sábado, 31 de dezembro de 2016

Ano Novo: a diferença entre esperança e expectativa

Um abismo profundo separa o significado prático e filosófico de esperança e expectativa. Em 2015, o ano que terminou sim!, o amigo Lobão levantou essa lebre num show. Começou a falar sobre o significado (e as significantes) das duas expressões, mas a falta de educação da ruidosa e irritante plateia não deixou o lobo uivar até o final do raciocínio.

Esperança é o possível, expectativa é o ideal que não existe. Felizmente mantenho um pacto com a esperança desde a hora em que nasci. Com a expectativa, não. Relação zero. A expectativa é prima próxima da ansiedade, da correria, da falta de ar, faz nossos pés molharem em Manaus quando ainda está chovendo em Porto Alegre. Já a esperança é centrada, amena, racional. A esperança faz projetos a expectativa cisma.

Minha esperança em 2016 é grande, mas faço a minha parte. Não corro, não fujo, parto para cima com todas as forças disponíveis e depois, atento, aguardo a hora da colheita deixando o destino trabalhar. Pilhar o tempo todo, insistir, forçar a barra, chutar portas, em geral levam ao desespero sob o manto da expectativa. Em todos os setores da vida.

Há milhares de anos, os asiáticos costumam escrever que o silêncio é uma forma de comunicação. Pode até ser, mas eu não sou asiático, sou latino. Logo, não comunicou nada disse. Quando os sinais não veem (ou vão e não voltam), nada aconteceu. A esperança ensina que se não há declaração de amor ou declaração de guerra, não existe uma coisa nem outra. Cínica, a expectativa insiste que nem sempre os sentimentos emitem sinais. Como mente essa senhora, que eventualmente se faz de tonta.

Escrever as viradas de ano não chega a ser uma novidade já que passei (e vou passar) muitas viradas de plantão nas redações das mídias da vida. Desde o dia em que Lobão tentou falar sobre expectativa e esperança no tal show, mas acabou atrapalhado por galinhas, codornas e barangas da plateia, o tema ficou perambulando por mim. O que acabou me levando ao passado, a uma longa tarde que passei na casa do Lobo quando ele morava no alto da Estrada das Canoas, em São Conrado, Rio. Falamos muito sobre o flagelo da culpa. Culpa, ela mesma, a canalha que não nos deixa olhar no espelho mesmo quando somos totalmente inocentes.

Gerar expectativas leva a culpa. Falar de esperança, não. Por que? Porque a expectativa é volátil, enganadora e induz suas vítimas a impregnar a humanidade de promessas enquanto prepara uma desculpa para se livrar da situação. A esperança resolve, a expectativa tenta se livrar. Esperança leva a reflexão, a expectativa traz a insônia. Esperança não teme o início, o fim, o meio.

A opção é nossa.




sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Atitudes de Ano Novo

1 – Desvie dos chamados manuais de mudanças necessárias nesse início de ano novo. É um conceito velho, falido, arcaico, totalmente inútil. Surfe suas ondas na medida do seu possível e não no que determinam regras, protocolos, regulamentos.

2 – Ação. Sabe o “Luz, Câmera, Ação” do Cinema? Ando meio cheio de tanta luz, tanta câmera. Falta ação. Agir é crucial.

3 – O povo é sábio quando diz que “passarinho quando anda com morcego acaba dormindo de cabeça pra baixo”. Pessoas tóxicas, plantadas 100 passos atrás? Delete. Para que importar micro catástrofes existenciais? Precisamos de gente que nos faça ouvir porque em muitos momentos ficamos roucos de tanto falar para desertos inférteis.

4 – Sabe aquele livro? Leia. Sabe aquela música? Ouça. Sabe aquele filme? Assista. Sabe aquele site? Acesse. Sabe aquela paixonite? Pegue. Rápido, logo. Como diz um amigo “agora enquanto ainda”.

5 - Está cercado de pessoas atrasadas, invejosas, chupa cabras que cultuam o mofo, o velho, o inútil? Detone.

6 – Foi pouco a praia em 2016? Por que? Perdeu a fé de que a água salgada, piscinão de iodo, faz bem ao sistema nervoso? Que tal voltar aos mergulhos, ao papo vadio na beira do mar com amigos, conhecidos?

7 – E o trabalho? Saco cheio? Não dá para dar uma de herói. Tarzã nunca trocou de cipó sem ter outro na outra mão. Mude de trabalho, mas garanta o novo para não se estabacar na floresta.

8 – E o amor? Bom, o amor é sagrado, radicalmente pessoal e intransferível. Só quem sente e vive, sabe de que tipo é. Não existe o padrão Henry Miller/Anais Nin e muito menos Chapeuzinho Vermelho/Lobo Mau/Vovozinha. Cada amor tem uma cor, um aroma, uma luz, uma canção.

9 – Família. Se achar necessário, anistie todo mundo. Vale a pena. Perdão é uma palavra poderosa. Vale dar a décima segunda chance.

