sábado, 30 de janeiro de 2016

Lisérgicos devaneios no “Descaralation Valley”, Buzios, ao som de “Tales from Topographic Oceans”, obra-prima do Yes

O Yes é um do mais importantes grupos da história do rock. Até aí, nenhuma novidade. A boçalidade é a banda não ter saído de cena quando Chris Squire morreu de câncer, em junho do ano passado. Na minha opinião era ele o líder do grupo, o grande compositor e arranjador, que ao lado do cantor Jon Anderson (que nos anos 80 apelidei de Sandra por causa da semelhança de um colar de pérolas dele com o de uma conhecida política brasileira) e do guitarrista Steve Howe compuseram históricas antologias.

Hoje o Yes não passa de um antro de barangas oportunistas que como o mosquito da dengue/zika/microencefalia/dilma.com.br pousa aqui e ali molestando o legado da banda.

Sandra saiu e em seu lugar entrou um sujeito fricoteiro que não conheço. Rick Wakeman, pau a pau com Keith Emerson no quesito de melhor tecladista de rock, jazz e afins, também saiu fora e em seu lugar tinha entrado seu filho, que também saiu e hoje está um estagiário. No lugar de Chris Squire outra lenda do anonimato absoluto, um encagaçado baixista que não tem coragem de solar. Da boa formação só restam Steve Howe (69 anos, todas as guitarras, violões, banjos e afins) e Alan White (65 anos, bateria). Mas duas andorinhas não fazem sequer um inverno.

Em homenagem ao verdadeiro Yes (e não a esse paraguaio) declaro para os devidos fins que após uma imersão automobilística ouvindo a versão remasterizada do álbum “Tales from Topographic Oceans” passei a considerá-lo a obra-prima do Yes.

Já tinha notado mas agora tenho certeza de que a abertura dessa obra (o original ocupa os quatro lados do vinil duplo, sem interrupções, obra de quatro longas peças) é um belo manifesto beat. Não esperava isso de Sandra, o Jon Anderson, letrista chegado a um filé de jiló, mapa astral, esoterismo, ralação nas outras, aquela coisa meio bela gil. Mas quando você da play, um inesperado e genial vocal dispara um longo poema beat que parece incontrolável:

“Dawn of light lying between a silence and sold sources
Chased amid fusions of wonder
In moments hardly seen forgotten
Coloured in pastures of chance dancing leaves cast spells of challenge
Amused but real in thought, we fled from the sea whole

Dawn of thought transferred through moments of days undersearching earth
Revealing corridors of time provoking memories
Disjointed but with purpose
Craving penetrations offer links with the self instructors sharp and tender love
As we took to the air a picture of distance……(…)”

E por aí vai, ladeira acima, empenando tudo e todos. Pouco a pouco os instrumentos vão chegando e se juntando a essa maravilhosa orgia genuinamente progressiva que entrou para a história pela porta da cozinha.

Quando foi lançado em 4 de janeiro de 1974, a crítica fez beicinho. Na verdade não entendeu nada, nenhum segundo de 1 hora e 22 minutos de MÚSICA. Hoje, arrependida, a crítica tira o chapéu e atesta a genialidade do álbum.

Foi o último trabalho de Rick Wakeman no Yes. Ele ficou indignado por ter sido jogado para escanteio durante as gravações. Na época ele disse que “eu ficava horas no estúdio jogando dardos, sem ter o que fazer, enquanto Jon, Steve e Chris se trancavam para resolver as músicas”.

O antigo baterista Bill Bruford deixou o Yes um ano antes alegando razões parecidas, indo tocar no King Crimson. Houve também bate boca por causa do local da gravação: metade da banda queria gravar em um estúdio no interior da Inglaterra e a outra metade queria gravar em Londres. Foi decidido que o álbum seria gravado em Londres, no Morgan Studios.

Magoado com a decisão, Sandra, que tinha batido pé em prol da aventura rural, mandou que os técnicos do estúdio que o adaptassem o local colocando azulejos nas paredes da sala de gravação para "simular a acústica de um banheiro de fazenda". Mais: ele e alguns técnicos decoraram o estúdio com vacas de plástico, montes de feno e até um pequeno celeiro. As duas histórias foram confirmadas; a primeira pelo road manager da banda na época, Michael Tait, e a segunda por Ozzy Osbourne (que utilizava o estúdio ao lado para gravar com o Black Sabbath), em sua autobiografia.

Até segunda desordem os bons livros tem sempre razão.

Hoje, Jon, Wakeman e Brufford acham graça e reconhecem que “Tales from Topographic Oceans” é um álbum genial. Chris Squire consegue se superar em solos demolidores e fraseados impressionantes arrancados de seus baixos Rickenbacker 4001 estéreo. Ele usou seis, devidamente mexidos por ele. É o melhor trabalho de Steve Howe e seus solos esvoaçantes, livres, ágeis, secos e, apesar da indignação Rick Wakeman arrasa, principalmente no mellotron e Alan White, como sempre, brilha. Não foi a toa que anos antes estava em casa, o telefone tocou e do outro da linha uma voz dizia “Alan, é o John...Lennon...”. O baterista achou que era trote, mas era mesmo Lennon convidando para ele tocar na Plastic Ono Band. Depois engatou nas gravações do álbum “All Things Must Pass”, de George Harrison.

“Tales from Topograph Oceans” foi a trilha sonora de um de meus inesquecíveis verões. Eu estava passando fperias de 32 dias em Búzios, década de 80, numa casa na Ferradura que abrigava também um suíço (fugia do alistamento militar) e um canadense que viajavam há meses. Tinham saído a pé do México rumo a Terra do Fogo.

Profundos conhecedores de Carlos Castañeda, eles começaram a frequentar conosco um lugar que apelidei de “Descaralation Valley” onde tentávamos pescar (o mar era perigoso, os abismos também) o nosso almoço, sempre ao som deste álbum do Yes que tocava num som portátil em fita K7.

Os dois disseram que haviam descoberto um cactos de seis bocas parecido com o peiote descrito pelo índio Don Juan no livro “A Erva do Diabo”, de Castañeda. Cortaram vários pedaços de cactos, esperaram chegar a lua (não lembro se cheia, nova ou minguante), puseram num panelão e cozinharam por oito horas seguidas no fogão a lenha do lado de fora da casa, ao som de “Tales from Topograph Oceans”.

A noite a sopa foi servida. Não tomei porque tenho cagaço dessas coisas. Um ritual silencioso. Duas horas depois, as pessoas foram sumindo. Um (não cito nomes) chegou quatro dias depois, barbado, com fome, sede e conjuntivite dizendo que “vivo os dias mais felizes de minha vida”. Outro foi visto nadando na caixa d´água da casa de Betty Faria. 

O canadense também desapareceu sendo encontrado oito dias depois perto de Tucuns, num bacanal numa casa habitada por um bando de dançarinas de Macaé, completamente nuas bebendo Campari pelo gargalo. O suíço voltou três dias depois não se sabe de onde e o amigo que desceu a ribanceira de moto na noite do peiote foi encontrado desidratado e feliz na rodoviária de Cabo Frio dois dias depois.

Mas, sejamos francos. Depois de “Tales from Topographic Oceans” o Yes se atirou num vendaval de fiascos gravando um varal de mediocridades em sequencia, os álbuns “Relayer”, “Going for the One”, “Tormato” e “Drama”, só conseguindo por a cabeça para fora em 1983 quando lançou o surpreendente “90125”. Depois? Mais fiascos. Até hoje.

Por que o Yes não saiu de cena optando, como Greta Garbo, por acabar no Irajá?