Rio, por volta das sete da noite, optou por pegar um ônibus com ar condicionado. Afinal, estava vazio.
Veio sentado na penúltima fila, segundo ele, com os pensamentos flutuando naquela noite calma e quase fria de outono. Três ou quatro paradas depois, uma mulher subiu, segundo ele, linda, traços delicados, pele muito morena, mais ou menos alta. Ela sentou no banco ao lado do dele, corredor do ônibus no meio. Trocaram olhares. Duas, três, seis vezes, dezesseis vezes.
O ônibus ainda estava no Rio quando ele sorriu, ela sorriu, ele levantou e sentou ao lado dela. Nada falaram. Kamikaze, ele a beijou. Longamente. Ela correspondeu. Ato reflexo, ele a pegou pela mão e a conduziu para o último banco. Beijos, beijos, beijos, uma quase mão no seio direito interrompida por ela, mais beijos, muitos.
Trânsito lento, devagar. Para felicidade dos dois. Só no final da ponte Rio-Niterói ele balbuciou alguma coisa do tipo “você mora onde?” e ela sussurrou “São Gonçalo”. Mais beijos e carícias. O ônibus parou em frente ao shopping Bay Market e ela disse que ia descer. Ele também. Lógico. Sorrindo, ofereceu uma carona. Ela aceitou. De mãos dadas caminharam até o estacionamento, entraram no carro dele, mais beijos. Saíram.
Ele não ia a São Gonçalo – cidade vizinha de Niterói - há pelo menos uns 15 anos, mas não teve a menor dificuldade de chegar lá. Também sorrindo, ela dizia “entre ali, depois daquele orelhão, agora lá, na rua daquele muro de tijolos. Suba aquela ladeirinha, entre ali, lá, na outra rua você dobra, vai. Pode parar na esquina”, pediu. Marcaram um jantar para o dia seguinte. Mais um beijo, ela disse o nome, ele também. Ela desceu do carro e seguiu andando lentamente, até desaparecer numa esquina.
Completamente apaixonado, ele ligou o som do carro e ouviu suas músicas preferidas quando retornava para Niterói. Seu coração estava congelado há alguns anos. Vamos batizá-la de Paula já que, é lógico, não publicarei seu verdadeiro nome. Paula degelou aquele coração.
Voltando para casa, o amigo comemorava sozinho aquele golpe do destino. Destino que o fez atravessar a baía de catamarã na ida para o Rio e ter entrado naquele ônibus vazio na volta. Feliz, chegou em casa, tomou um banho, comeu alguma coisa, falou com as duas irmãs que notaram a sua euforia, desatento meio que assistiu a um filme na TV por assinatura e foi dormir por volta da meia noite.
No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, parou num posto e deu uma ducha no carro. Aproveitou para encher o tanque. No trabalho todos notaram a sua animação e até piadinhas ouviu com bom humor. Bom humor que não perdeu nem quando enfrentou o rotineiro para e anda do trânsito na ponte a caminho do trabalho na avenida Beira Mar, Centro do Rio.
Passou o dia olhando o relógio que só usava em ocasiões muito especiais, um elegante Casio EMA-100D-1A2V que havia comprado em sua última ida a Miami a negócios. Trabalhou muito, mas não parava de distribuir sorrisos até a hora que achou que já poderia sair. Afinal, tinha marcado com Paula as nove da noite. As seis e meia já estava dirigindo rumo a ponte. Para e anda, para e anda. Sem problemas. Nada seria problema naquela noite especial.
Atravessou a ponte entrou na avenida do Contorno por volta das oito e quinze, feliz, levemente ansioso, música aos berros. Passou em frente a quadra da Escola de Samba Viradouro e chegou ao Barreto, seguindo por uma avenida...que ele não reconhecia. Não reconhecia. Esfregou os olhos com as mãos, diminuiu a velocidade na altura de Neves, um bairro que ele achava que ficava bem mais à frente.
Parou o carro.
- Amigo, que bairro é esse?
- Vila Lage.