10 – Fique atento aos bons sinais. De todos os cantos, todas as áreas. Preste atenção à saúde, arranje um bom clínico que tenha o seu plano de saúde e deixe o barco ir, mar a dentro, vida a fora. Sempre.

Feliz 2017.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Nova Ordem da Boçalidade Mundial




Como todo mundo, no mundo todo, no dia 11 de setembro de 2001 fui solapado pelas imagens vomitadas pela TV mostrando Boeings explodindo contra o World Trade Center. Desespero, correria, gritaria, pânico. Meus colegas jornalistas tentavam saber o que estava acontecendo, o arsenal de perguntas e imagem ocupou o dia, a tarde, a noite, os dias, as semanas, meses anos. Percebemos que o “11 de Setembro” tornou o mundo mais imundo, boçal, imbecil.

No último 11 de setembro, o maior atentado terrorista dos tempos modernos completa 15 anos. Quem viaja pelo mundo sabe que a partir dessa data tudo ficou mais bege, frio, chato. O glamour de um voo para Tóquio, o charme a bordo de um navio pelo Caribe, tudo passou a ser regido pelo que determinou um personagem chamado Osama Bin Laden que muitos acham que foi invenção. Oficialmente, todo o plano detalhista e perfeito do “11 de Setembro” foi parido nas imundas e distantes cavernas das montanhas do Afeganistão, na época ocupadas pela Al Qaeda e similares. O magnífico livro “Plano de Ataque”, de Ivan Santanna, explica passo a passo como tido foi organizado.

O “11 de setembro” imbecilizou o mundo de tal maneira que só agora, 15 anos depois, dou a mão a palmatória e admito, sim, que os EUA  foram responsáveis pelo surgimento do "bestial" estado islâmico (em minúsculas mesmo) e da ditadura do politicamente correto em todo ocidente. Isso é fato. Uma sociedade que pensa igual, obedece igual, fala igual, age igual, é muito mais fácil de controlar. E assim nascia um dos braços do politicamente correto, a bovinização geral.

Quando Gene Wilder morreu (em 29 de agosto) quis homenageá-lo com um artigo mas pensei melhor. Pensei melhor e não escrevi porque Gene Wilder estava informalmente banido do cinema pelo politicamente correto, cuja foice devastadora de ideias jamais permitiria, hoje, filmes como “Banzé no Oeste”, “Jovem Frankstein “ e muitos outros. Ele praticava o humor quase ingênuo e livre, como outro que já subiu, Leslie Nielsen, figuraça que estrelou a anti saga “Corra que a Polícia vem aí”, absolutamente incorreta. Mel Brooks? Dispensa comentários.

Quis a nova ordem da boçalidade mundial, filha não bastarda do “11 de Setembro” que o mundo ficasse chato pra cacete. Quis essa nova ordem que a civilização esbanjasse tecnologia de Comunicação e zerasse o conteúdo. O mundo anda fraco de conteúdo. Há fartura de gigabytes e pobreza absoluta de um bom papo.

Se o Saber sempre foi o maior patrimônio da Civilização, Bin Laden (?) e os cacetes a quatro venceram. O mundo passa por uma grave anemia de Saber e bebe garrafões de egolatria, não coleguismo, afeto industrial, que Pete Townshend chamou de “Empty Glass” (Copo Vazio) em 1980.

Até quando?


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Molambeiro, o elo perdido entre o homem e o porco


Andando pelo bairro onde moro um dia desses, 41 graus à sombra, o cheiro de mijo não só incomodava como irritava. Coisa de molambeiro, bípede que não mora onde mija, não tem qualquer relação afetiva com a cidade onde está e, por isso, cospe no chão, atira lata de cerveja junto ao meio fio, enfim, essa figura conhecida como molambeiro deveria ser estudado em profundidade porque, diz a minha tosca e eventualmente mal humorada intuição, que ele pode ser o elo perdido entre o homem e o porco.

O molambeiro não tem sexo, cor, classe social, nível de instrução. É uma bola de sebo tatuada rolando pelas cidades, saltitando merda para todos os lados e atualmente tem como veículo preferido a motocicleta (no máximo de 150 cilindradas), em geral equipada com um tal de baú onde alguns carregam cachaça, cheirinho da loló, crack e outros aditivos muito comuns a espécie. Se um dia a polícia fizer seis meses de asfixia (blitz permanente) nas motocicletas, a segurança pública vai melhorar 80% porque além de baderneiros, escroques sociais, paladinos da imundície, muitos são bandidolas.

Molambeiros gostam de andar em bandos e contrariando normas internacionais de segurança, andam de motocicleta sem camisa, calçando chinelos vagabundos, capacetes idem, cano de descarga cortado (barulho infernal) e em zigue zague entre os carros.

Em Niterói, o point da molambada é a praia de Itacoatiara, onde os molambeiros encontram molambeiras com quem copulam e perpetuam a espécie. Itacoatiara virou moda entre eles e entrou na rota da barbárie desses animais que, geralmente sem documentos, invadem o bairro fazendo enorme barulho (como suas motos são vagabundas, não correm muito), fazem xixi em qualquer árvore e enchem de cocô e latas de energético genérico a restinga da praia.

