sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Uma Kombi qualquer numa tarde qualquer

- Em seu depoimento o senhor diz que o motorista jogou a Kombi em cima dos pedestres de propósito e o veículo acabou atingindo o seu ombro.

- Sim.

- Em seu depoimento o senhor diz que deu uma cotovelada no vidro da frente da Kombi; em seguida arrancou o motorista pela porta e começou a surrá-lo impiedosamente no meio da rua.

- Não. Dei um soco no vidro e uma cotovelada no motorista. Ele pegou uma barra de ferro e saiu do carro. Foi quando o surrei.

- Até a morte.

- Sim.

- Também bateu nos dois guardas que tentaram te conter.

- Sim.

- Eles estão hospitalizados.

- Sim.

- Testemunhas confirmam que o motorista jogou a Kombi contra o senhor de propósito. Sabe por que?

- Não.

- Sabe o que vai acontecer com o senhor, né?

- Sim. Não vai acontecer nada.

- O senhor será preso, julgado, condenado…

- Vou ficar no máximo cinco horas na cadeia aqui da sua delegacia e depois responderei em liberdade. Serei absolvido.

- O que te garante tanta certeza assim?

- Sou rico. Ricos fabricam justiça. Sou inocente. Sou réu primário e tenho curso superior.

- Estudou o que?

- Comprei o diploma de economista em uma faculdade da capital.

O senhor é frio e arrogante.

- E o senhor parece não gostar dessa cidade.

- Como assim?

- Se continuar importunando vou mandar transferi-lo para o último distrito no norte do estado. O senhor acha que manda, já eu alugo quem manda no senhor.

- …levem esse cidadão para a sala especial. Ele ficará detido lá nas próximas horas…nada de celas, sala especial.

- ...até meus advogados acionarem quem manda.

- Só peço...só peço que o senhor saia pela porta dos fundos da delegacia...não quero ficar tão desmoralizado...e quanto...quanto a transferência, por favor esqueça. Esqueça.

E tudo foi esquecido.