Não fez diferença. Percebeu naquele momento, as oito e vinte e sete que havia poucas placas indicativas em São Gonçalo. Um leve desespero parecia ter entrado pelo parabrisas. Acelerou e sentiu o baque da suspensão do carro que subia em trilhos de trem. Ele tinha certeza que o trilho de trem ficava à direita e que não atravessava a via principal. Mas atravessou. Não, não quis perguntar o nome daquela avenida porque não faria nenhuma diferença. Tentou lembrar o tempo da viagem que fizera com Paula na noite anterior. Não mediu. Estavam aos beijos a 40 quilômetros por hora, muitos ônibus e caminhões em volta. O leve desespero se transformara em pânico quando chegou a um bairro ironicamente chamado Paraiso e praticamente jogou o carro num posto de gasolina, perto da Uerj.
- Amigo, isso aqui vai dar onde?
- Depende.
- Depende de que?
- Ora, se seguir em frente direto vai parar em Alcântara, Jardim Catarina...O senhor quer ir para onde?
- Não sei...não sei...ela não disse.
- ?
- Eu não perguntei...
- O senhor está passando bem?
- Não...
Saiu do posto e quase foi atingido por uma van que vinha em alta velocidade. Tinha que admitir: estava perdido. Pior: tinha perdido a provável mulher de sua vida. Envolto na paixão que nascia, no aroma do perfume de Paula, nos prováveis mamilos graúdos, na boca morna, esqueceu do básico: telefone, endereço, bairro.
Ela deve estar achando que furei, que dei um perdido...Ela deve estar pensando que sou um moleque, que só quis me dar bem, dar uns amassos e cair fora...Ela deve estar sentindo...gritou, urrou, sovou o volante e parou de novo. Quase nove e meia e um gari que perambulava por ali disse que aquele lugar se chamava Parada 40.
Esgotado, achou que ia chorar. Nó na garganta, boca seca, respiração ofegante, palpitação. Ninguém podia ajuda-lo a chegar num lugar que ele não sabia onde ficava. Ele literalmente perdeu a mulher de sua vida. A suspeita se tornara realidade, naquele oceano de dor que o afogava.
Acelerou forte, muito forte. Zé Garoto, Mauá, Antonina, lugares mais estranhos do que Marte, Júpiter, Saturno. “Seu merda”, dizia para si mesmo. “Por que não pegou o telefone, não perguntou onde ela trabalha, por que, por que, por que?”. Foi em frente, já em prantos e sem camisa, apesar da quase fria noite de outono e do ar condicionado do carro.
Alcântara. Eram mais de 10 horas. As ruas estavam quase desertas e ele parado. Em que bairro ela morava? Que avenida? Que rua? Que vila? Que picada? Que terreno baldio? Que puteiro? Não importava, ele iria atrás. Uma placa meio caída anunciava o Jardim Catarina e, na sequência, Guaxindiba. Lembrou que já tinha estado em Guaxindiba, no enterro do cachorro de sua prima muitos anos antes. Em Guaxindiba fica um dos maiores cemitérios de cachorros do Brasil.
Voltou. Fez o percurso Guaxindiba-Barreto inúmeras vezes, ao longo de horas, entrando em ruelas, subindo ladeiras, favelas. Teve que parar para colocar gasolina completamente fora de si. Pensou em beber uma cerveja, mas era só o que faltava perder a mulher de sua vida, ficar bêbado, bater com o carro e morrer em local desconhecido.
A última viagem Barreto-Guaxindiba-Barreto (parador) foi as cinco e meia da manhã, quando São Gonçalo começava a acordar para ir trabalhar. O homem apaixonado, deprimido, devastado tomava café com leite e comia pão com manteiga num bar próximo a um cemitério. De gente.
Cegou em casa, tomou um banho e foi direto trabalhar. Todos notaram que estava devastado, arrasado, escalavrado. Nenhuma pergunta, mas muitas dúvidas no ar. O que teria acontecido com aquele homem alegre, gentil e risonho do dia anterior?
Durante 27 dias deu plantão no terminal de ônibus de Niterói, entre as sete e nove da noite, olhando fixamente para cada mulher que entrava nos ônibus. Eram milhares. De mulheres e de ônibus. Pensou em colocar um anúncio em um jornal de São Gonçalo como uma nota de coluna social. Uma foto sua, grande, dizendo qualquer coisa para chamar atenção da futura mãe de seus filhos.
- Então foi isso...eu perdi a mãe de meus filhos, avó de meus netos, companheira de uma vida inteira.
O amigo pagou a conta da lanchonete no Bay Market e disse “isso acontece”.
- Não, isso não acontece, respondeu o entrevado homem.
- Tem razão, isso não acontece mesmo não.