Na praia, fumando maconha paraguaia, jogam futebol na beira d’água (velhos e crianças que se danem), dão saltos mortais as gargalhadas no mar onde aproveitam para fazer xixi e cocô de novo, aos gritos de “hahahaha....tá dominado, rapá....hahahahaha”. Na areia, funk, pagode e sertanejo aos berros naqueles equipamentos de som chineses, com porta USB por onde a caganeira musical transita.

Os moradores locais? Se borram de medo. Itacoatiara é bairro de classe média alta e um dia já foi o must do verão em Niterói, e como toda a classe média, tem pavor dessa molambada com cabelo à Neymar, moto na mão e muita bosta na cabeça. Os locais dizem que “os estrangeiros são perigosos e acham que a praia é deles”. Claro que a praia é deles. A praia, o bairro, a cidade, o país.

Fato é que cada vez mais zonzo com o cheiro de mijo, andando numa cidade que estupra com o IPTU, conta de luz, água, telefone, vem esses molambos e, em menos de duas horas, cagam tudo. 

Com certeza a porradaria ia comer se eu pegasse um molambo desses, elo perdido radical, defecando em frente a uma creche (para eles tanto faz). Aliás, é por isso que não tenho ido a praia sábado e domingo, onde a civilidade é minoria absoluta. 

Prefiro permanecer réu primário.



domingo, 25 de dezembro de 2016

O poder do reconhecimento

Sabe aquele quadro pequeno pendurado na parede com os dizeres “Funcionário do Mês” mais uma foto e um nome? Cada vez mais raro, vi um desses quando fui tomar um mate, semana passada, nas imediações da rua do Ouvidor. Coincidentemente o tal funcionário do mês foi o que me atendeu. Dei parabéns, o cara ficou meio sem jeito e tal, agradeceu e seguiu trabalhando, sorriso estampado na cara.

A espécie humana não sobrevive sem reconhecimento. No início dos anos 70, um colega entrevistou o assaltante Lúcio Flávio Vilar Lirio na penitenciária e perguntou o que ele sentia ao ser considerado pela polícia o inimigo público número um. Lúcio Flávio respondeu que se sentia muito bem porque era mais uma demonstração do cagaço que a polícia tinha dele, o que “para mim é um grande reconhecimento”. E, segundo o colega, esboçou um leve sorriso.

Vamos supor que o ser humano tenha 60% de defeitos e 40% de qualidades. Na melhor das hipóteses. Se pouca gente aceita a chamada “crítica construtiva” a coisa fica caótica quando se vê valorizados apenas os 60% podres.

A mulher se submete a uma dieta de meses, veste uma bela e sensualíssima roupa, corta o cabelo, estreia um par de sapatos, usa um batom de cor ousada para encontrar o sujeito. Ele chega e comenta que detesta o perfume que ela usa. Só isso. Não diz mais nada, absolutamente nada e leva um pé na bunda tempos depois.

Cachorros adestrados quando fazem direito uma evolução ganham reconhecimento e biscoitos. Golfinhos e focas ganham reconhecimento e sardinhas. Por que com a raça humana seria diferente?

Medalhas, troféus, diplomas de “Honra ao Mérito” e dezenas de outros símbolos mostram que o ser humano quando reconhecido abertamente rende muito mais. Autoestima turbinada. Parece óbvio mas para muita gente não é. Você aí, leitor, há quanto tempo não recebe o reconhecimento de uma pessoa significativa em sua vida? 

Pior: você nota que ao longo do tempo essa mesma pessoa só o critica, só vê os 60% citados lá em cima, só enxerga ônus e ignora os bônus? Dá vontade de deletar? 

Pois então, delete.


Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado. Machado de Assis.

Contra os ataques é possível nos defendermos: contra o elogio não se pode fazer nada.Sigmund Freud.

O reconhecimento envelhece depressa. Aristóteles.


sábado, 24 de dezembro de 2016

Natal na pequena rua engolida pelo calor

Foi perto do Natal. Eu andava por uma pequena rua que não conheço, no miolo de um bairro operário provavelmente o mais quente que já pisei, fora Bangu, no Rio. Eram duas da tarde e, penso, a temperatura ali passava dos 37 graus. Não falo da tal sensação térmica, invenção pequeno-burguesa dos neo-meteorologistas, mas de temperatura mesmo.

Não lembro em que pensava, afundando o pé naquela lama asfáltica desesperadora e opaca, doença industrial que ajudou a enterrar o planeta. Ou alguém duvida que o nosso planeta, outrora azul, foi enterrado vivo pela especulação imobiliária, desmatamento, poluição generalizada, desgovernos, desconsiderações generalizadas?

Eu não estava legal, não, a ponto de achar que tinha visto uma árvore de Natal voando. Parei numa espécie de bar que vendia bombril, madeira, pastel, lâmpada, quibe, mariola, café, chumbinho e quando pedi uma H2O Limoneto o balconista me olhou com cara de “que porra é essa?”. Tudo bem. Migrei para uma água sem gás e fiquei contemplando a ausência de paisagem daquele lugar, tomado de telhados de amianto. Pensei em não voltar mais lá, mas tinha um compromisso. E se eu rompesse o compromisso? Não faz o meu estilo. Ia tomar um café, mas desisti quando vi o estado do coador, jogado num canto da pia. Paguei a água e saí.

