quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O cacique Arariboia daria um grande filme

Com certeza o grande cacique Araribóia (significado: Cobra da Tempestade) e sua densa, tensa, riquíssima história, daria um belíssimo longa-metragem. Por isso, escrevo esse breve recado a diretores, roteiristas, produtores.

Há anos esse filme roda em minha cabeça. A boca da Baía de Guanabara na época (1565) lotada de golfinhos, botos, baleias, tubarões, estrelas do mar, muita, mas muita luz. Índias e índios aos montes, dezenas de batalhas, a morte a flechada de Estácio de Sá, as travessias que Arariboia fazia de canoa entre Niterói e Rio (Ilha do Governador) onde, com uma borduna, foi cobrar de Mém de Sá, o governador, as “terra vermelhas” que prometeu a Arariboia caso ele vencesse os franceses. E ele venceu.

Muita gente sabe, mas há quem tenha o direito de não saber que Arariboia e sua tribo vieram do Espírito Santo para ajudar os portugueses no combate aos franceses. Os franceses tinham do seu lado os também bravos tamoios, que mataram Estácio de Sá com uma flechada na enseada de Botafogo. Alguns historiadores atribuem a uma “flecha perdida” a morte de Estácio e acho que dessa forma ficaria até mais dramática a cena no filme.

Mas em se tratando de coragem, estratégia, Arariboia foi imbatível. O que queria em troca? Assim que a nau que o trouxe do Espírito Santo entrou na Baía de Guanabara, ele se apaixonou pelas "terras vermelhas da banda de lá", Niterói. E foi o que cobrou e ganhou dos portugueses.

Alguns historiadores dizem que Mém de Sá, governador, teria tentado empurrar o cacique com a barriga na hora de assinar a papelada doando as terras. Arariboia teria pegado sua canoa nas imediações de São Lourenço dos Índios e partido para o Rio algumas vezes a fim de cobrar do português o cumprimento da promessa.  Mém de Sá mandava dizer que não estava, que estava em reunião. 

Um dia, cansado de ser enrolado, nosso cacique teria dado uma espécie de pé na porta com uma borduna na mão e fez Mem de Sá literalmente se borrar todo. Se borrou e assinou a posse das terras.

Claro, as crises existenciais do cacique, que se questiona sobre o fato de índio matar índio (temiminós e tamoios) para salvar a pele de brancos (portugueses e franceses). O que não falta é gente altamente qualificada que, certamente, daria aos cineastas todos os subsídios necessários para a construção do enredo. 

Livros foram escritos, entre eles o excelente "Arariboia, o Cobra da Tempestade" do professor Luiz Carlos Lessa cuja narrativa é fascinante pelo tom de aventura e admiração por nosso cacique maior. 

Tempos atrás um diretor chegou a fazer um rascunho do roteiro, mas os altos custos o assustaram. Claro, Arariboia exige uma megaprodução. Fico imaginando a quantidade de pessoas que adoraria ver a história de Arariboia sendo contada na telona. Uma biografia capaz de levar os cineastas ao limite de seu potencial criativo. Afinal, estamos falando do único índio fundador de uma cidade, Niterói.

Mais: um enredo desses iria chamar a atenção de todo o país que, com certeza, iria se surpreender ao saber da existência desse índio-herói.
Por falar em herói, há tempos participei de uma mesa-redonda sobre Comunicação e lá pelas tantas disse que "minha cidade foi fundada por um índio guerreiro que está em minha galeria de heróis". Alguns deram risinhos debochados até que um monstro da História do Brasil saiu em minha defesa e fez um resumo de quem foi e o que fez Arariboia. Lembro que um dos colegas que dera risinhos acabou oferecendo a cabeça a guilhotina e concordou que com uma história de vida com tanta honra e bravura, "Arariboia merecia estar na galeria de heróis de todos os brasileiros". 

Vale a sugestão, caros cineastas?