terça-feira, 19 de janeiro de 2016

“Chico – Artista Brasileiro”, magistral filme de Miguel Faria Jr.

“Chico – Artista Brasileiro”, documentário de Miguel Faria Jr. com certeza vai para o Olimpo do cinema brasileiro. O Chico que o diretor exibe é engraçado, gozador, leve, intenso, banhado de bom humor e nem de longe parece um senhor que vai fazer 72 anos em junho deste ano.

O filme é simples como Chico, grandioso, elegante, travesso como Chico, um dos maiores talentos da história cultural do Brasil. É preciso dizer isso. Sim, é preciso dizer porque acho tola qualquer visão reducionista de pessoas múltiplas e geniais como Chico Buarque de Holanda.

Susana Schild, uma das maiores e mais consistentes críticas de cinema do Brasil, escreveu no Globo: “Chico - Artista Brasileiro” propicia um encontro privilegiado com um artista visto por ele mesmo na maturidade. Levando em conta a extensão, diversidade e genialidade da sua obra e o grau de intimidade obtido por Miguel Faria Jr., não há como deixar de aplaudir de pé.”

Luiz Fernando Vianna, Folha de S. Paulo – “Ganha-se a inteligência e o humor de Chico, ótimo contador de causos e privilegiado conhecedor da própria vida. Mas não se abrem muitas portas para surpresas ou assuntos incômodos, pois é ele quem está com a chave da narrativa.”

Raphael Camacho, Cinepop – “O filme foge de qualquer tipo de polêmica. É quase uma conversa de bar entre amigos. A naturalidade com que Chico vai contando suas histórias aproxima muito o público de cada sequência[...]”

O Chico Buarque que vi e ouvi na tela é idêntico ao que acidentalmente conheci em 1978, ano de “Cálice”. Eu era repórter da Rádio Jornal do Brasil e fui pautado para entrevistá-lo, o que aconteceu meio na correria, na hora do almoço. Na correria porque ele ia pegar um avião para São Paulo e, por isso, sugeriu que a entrevista fosse concluída no percurso entre onde estávamos (Botafogo) e o aeroporto Santos Dumont. Topei.

Descemos e ele entrou no carro, uma Brasília branca. Chico dirigia mal, muito mal, falava pra cacete (eu com o microfone perto da boca dele, que cena) mas conseguimos chegar ilesos no aeroporto onde o mulherio ficou em cólicas diante do ídolo. 

Sinceramente achei que elas iriam estupra-lo ali mesmo, houve até um certo empurra empurra. Foi quando Chico me pegou pelo braço e me perguntou “dá pra ficar na área até a hora do embarque?”. Claro. Ficamos tomando café, sempre vinham fãs, pediam autógrafos e a entrevista seguiu até o final. Ficou legal porque o tal Chico Buarque que eu achava caladão, monossilábico, não existe; o filme mostra bem isso.

Acabamos o café, ele já se preparava para embarcar quando perguntou “você se incomoda de pegar meu carro e levar para o estacionamento do Jornal do Brasil? Quando eu voltar dou um jeito de mandar buscar lá.” Me deu um chaveiro e perguntei “os documentos estão no porta luvas?, ele respondeu “acho que estão” com jeito de “não estão, meu chapa”, mas tudo bem, levei o carro sem problemas.
Uns meses depois ele veio assistir Marieta Severo no Teatro Municipal de Niterói, noite de sábado. 

Também fui assistir e no intervalo encontrei com ele no hall principal. Ele estava sozinho, meio deslocado, me aproximei ele lembrou e logo perguntou “onde tem um cafezinho por aí?”. Fomos andando até a estação das barcas onde funcionava o bar Snoopy, um muquifo sensacional que reunia a boemia pesada. Chico virou dois cafezinhos e acendeu um cigarro.

Ao longe, noite estrelada, um balão lanternado gigante voava em direção ao mar e Chico comentou “Niterói tem muito balão, né”, expliquei que o padroeiro é São João já com uma ideia de leva-lo até o Fonseca onde eu conhecia uns baloeiros que certamente deviam estar mandando obras primas para os ares.

Foi quando uma Kombi que transportava jornais começou a pegar fogo junto ao meio fio. Tumulto, confusão, Chico assuntando, eu também e, de repente, ele falou “vamos voltar para o teatro, quero buscar a Marieta”. Voltamos, ele entrou no teatro, disse “valeu mesmo, nos vemos por aí” e foi isso.

Não tive outros encontros informais com ele, só as raríssimas e caretaças entrevistas coletivas ao longo dos anos. “Chico – Artista Brasileiro” mostra esse Chico Buarque que, por poucos mas preciosos minutos, tive o privilégio de conhecer.

Grande filme!

Grande Chico!