Caminhava pela rua sem árvores, calçada cheia de rombos, buracos, fissuras, cachorros deitados em cantos de muro e, de repente, ouvi um grito conhecido. Conhecido, não, muito conhecido. Preocupado, parei embaixo de uma marquise ligeiramente podre e ouvi o final de “Speak To Me”, faixa que abre o genial e eterno álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, 1973. Na sequência, emendada, depois do grito desesperado, aflito, tomado de agonia, o alívio de “Breathe”.

Não quis saber de onde estava vindo aquela música que caiu como luva em meu estado emocional. No meio do calor, mais mormaço existencial e outros acessórios, engolido por dúvidas, pensamentos caóticos e muitas vezes incoerentes, o grito da música no meio daquela inconveniente lareira psíquica foi a trilha sonora perfeita que o destino escolheu para sonorizar o meu momento.

Angústia que clamava pela suavidade de “Breath” que, não sei porque, a pessoa que ouvia abaixou o volume logo nos primeiros acordes. Provavelmente também estava encarando uma crise de histeria muda parecida com a minha e queria mais gritos, mais gritos, algum berro, mas, ao contrário de mim, não quis o conforto, o colo, a bruma, a suavidade de “Breath”.

Continuei andando pela rua que, apesar de pequena, suja, estreita, parecia não acabar. Cruzei com pessoas que pareciam zumbis, banhadas de suor, apáticas, lesadas, balas perdidas quase cambaleando sem terem o que falar, ouvir, olhar. Olhar o que naquela paisagem sem vida? Provavelmente eu também devia estar assim, estático, fora da área de cobertura, olhos secos, boca seca, suor, leve desespero e muita angústia.

Pensei “quando chegar num computador vou escrever alguma coisa agradecendo a pessoa que colocou “Speak To Me” e “Breath” justamente na hora que eu estava passando por aquela picada.” E é o que faço agora. Mais do que um desabafo, esse texto pretende agradecer a anônima e natalina pessoa que gritou através do Pink Floyd mas que não quis arrefecer, como eu. Sim, com “Breath” arrefeci. Precisava reiniciar o raciocínio lógico pois entraria em uma reunião de trabalho meia hora depois.

Tive que calar. Pior: tive que dissimular, inventar um alívio inexistente porque em 28 minutos teria que estar encenando um outro papel, de brasileiro gente boa que adora o país tropical, o calor, o suor, e abomina crises existenciais que ele, brasileirinho, chama de coisas de baixo intelecto. Sabem como é? É isso aí.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Livros a Semana - edição 29


Confira o especial com sugestões especiais para o Natal. É só clicar aqui: http://colunadolam.blogspot.com.br/2016/12/edicao-especial-de-natal-livros-da.html 

Meu podcast UIVO, especial de Natal. Ouça agora, baixe agora, clique aqui: https://www.podomatic.com/podcasts/luizantoniomello/episodes/2016-12-18T17_57_17-08_00

Livrarias pesquisadas:

Travessa – www.travessa.com.br
Estante Virtual - www.estantevirtual.com.br
Amazon – www.amazon.com.br

Ao Seu Encontro

Abbi Glines
224 páginas

Há apenas alguns meses, um encontro inesperado numa casa em Rosemary Beach se transformou num romance de conto de fadas. Agora Reese está prestes a ir morar com Mase na fazenda dele, no Texas. Com o apoio e o amor da família do namorado e a recente descoberta de que ela mesma tem uma família com a qual contar, Reese pode enfim superar os horrores do passado e se concentrar no futuro promissor que a aguarda. No entanto, no que depender de Aida, isso não vai acontecer.

A beldade loura e Mase foram criados como primos, mas logo fica claro para Reese que o amor da jovem por ele está muito longe do que se deveria ter por um parente. Ao mesmo tempo que Reese tenta entender a relação dos dois e não se sentir ameaçada, entra em cena Capitão, um estranho que parece estar, convenientemente, em todos os lugares que ela frequenta. Bonito, sensual, misterioso e dono de uma franqueza desconcertante, ele não tem medo de dizer o que pensa de Mase – nem como se sente a respeito de Reese.

Enquanto a competição pelo coração de Mase e de Reese esquenta cada vez mais, algumas perguntas em relação ao passado dela começam a ser enfim respondidas, revelando verdades chocantes que vão mudar para sempre a vida do casal. Em Ao seu encontro, Abbi Glines conclui a história que começou em À sua espera. Com a escrita romântica e voluptuosa que a consagrou, ela constrói mais uma narrativa envolvente, com personagens que vão mexer com as nossas emoções até o final.