domingo, 23 de agosto de 2015

O Manual do Orgasmo - ficção extraída de meu livro “Torpedos de Itaipu”, editora Artware

Parecia chanchada italiana. Eu estava numa livraria dando um tempo. Chovia pra cacete lá fora e o trânsito lembrava um enorme jacaré bêbado. Livraria vazia. Entra um casal. Ele calmo, jeitão de economista do Banco Central, óculos com lentes fundo de garrafa, meio mal humorado. Ela, agitada, colorida, enfiada numa malha rosa arrochada; mulher grande, brincalhona, muito gostosa.


O aguaceiro engordou na rua. Não gosto de andar na chuva porque toda hora enfiam um umbrella na minha cara. Umbrella é guarda-chuva em inglês...só pra contrariar. Brasileiro, apesar de tropical, convive muito mal com as tempestades.
Voltando ao casal, ia tudo muito bem até ela pedir um livro, subindo o tom da voz. “O senhor tem o Manual do Orgasmo, de Fulana de Tal?”. Até eu fiquei sem saber o que fazer. Quem estava embrulhando parou de embrulhar, quem estava empilhando livros parou de empilhar e eu que estava lendo orelhas parei de ler. Como todos prevíamos, o tal homem sereno virou um mamute enfurecido.
Verde de ódio o sujeito levou a mulher para um canto e, tentando falar baixo, vociferou: “Precisava me humilhar? Vamos embora! Chega! Eu não aguento mais!”. E saíram no toró mesmo, soltando faíscas.
Não precisava ser desta forma. Muito se fala em alma feminina, nos cuidados que temos que ter com a mulher, com os desejos da mulher, com a liberdade da mulher, com a sensibilidade da mulher. Mas que fim levou a alma masculina?
Uma mulher que entra numa livraria com o marido e pede, vociferando, o “Manual do Orgasmo” está querendo barraco. Ou então pedindo. Alguém dirá “quem sabe, era meio burrinha”. Não! Não existe mulher burra. Se aquele mulheraço estivesse a fim de comprar o tal manual para usufruir teria ido sozinha, ou com amigas, irmãs, com o cachorro, comprava na internet, tudo, menos com o marido. Uma sutil (?) maneira de dizer “benzinho, você está precisando afogar melhor o seu gansinho”?. E o tal livro (acabei dando uma olhada) parece manual de funcionamento de freezer. A tomada é aqui, você liga ali, tem um botãozinho que faz isso, uma carrapeta que faz aquilo. Pior: sem garantia, sem Procon.
Voltando ao drama da alma masculina, por mais que as revoluções sociais, conceituais ensinem, o homem precisa ser enganado. No fundo, lá nas zonas abissais do inconsciente, precisa achar que é o princípio, meio e fim de uma mulher. Precisa ser herói, único, indispensável, insubstituível, eterno. O homem sabe que é mentira, mas essa mentira é sua fonte de sobrevivência. Em outras palavras, o homem é um imbecil. Ah, mas as coisas mudaram, dirão alguns. Mudaram coisa nenhuma. O homem ainda é o mesmo primata das cavernas, macho, guerreiro, predador de lobos. E pobre da mulher que cair no conto da evolução.
Um dos maiores confrontos do homem é o mistério que ronda o orgasmo da mulher. Está provado que a maioria dos homens vai para a cama muito mais interessado em fazer um belo workshop do que em sentir prazer. Cama é uma espécie de showroom. Um leitor, certa vez, confidenciou num bar na avenida Amaral Peixoto: “ Olha, não existe nada mais importante do que uma mulher derrubada, com aquela cara de bagaço, esgotada. É quando me sinto Hércules, Sansão, Homem Aranha”. Perguntei sobre a sua satisfação pessoal. O cara riu, bateu com o copo de Genebra na mesa e arremessou: “Prazer eu sinto com um cacho que tenho lá em Raiz da Serra.”
O homem é um golfinho de Miami sexual. Vai para a cama para ser aplaudido de pé, ou de joelhos. Condenada estará a mulher que, estonteada pela hipnose liberalista que de vez em quando bate em alguns, confessa que ele é mais um. Ele sabe. Todos sabem. Mas o homem quer acreditar que é o único, the best, The One, The Beatles naquele palco/cama. 
Dentro dessa conjuntura imagine o que o tal sujeito da livraria sentiu. Na pífia cabeça dele quando a mulher ao pediu o Manual do Orgasmo, declarou publicamente que seu macho falha, pifa, dá tilt, é mosca de padaria, siri na lata, leão da Metro.
Um conhecido meu separou-se da mulher há uns dois anos. Vivia reclamando que a vida estava ruim, que não a amava mais, etc. Conversaram, muita choradeira e ponto final. Três meses após a separação ele me contou que tinha dormido na casa dela. “Saudade é fogo”, comentei. Mas ele rebateu: “Saudade nada. Soube que ela já estava saindo com outro sujeito, me bateu paranoia e eu fui lá. Conseguir melar tudo”.
O pior é que, até hoje, quando a ex-mulher começa a se encostar em outro ele vai lá e crau! Só para não perder o lugar que ele mesmo não quis. E quando está bêbado afirma que ´ex-mulher existe, o que não existe é ex-vagina`. Alma masculina é chumbo grosso.
Homem liberal só existe em anúncios de uísque. Nós, machos, seres rudimentares e inferiores, nascemos com várias escrituras imaginárias na cabeça, e apesar da psicanálise, da cromoterapia, da neurolinguística, dos florais de Bach, da homeopatia, das revistinhas de sacanagem de Carlos Zéfiro, enfim, de toda a modernidade ainda somos os mesmos... e (por que não?) vivemos como nossos pais, como cantou Belchior nos anos 1970.
Haverá cura para o homem na sociedade contemporânea? Vai chegar o dia em que ele conseguirá viver sem honra ou mérito, ou sem honra, ou sem mérito? Será que um dia a mulher poderá comprar o Manual dos Orgasmo o lado do marido como se estivesse comprando alpiste para o canário? Viveremos momentos onde ex-mulheres imediatas (segundo a literatura, a mulher se livra definitivamente de um homem num prazo que corresponde a 20% ao da convivência. Exemplo: conviveu 20 anos levará quatro para se livrar) poderão namorar livremente por aí? Não. Porque o maior drama do homem não é viver sem mulher, e sim viver sem urras, elogios e “obrigado meu amo”.




sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Alô, aqui é Steve Hackett, ao vivo, na Maldita” - Módulo 35 de meu livro "A Onda Maldita - como nasceu a Fluminense FM"

Steve Hackett (camisa listrada) em frente a meu irmão, Fernando Mello. Estou a esquerda do meu irmão, cabeça baixa. No fundo, a direita, Alvaro Luiz Fernandes. Depois de uma tarde na Porta do Sol e muito café com camarão frito na Praia de Itaipu, fomos parar na extinta Cantina Romana, em São Francisco, Niterói, onde foi feita essa foto.
Antes, a tarde, no estúdio da rádio, da esquerda para a direita. Steve, Kim Poor, Roberta (ao fundo), Selma Boiron, Hilário Alencar (em pé) e eu.
“(...) Como era de se esperar, ele deixou o Genesis e partiu para uma carreira solo controvertida, alternativa, reunindo ingredientes de progressivo e fusion. Foi aí que a Rádio Fluminense entrou.
Steve ficou de ir à emissora quando viesse passar uma temporada em seu apartamento na Lagoa, Rio. E foi o que aconteceu. Só que de uma maneira muito mais gratificante. Steve soube através de amigos que uma FM tocava seus discos-solo. Em casa, no Rio, ele começou a ouvir e ficou entusiasmado. Afinal ele não era o primeiro a dizer que a Fluminense era a única emissora de Rock autêntico do mundo. Mas disse. Disse várias vezes, dentro e fora do ar.

Num dia qualquer de 1983 soubemos que ele iria até a emissora. Foi uma confusão. Fizemos questão de ir buscá-lo e Lacombe tomou as providências. Só que, na casa de Steve, todos entenderam que iria “uma Kombi” e não Carlos Lacombe. Quando chegou o Lacombe com a Sipituca – apelido do carro da rádio – o porteiro estranhou. Esperava uma Kombi. Uma hora depois, Steve embarcava rumo à rádio.

