sábado, 2 de janeiro de 2016

A Vela

 Óleo sobre tela de Holly Van Hart
Mormaço. Praia vazia. Umidade relativa do ar em 47%. Nenhum sinal de chuva. Sentado numa cadeira avistou à distância um pequeno barco à vela. Snipe, provavelmente. A bordo, sozinha, uma mulher. O barco solitário, em velocidade, ia e vinha sempre distante, paralelo a praia.
Quem seria aquela mulher de colete laranja? Ele não queria saber quem era e muito menos como era. Mesmo à distância decidiu que era bela; que pegou seu barco e decidiu fazer confidências ao mar, o mais poderoso guardião de nossos segredos, alegrias, angústias.
O nome do barco escrito na popa. Não casualmente, naquele início de tarde, ele estava com uma câmera na bolsa, com uma razoavelmente poderosa lente teleobjetiva. Era só pegar, focar no barco, ver o nome, as inscrições na vela, contemplar a mulher. Optou por deixar a câmera quieta. Não quis saber como era aquela mulher, o nome do barco, o tipo de barco para não meter o pé na porta da quitinete de suas fantasias.
Ela deixou de navegar em paralelo e partiu para o horizonte. Foi longe, muito longe. Ele só conseguia enxergar uma mancha. A vela. O que ela estaria confidenciando ao mar? Apenas o prazer de navegar? O prazer da tórrida noite anterior? A possibilidade do prazer voraz no final daquele dia? Estaria pensando num amor conquistado, num amor perdido, numa paixão inesperada? Mudar de profissão? Estaria feliz, alegre, desolada, isolada?
Em questão de minutos o barco voltou para perto, bem perto, perigosamente perto. Chegou rente a areia. Ah, não! Tudo, menos ver aquela mulher, que fascinava pelas manobras decididas, pela ousadia, pelo saudável convívio com a solidão, pela decisão de ser feliz mesmo em dias de céu nublado. Ele estava construindo um mito mas os mitos não falam, não se exibem, não são de carne e osso.
O vento rondou. De novo. O barco deu um bordo e voltou a singrar o mar em paralelo à praia. Alívio. Ele começou a inventar nomes para aquele suposto snipe. “Destino”? Não, muito óbvio. Fora isso, ninguém domina o destino com tanta precisão como aquela mulher fazia na sua frente, como se estivesse montada, nua, em um cavalo selvagem. Ela dominava o barco, mas não o destino. “Hope” seria um bom nome, mas apesar do significado (esperança) barcos e noites com nomes estrangeiros...
Ele estava encantado com a mulher que inventou, fruto do solitário devaneio, vastas emoções e pensamentos imperfeitos, como escreveu o mestre Rubem Fonseca. Em menos de uma hora ela se tornou perfeita, bela, companheira, aquela minha platônica carência momentânea não poupava delírios.
De repente, o barco tomou uma reta não paralela e foi. Foi, foi, foi, até sumir. Levou a “mulher dele”. Não, a “mulher dele” levou o barco. Não. O mar levou o barco e a “mulher dele”. E como nada ou ninguém consegue sequestrar devaneios, ele fechou os olhos e o cochilo no mormaço foi inevitável. Entregue a memórias, sonhos e reflexões.