Alexandre VI - Bórgia, o Papa Sinistro

Volker Reinhardt
498 páginas

Nascido Rodrigo Borja e que mais tarde italianizou seu nome para Bórgia quando foi estudar direito em Bolonha. Nos 11 anos do seu pontificado, o Vaticano foi quartel-general de guerras, palco de envenenamentos, assassinatos, subornos, chantagens, desvios de dinheiro da igreja e nepotismo no mais alto grau. Inclusive, com a participação dele em orgias envolvendo até 50 mulheres.
Volker Reinhardt traz à luz fatos sobre a trajetória do papa considerado como mais polêmico da história.



Renato Russo - O Trovador Solitário

Arthur Dapieve

216 páginas

Esse livro está totalmente esgotado. Por isso você só encontra na Estante Virtual, www.estantevirtual.com.br .

Mesmo com a sua morte, em outubro de 1996, a legião de fãs de Renato Russo só aumentou. Letras como "Geração Coca-Cola", "Faroeste caboclo", "Índios", entre outras, até hoje estão na ponta da língua de milhares de pessoas.

Momentos importantes, como o tumultuado show em Brasília, em 1988, são contados pelo experiente jornalista Arthur Dapieve (quem conviveu com o Renato), que mostra a trajetória do cantor: um jovem talentoso, tímido e polêmico.

Ninfeias Negras

Michel Bussi
352 páginas

Giverny é uma cidadezinha mundialmente conhecida, que atrai multidões de turistas todos os anos. Afinal, Claude Monet, um dos maiores nomes do Impressionismo, a imortalizou em seus quadros, com seus jardins, a ponte japonesa e as ninfeias no laguinho.

É nesse cenário que um respeitado médico é encontrado morto, e os investigadores encarregados do crime se veem enredados numa trama em que nada é o que parece à primeira vista. Como numa tela impressionista, as pinceladas da narrativa se confundem para, enfim, darem forma a uma história envolvente de morte e mistério em que cada personagem é um enigma à parte – principalmente as protagonistas.

Três mulheres intensas, ligadas pelo mistério. Uma menina prodígio de 11 anos que sonha ser uma grande pintora. A professora da única escola local, que deseja uma paixão verdadeira e vida nova, mas está presa num casamento sem amor. E, no centro de tudo, uma senhora idosa que observa o mundo do alto de sua janela.

Xica Da Silva: A Cinderela Negra

Ana Miranda

520 páginas

A biografia da escrava que se tornou a senhora mais poderosa das minas de diamante O canto dos escravos dá o tom nesta obra e nos transporta para o Brasil do século 18: uma realidade de fidalgos e pés-rapados, de cantos africanos e rezas católicas, um quadro vivo e riquíssimo de detalhes do violento ciclo do diamante, por meio do qual Ana Miranda reconstrói a biografia de uma personagem que nos fascina há gerações.

Com narrativa colorida e vibrante, a autora revela as facetas e interpretações por trás da figura de Xica da Silva: da sedutora, capaz de dominar os homens com astúcia e sensualidade, à concubina amorosa, fiel ao marido e dedicada aos filhos, passando pelo papel de mecenas do Tijuco, de dona de cem escravos e administradora da maior riqueza de seu tempo. Uma mulher vitoriosa, revolucionária mesmo para os dias de hoje, irreverente e mandona, que superou com majestade a sua condição de escravizada, criando a lenda de uma Cinderela Negra.







quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O náufrago

Encontrei um conhecido que há uns 15 anos viveu uma aventura (para alguns, desventura) numa ilha do litoral sul. Muito experiente, ele navegava há dias sua baleeira quando bateu numa pedra. O barco começou a fazer água e ele avistou, muito perto, uma ilha num dos inúmeros recortes geológicos da área.

Pôs o salva vidas, pegou facas, cantil, dois canivetes suíços, alguma comida e mergulhou no mar, nadando para a ilha. Até hoje ele diz que o rádio do barco estava com defeito e por isso não conseguiu chamar um socorro.

Chegou a ilha deserta (pequena, bem pequena) e percebeu que ela ficava num "dente", uma falha geológica que a tornava praticamente invisível.  Atingiu a pequena faixa de areia. Se embrenhou na vegetação nativa e armou uma barraca.

O jantar daquele dia estava garantido. Havia comida mas ele já tinha percebido que em caso de necessidade poderia recorrer aos mexilhões, côco, pitanga, maracujá. 

Como era inverno a noite caiu rápido. Ele havia planejado escrever, com letras garrafais, SOS na areia da minúscula praia, mas achou melhor deixar para o dia seguinte. Não iria resolver. Além do mais, segundo a sua carta náutica e o GPS, naquela região não passava avião e muito menos navios, justamente por causa dos recifes.

Ele estranhou. Em vez de sentir a angústia dos náufragos, a sensação era de alívio. Estranho alívio. Foi quando lembrou que seu casamento havia naufragados, que seus filhos estavam entregues ao egocentrismo, que o seu trabalho como biólogo marinho numa universidade federal estava parado por falta de verbas, que sua família estava espalhada pelo mundo, que a sua saúde...ah, a sua saúde estava ótima. 