Estávamos nervosos. Pensamos em fazer um programa especial, gravado, para ir ao ar em quatro capítulos contando toda a história do Genesis, mas alguém lembrou que a rádio não tinha fitas suficientes. Decidimos, então, entrar com ele ao vivo, avisando aos ouvintes que o programa não seria reprisado. Como se não tinha sido gravado? Mesmo assim muitos ficaram furiosos e com toda razão. Como a visita do músico foi mais ou menos em cima da hora, não houve tempo para fazermos chamadas. Mais: fazer chamada do quê se não sabíamos o que seria dito?

Calmo, sereno, Steve entrou no estúdio e começou a entrevista, traduzida pela locutora selma Boiron que foi a nossa brilhante intérprete. Os ouvintes podiam perguntar o que quisessem e, evidentemente, caíram de pau em Phil Collins. Hackett se mantinha elegante e em nenhum momento atirou pedras em seu ex-companheiro de grupo. Por outro lado, encheu a bola de Peter Gabriel, que ao longo da entrevista – que durou três horas  – foi tratado de gênio para cima. 

Entre as perguntas, jogávamos músicas dos trabalhos solo de Hackett e, também, dele com o Genesis. Lá pelas tantas, ele pegou o violão da emissora – onde Gil estraçalhou Oriente – e mandou Horizons. Conseguimos, depois que ele tocasse de novo para que puséssemos na programação. A fita ficou na rádio uns bons meses, encartuchada, entrando na programação. Até o dia em que faltou fita para gravar comerciais e Horizons foi para o espaço.

Nota do autor: Peter Gabriel, mais do que músico, é um dos mais importantes intelectuais contemporâneos. Poço de angústias e conflitos existenciais, foi ele quem asfaltou os caminhos do Genesis e jogou o Rock numa outra missão, a de capturar sensações do futuro. Ele, Robert Fripp, Andy Summers, Keith Emerson, Chris Squire, Steve Howie, Ian Anderson, Townshend, Roger Waters e outros, formam um bando que vive a alguns milênios a frente daqui. Peter Gabriel ficou anos e mais anos gravando um disco épico que se chama “So”. Gravava, desgravava, rasgou músicas inteiras porque demorou a atingir o que ele chama de “alma da alma”. Quando o disco ficou pronto foi um dos maiores socos que levei. Especialmente porque uma parte da percussão – feita por Djalma Correia – foi gravada e mixada nos estúdios da Polygram, hoje Universal, na Barra da Tijuca.

Não nego a inteligência de Phil Collins, de jeito nenhum. A inteligência de Phil Collins está a serviço da indústria de sucessos, um direito dele, enquanto que a genialidade de Peter Gabriel monitora o futuro em prol da qualidade da música de hoje. Ambos são fundamentais neste planeta de contradições, e quando Gabriel faliu, em meados dos anos 80 ao escrever e produzir uma peça de teatro que foi um fracasso, Collins participou de um mega concerto feito para angariar fundos e tirar seu ex-companheiro de Genesis da falência.

O Rock progressivo é muito mais importante do que os preconceituosos modernescos imaginam. Foi ele quem fez a guitarra conhecer o violino, a bateria viajar por dentro dos celos, o baixo navegar pelos mares da harpa. Foi o progressivo quem colocou o Rock perante a poesia renascentista, o pensamento de Rabelais, a anarquia louca e alucinada da música antiga profana. 

Alguém questiona a qualidade de Laks, Tongues in Aspic, do King Crimson, que radicalizou ainda mais nas cordas e sopros acústicos do lendário Island?  Alguém vai questionar A Tab in the Ocean, do alemão Nektar? E as obras do Faust? E os delírios do Premiatta? 

Não me convidem para reuniões de linchamento do Rock progressivo, pois sua importância é tamanha que os ignorantes não sabem onde fica.

Depois da entrevista que acabou umas três da tarde, convidamos Steve Hackett para ir até a praia de Itaipu. Selma Boiron continuava dando a maior força na tradução simultânea e foi conosco. Niterói era uma vergonha. Cidade imunda. Mas acabou virando piada. Quando um urubu pousou a 50 metros do carro, Lacombe pediu que Selma explicasse que o urubu era uma ave sagrada na cidade. Falou de sacanagem. (...)

