domingo, 3 de janeiro de 2016

Lemmy, quando o homem encobre o ídolo - era tímido. Não escondia. Era junkie. Não escondia. Era generoso ao extremo. Isso ele escondia.

Lemmy se chamava Ian Fraiser Kilmister e morreu no último dia 28, aos 70 anos. Lutou contra um câncer e morreu dormindo. Era baixista, cantor e líder da super banda de metal Motorhead, nascida em Londres em 1975 e que lançou perto de 40 álbuns oficiais.

Ele foi roadie de Jimi Hendrix (roadie é o cara que ajuda a montar o equipamento, cuida dos instrumentos, etc) para quem comprava drogas. “Hendrix era generoso. Se eu comprasse 10, por exemplo, ele ficava com sete e me dava três”, contou, sério como sempre. Não era chegado a sorrisos, coisa de temperamento.

Lemmy era um sujeito solitário e melancólico, um dos últimos ícones do roqueiro tradicional. Na base do dane-se, viveu incorretamente até os últimos dias falando o que queria, bebendo o que queria, perambulando pelas ruas de sua adorada Los Angeles como um astro de Hollywood, só que sem máscara, capa ou maquiagem. Vivia solitário e caladão. Morava num casarão perto do Sunset Boulevard e costumava ir todos os dias ao bar Rainbow, onde tinha uma máquina de game à sua disposição.

Quieto, acendendo um cigarro no outro e bebendo uísque com Coca Cola ficava lá, num canto, jogando, jogando, jogando. Os fãs sabiam que ele passava no Rainbow pelo menos duas vezes por dia e iam lá. Os donos do bar preservavam Lemmy e pediam que só o abordassem depois do jogo. E era assim.

Lemmy era tímido. Não escondia. Era junkie. Não escondia. Era generoso ao extremo. Isso ele escondia. Ajudava a todo mundo, sem jamais mandar o garçom levar a conta depois. Seus maiores ídolos eram os Beatles, Elvis Presley e Little Richard, “um cara que era negro, gay e ainda por cima nasceu em Macon, na Georgia, estado racista até os cabelos”, costumava dizer.

Grandalhão, rude, primitivo, desajeitado, vestia-se de Lemmy em casa, na rua, nos bares, cassinos, nos palcos, onde empunhava, sempre, contrabaixos da marca Rickenbacker que ele tornava agressivos rebocando sua voz potente e suplicante. O homem estava sempre à frente do ídolo de milhões em todo o mundo e ninguém soube por que ele suplicava. Sempre. Mas ele sabia. Lemmy sabia de tudo, foi o mais lúcido dos doidões, um dos rockers mais limpos, honestos e autênticos da história.

Teve um filho que só descobriu anos depois. Fala do filho com o amor de quem parece ter convivido com ele desde o berço. O filho, chamado paul (30 e poucos anos), conta que sua mãe perdeu a virgindade com John Lennon nos anos 60. Na conversa gravada para um documentário, Lemmy diz que acha que tinha sido com Paul McCartney e afirma que George Harrison também estava louco para pegá-la. Na mesma conversa gravada, Lemmy diz com todas as letras, ainda ao lado do filho, que “a mãe dele foi um lance de sexo, rápido”. O olhar do filho é de admiração. Pelo pai que não mentia, não negociava e queria que os politicamente corretos se danassem.

Ele tocou no super grupo Hawkwind entre 1972 e 1974. Ia tudo muito bem. Quer fizer, não ia tudo muito bem. De tanto tomar drogas, Lemmy acordava tarde, atrasava a agenda do grupo e acabou sendo demitido. Por “vingança” comeu as mulheres de todos os integrantes e pegou, de novo, a dançarina Stacia, que nos shows do grupo ficava completamente nua na frente do palco. Ela era apaixonada por Lemmy que, inexplicavelmente, conseguia seduzir facilmente as mulheres. “É claro que eu transava com as fãs. Quem diz que não está mentindo”, dizia.

Lemmy Kilmister lembrava o lobo da estepe, personagem de Hermann Hesse. Honesto, errante e rico. “Todo mundo levou e leva muita rasteira no mercado. Quando vi Hendrix ser roubado na frente de todo mundo, aprendi. Posso dizer que sou menos roubado”, comentou o músico que, extraoficialmente, fez perto de 80 milhões de dólares ao longo de mais de 40 anos de rock. Puro e autêntico rock.

É isso aí.