Não foi difícil para ele constatar que, a princípio, não havia interesse algum em retornar para a civilização. "A princípio", pensava para si mesmo. A bem da verdade, ele avaliou, seu único vínculo afetivo honesto, com todos os retornos que os vínculos afetivos proporcionam, era a baleeira. Que afundou.

Nos primeiros dias ele deu umas voltas pela ilha. Comeu muita pitanga e até maracujá. Ainda não havia escrito SOS na areia porque...porque...porque não estava a fim de SOS algum. Começou a pensar na possibilidade de se tornar um náufrago eterno. Não só naquela ilha, mas em outras ali por perto também. Nunca havia sentido tanta liberdade, tanto desprendimento e, agora sim, a certeza de que não fazia falta a ninguém. O único problema era seu irmão mais velho, conhecido como Taco, campeão mundial de iatismo e capaz de localizá-lo.

Podia fazer a barba com os canivetes suíços mas deixou crescer. Podia usar os jeans que trouxera do barco, mas optou por ficar nu; podia arranjar talheres para comer mas desejou comer com a mão. Caprichoso, fez um cardápio com várias opções de mexilhão com côco, pitanga e maracujá. Passou a correr uma hora todos os dias e, após 25 dias, percebeu que nenhum barco passou perto da ilha. Avião? Nem pensar. Lembrou que "acidentalmente" havia desligado o GPS do barco dias antes do naufrágio.

Quarenta e oito dias depois ele foi acordado por uma pequena multidão. O irmão Taco (bingo!) o havia localizado. Chegou a ilha para socorrê-lo, com várias pessoas, entre elas sua mulher. O náufrago não conseguiu esconder o sorriso amarelo, o mal estar, a desagradável sensação de ter a sua paz de espírito liquidada em poucos minutos.

"Você está ótimo", disse Taco, notando a pele bronzeada, o corpo sarado, a leveza do irmão. A mulher nada disse porque, segundo o náufrago, ainda não havia encontrado algum motivo para esculachá-lo, um hobby dela.

Contrariado, embarcou com o irmão de volta a civilização. Falava pouco, estava muito calmo. Taco comentou qure "você nem parece aquele sujeito ansioso, tenso de meses atrás". O náufrago disse "é, não pareço". 

Dias depois chegou a sua cidade. Havia uma festa surpresa no clube. Ele fingiu que gostou. Pediu divórcio, pediu demissão da universidade e emancipou os filhos. E no dia que o encontrei na rua, ele falava em voltar a navegar. Fiz uma pergunta objetiva: "voltar a navegar ou a naufragar?".

Tudo é possível. 

Ele disse.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Como um beduíno alucinado de calor

Como um beduíno debaixo de um sol que parecia um fogareiro Jacaré (vintage) aceso nos ombros, semanas atrás passei parte de uma tarde perambulando por repartições públicas num safari, caçando documentos. "Não é aqui, o senhor por favor vá até..." foi a informação que mais ouvi, perdido naquela macarronada de papel, com os bolsos da calça cheioS de protocolos.
Em uma das filas, uma moça pacientemente esperava. Fila média. Nem longa, nem curta. Calor, muito calor. Para não perder mais tempo, perguntei "a senhora poderia me informar se é aqui que...". Ela sequer se moveu. Parecia o monolito do filme “2001, uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick.
Será que ela achou que era uma azaração barata? Insisti. Cutuquei o ombro, ela levou um susto. Foi quando percebi que estava com aquelas duas minicarrapetas brancas enterradas nos ouvidos e ouvia música em seu smartphone. Ela se desculpou e tal, disse que eu estava na repartição errada e já na calçada lembrei que a música tem a capacidade de nos arrancar dos mais tediosos ambientes.
Lembrei também que já tentei usar um aparelhinho desses, mas não me entendi com aqueles fones minúsculos. Um par deles caiu no mar quando desci do catamarã. Ia insistir, mas graças a anos de rock, blues e arredores, meu ouvido esquerdo está meio detonado. Minha médica disse para eu não usar essas carrapetas e evitar shows. Ok doutora, as carrapetas eu sepulto, mas shows de jeito nenhum. Como viver sem ouvir um milhão de decibéis de boa música eventualmente?
Nada resolvi em meu rali pelas repartições, mas não perdi a paciência. Peguei um táxi. O motorista estava sintonizado no rádio de comunicação com a sede da cooperativa. Ao mesmo tempo mantinha o rádio do carro sintonizado em uma FM, falava no celular e mexia no GPS instalado sobre o painel. No cinto de segurança notei que estava pousado um pendrive. Quase escrevi para Cora Rónai narrando o que vi.
Imaginei Machado de Assis no mundo de hoje. Você anda pelas ruas e o que mais vê são os fones nos ouvidos da multidão, ou smartphones com gente com os olhos espetados neles, passando por cima de bueiro aberto. Não sei o que seria de Bentinho e Capitu nesses tempos pós-modernos.
Ainda no táxi lembrei de uma pesquisa feita há alguns anos por uma rede de TV norte-americana que queria saber qual é o país mais curioso em se tratando de novas tecnologias. O Brasil ficou em segundo lugar, perdendo apenas para a Austrália. É essa curiosidade que faz do Brasil um país criativo e movido a esperança, mesmo com a tela da TV marrom de lava jato e similares. Somos íntimos das novidades e não resistimos, sequer, quando alguém aparece num sinal de trânsito vendendo uma espécie de raquete de tênis que na verdade é uma cadeira elétrica de mosquitos ou coisa parecida.
Quando um sociólogo (cujo nome saiu para comprar uma chaleira digital) disse que somos um povo "novidadeiro", inventou a palavra certa. Há quanto tempo o gás natural surgiu no mercado? Um ano depois 100% dos táxis rodam com GNV. É impressionante a velocidade com que as "coisas modernas" são absorvidas por nós graças a nossa curiosidade e enorme fome de informações.
Já repararam como as bancas de jornal se transformaram em shoppings? Compra-se pouco jornais (a internet mamou o público que era do papel) mas muitos DVDs, CDs, incenso, flores e, naturalmente, as boas novidades disponíveis como carro em miniatura, lanterna alimentada a dínamo, figurinhas. É por essas e por outras que o Brasil fascina o planeta.
Com relação aos tais documentos que originaram o meu safari e esse texto, saíram sim. Depois de 10 dias úteis, mais três filas, 37 flanelinhas e muito, mas muito calor.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Serra, mar