Chegamos a Itaipu, uma das praias mais bonitas do mundo. Segundo o naturalista Augusto Ruschi me disse em 1980, é uma das poucas praias onde o sol se põe no meio do horizonte. E foi numa tarde dessas que ficamos batendo papo sobre música com Steve Hackett, algo como conversar sobre Bossa Nova com João Gilberto em Itapuã, na Bahia. 

Estávamos, eu, Lacombe, Hilário Alencar, Alvaro Luiz Fernandes, Selma Boiron, Steve e a mulher. Quando anoiteceu, o músico quis dar uma caminhada pela aldeia de pescadores. Eu achava aquilo tudo a cara da Grécia. Acompanhamos, temendo que fôssemos todos assaltados. Preconceito burguês.

Eram umas oito e pouco da noite, céu estreladíssimo de inverno, quando deixamos o bar rumo aos carros. Steve ainda foi dar uma olhada numa muralha do século 17, que cerca o Museu de Arqueologia que existe lá e, infelizmente, quase ninguém conhece. 

Enquanto Steve contemplava a muralha, eu e Lacombe fazíamos xixi nas proximidades. De repente, para assombro geral, começam a subir gigantescas bolas vermelhas de dentro do mar. Eram centenas, milhares talvez. As bolas tinham tamanhos de ônibus e rumavam no mais absoluto silêncio para o céu. Ficamos meio paralisados. Steve chegou a dizer: “Discos voadores.” O fenômeno durou uns três minutos, mais ou menos. 

Como não acreditava – como ainda não acredito – em discos voadores, achei que aquilo ali deveria ser algum tipo de... de... sei lá. Francamente. Fiquei preocupado com a exploração que poderia rolar em cima. Afinal, como disse anteriormente, a Fluminense era considerada um viveiro de doidões. Imagine o que não iria rolar de folclore em cima da notícia de que o ex-Genesis Steve Hackett – também com fama de doidão, apesar de só gostar de café bem quente com camarão frito – e o pessoal da Maldita tinham visto uma esquadrilha de discos voadores. Ficou por aí mesmo essa história.

Na manhã seguinte o jornal O Fluminense publicou uma nota curta sobre os tais discos voadores. Outras pessoas os tinham visto na Região Oceânica de Niterói e logo ligaram para a Redação. Eu, mais com o objetivo de queimar as ilusões, telefonei para o saudoso médico e ufólogo Sylvio Lago, um senhor que estava entre as figuras mais respeitadas mundialmente em se tratando de Objetos Voadores Não Identificados. Perguntei a ele se havia como provar se era uma ilusão de ótica coletiva ou ao. Dr. Sylvio explicou que só através da hipnose poderia checar. Isso significava que todos nós teríamos que nos submeter ao exame. Preferi descartar o negócio. 

Não acredito em OVNIs porque acho que as civilizações superiores devem dispor de meios de transportes menos primitivos, como deslocadores de matéria ou a própria engenharia genética. Mas isso é outro assunto, provavelmente, para outro livro que jamais escreverei. Acho que só devemos escrever sobre coisas em que acreditamos. E disco voador, meu amigo, francamente...

Nota do autor: Várias pessoas me perguntaram na época o que eu tinha achado dos discos voadores e eu desdenhei. Dizia que devia ser sinalização de barco, apesar de no íntimo nunca ter engolido essa história direito. Três minutos de bola acesa subindo, em velocidade astronômica, é tempo demais, do tamanho de uma música. O Tchan no Egito tinha 2m45seg. 

Consegui manter o assunto relativamente na moita até abrir o Segundo Caderno do Globo numa edição de 1998, quando Steve Hackett estava no Rio. Na capa do Segundo Caderno, uma enorme entrevista com ele e um subtítulo em letras garrafais dizia: “O fato mais impressionante da minha vida foram os discos voadores que vi com Luiz Antonio Mello na Praia de Itaipu, em Niterói.” 

Fui sacaneado em todas as rádios do Brasil e pelo telefone cansei de espinafrar disco voador. Os ouvintes entravam no ar me sacaneando, e para culminar, fui chamado para um programa de televisão para falar desta minha experiência. Não fui e ao atender o telefone falei que eu não era eu, era meu irmão, e que eu estava viajando. Aproveito esta oportunidade para implorar: nunca mais toquem neste assunto comigo.