Foi na semana do Natal. Almoçávamos num restaurante perto da orla. Ele estava com pouco apetite e parecia cansado. Preocupado. Quase dava para ver as interrogações flutuando sobre a sua cabeça branca e calva. Como sempre, não comentou, mas estimulava que eu falasse muito, muito.
Como sempre fez questão de pagar a conta e caminhou devagar até o carro. Dia de sol. Quente. Nascido e criado na cidade não conhecia um lugar que comentei, que todo mundo conhece. Rumei para lá e comecei a subir os quase 250 metros.
A cada árvore, cada trilha, cada nuvem, ele se animava e demonstrava surpresa com tudo o que via. Me empolguei e falei mais daquele lugar e quando chegamos ao topo, onde há um platô, estacionei. Dezenas de pessoas caminhavam rumo a rampa de voo livre que serve de mirante e um outro ponto de observação mais ao centro.
Caminhando devagar, ele e eu chegamos a rampa. Seu rosto se iluminou e seus olhos, imediatamente, se fixaram na serra. A serra dele, longe dali, exuberante no meio da paisagem. Seus olhos fixos quase marejaram durante a demorada contemplação. Calei. Deixei que ele ouvisse o que quisesse. Memórias. Tirei uma única foto. A melhor que fiz dele.
Olhou para o mar (provavelmente o que mais fez na vida), olhou para a cidade lá embaixo, e surpreendia-se com as ruas, os bairros, estações, que daquele lugar ganham contornos inusitados. Finalmente, mais uma vez, olhou para a serra ao longe e comentou “quantas vezes nós subimos e descemos?”. Não sabia. Não sei.
Estava muito calor. Teríamos ficado mais, mas lentamente até o carro, ele abriu a porta e sentou no banco do carona. Comprei duas garrafinhas de água mineral, bebemos, em silêncio e, de novo, descemos devagar.

Um dos dias mais bonitos que passei com ele. Um dos dias mais bonitos que ele passou comigo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

“Siga o luar interior; não esconda a loucura” (Allen Ginsberg)

Por falar em Uivo, puça/baixe/comente/divulgue. Clique aqui: https://www.podomatic.com/podcasts/luizantoniomello/episodes/2016-12-18T17_57_17-08_00

Quando ouvi, reouvi, ouvi, reouvi, ouvi, reouvi, ouvi, reouvi “Uivo”, com aquele semblante de tapa na cara que ele tem, novos encontros, desencontros e vadias emoções se sublevaram dos subsolos do inconsciente. E desabou a pergunta: como esse murro nas vísceras, lançado em 1956 na América do Norte, é capaz de reverberar entre quase índios, negros, brancos latinos aqui na América de baixo, vulgo do sul?

Como “Apocalipse Now”, obra maior de Francis Ford Coppola, sinto “Uivo” como uma incursão interior em busca de verdades que muitas vezes inexistem, ou que conseguiram fugir de nossa cotidiana “ofensiva do Tet”, ou que não seriam verdade. Como o “Apocalipse” de Coppola, a obra desleixada, livre, boçal, genial e bêbada de Ginsberg nada em veias abertas que foram suturadas a força em nosso rico “universo interior”. Hahahahahahahahah.

Na adolescência fui abduzido pelo existencialismo via Albert Camus e depois me atirei no movimento beat após constatar que o existencialismo é uma bela, equivocada e cascateira teoria, não aplicável. Pulei fora. No caso da cultura beat, a suposta liberdade. Tudo lá era possível, nada era provável e o tempo era o agora. Os beats não temiam a morte e iam mais além, muito mais além: não temiam a vida. Bebiam todas, fumavam tudo, comiam o mundo, morreram todos relativamente jovens mas, segundo Neil Cassidy, já fora da data de validade. Pulei fora porque vi no álcool/drogas deles, copos de coragem de laboratório, tomados as litros, padrão quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão. 

Neil Cassidy era uma figuraça, amigo de Jack Keroac que o presenteou com o personagem Dean Moriarty no clássico “On The Road”. As melhores imagens de Cassidy estão em “The Other One”, sensacional documentário sobre Bob Weir, guitarrista do Grateful Dead, que está na Netflix. Valeu a dica, amigo Caíque Fellows!

Ouvir “Uivo” é uma bela experiência. Faz bem e faz mal. Faz bem porque o poema nos oferece a possibilidade de rebater, com chutes, coices, pancadas secas com taco de beisebol. Faz mal porque é impossível não se sentir relativamente medíocre depois de ouvir aquilo tudo.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Blow-Up









Quando soube que “Blow-up”, de Michelangelo Antonioni (1912-2007), baseado num conto do argentino Julio Cortázar (1914-1984), seria homenageado por seus 50 anos de vida, gelei. Tive a péssima intuição de que alguém poderia fazer um famigerado “remake caça-níqueis” de Blow-Up, substituindo o denso suspense por cenas de monstrinho cansado inventado por esgotados computadores, com direito a Justin Bieber enchendo o saco no lugar do Yardbirds.

Alívio. Muito assediados pelos parasitas, os donos dos direitos do filme disseram um sonoro não e a comemoração do cinquentão foi maravilhosa: uma bela versão restaurada, bela, bem cuidada, que ainda está em cartaz em poucos e selecionados cinemas.

Para quem não assistiu, o filme gira em torno de um fotógrafo de moda londrino chamado Thomas (David Hemmings), que após passar a noite fazendo fotografias para um livro de arte numa casa, volta para o estúdio atrasado para uma sessão de fotos com supermodelo Veruschka.

Ele passa por um parque da cidade e fotografa um casal. A mulher das fotos, Jane (Vanessa Redgrave), furiosa por ter sido clicada (sugere que era casada e estava com um amante), o segue até seu estúdio e exige os negativos de Thomas, que lhe devolve um filme virgem. Curioso com a atitude, ao fazer seguidas ampliações (blowups) de suas fotos no local, descobre o que acredita ser uma mão apontando uma arma entre os arbustos do parque.

A noite, ele volta ao parque e descobre um corpo no meio da mata (será do amante de Jane?), mas sem a câmera, não pode fotografá-lo e assustado com o barulho de um galho sendo pisado, deixa o local e encontra seu estúdio revirado e suas fotos roubadas. Ao retornar no dia seguinte ao parque, depois de mergulhar a noite londrina (1966 foi o auge da efervescência cultural e revolução de costumes da cidade) ele vê que o corpo desapareceu e acaba por não ter certeza do que realmente viu.

Caminhando absorto pelo parque, assiste numa quadra duas pessoas jogando tênis por mímica, sem bolas nem raquetes. Participando da cena, quando devolve a bola imaginária que lhe é lançada por um dos jogadores, ele ouve o som da bola tocando o chão.

Assisti a versão restaurada de Blow-Up sozinho no cinema. Não havia mais ninguém na sala, uma experiência inédita e muito interessante. A tela, os atores, as cenas, o grande mistério, eu e mais ninguém. Quantos de nós já sentimos algo que parece existir como bolas e raquetes de tênis invisíveis, imagens em preto e branco de tiros prováveis com direto a corpos largados? 

Blow-Up parece dizer que temos direito ao delírio, a nos tornar apaixonados e até obcecados por fantasias, como eu (e todos os adolescentes do mundo) por Vanessa Redgrave na primeira vez que assisti, lá em 1968, com 12 anos. E, ainda, vastamente excitado com as duas modeletes que brincaram com Thomas e acabaram nuas no estúdio de fotos, emboladas num não explícito ménage à trois. Foi o primeiro nu frontal (de raspão, rápido) que vi na telona. Claro, não entendi o filme. Com essa idade poucos conseguem entender os jogos do absurdo.

Voltando ao presente,  quando deixei o cinema deserto (última sessão), estava chovendo. Caminhei lentamente, ruas vazias, árvores aliviadas, as cenas de Blow-Up, o vazio existencial momentâneo e a certeza de que há sim metáforas verdadeiras e verdades metafóricas.
Mas esse é outro papo.

P.S. - Alguns artistas já conhecidos em 1966 aparecem no filme, outros se tornariam celebridades depois dele. The Yardbirds, a primeira banda conhecida de Jimmy Page Jeff Beck, faz uma apresentação num clube londrino e Antonioni pediu a Beck que refizesse a cena de Pete Townshend, do The Who, destruindo suas guitarras e amplificadores no palco, ato pelo qual o cineasta era fascinado.

Veruschka, modelo já famosa na Europa, que interpreta a si mesma, depois do filme se tornaria uma celebridade em todo mundo. Michael Palin, comediante britânico que aparece numa das festas, alguns anos depois ficaria internacionalmente famoso como um dos criadores do grupo Monty Phyton.