quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Vivo numa cidade ecologicamente imbecil

                         O EV-1                                                                            
Praia de Icaraí, um dos IPTUS mais caros do Brasil
Imagem ilustrativa
Assisti no Netflix ao excelente documentário “Quem matou o carro elétrico”, de Chris Paine. O filme é de 2006 e mostra o nascimento e morte do EV-1, carro totalmente elétrico, produzido pela General Motors na Califórnia. Na verdade a GM queria fazer média com os ambientalistas mas a equipe de projetistas era de altíssimo gabarito e totalmente ideológica.

A GM não pôs o EV-1 à venda. Optou pelo leasing, um tipo de aluguel. As pessoas interessadas (entre elas os atores Tom Hanks e Mel Gibson) testaram o carro e se apaixonaram. O EV-1 era muito mais rápido do que os carros convencionais, não fazia barulho algum, poluição zero, não dava manutenção e no final do dia os “donos”, depois de rodar 90 milhas, ligavam na tomada da garagem e ele carregava, como um celular. Ou seja, o “problema” do EV-1 para a GM foi o fato dele ter ficado muito bom.

O filme mostra pressão de todos os lados. Cartel do petróleo, indústria de autopeças (fabricantes de filtros de combustíveis, óleos, fluidos, etc), Casa Branca, governos estaduais, prefeituras. O documentário conta que a mesma GM que pariu o EV-1 tinha sabotado e liquidado, através da GE, com o sistema de bondes elétricos que começava a tomar conta da Califórnia no início do século 20. Só restaram alguns em San Francisco.

A GM inventou um fracasso nas vendas do EV-1. Mentira, segundo a associação de consumidores do carro. Foram vendidos (aliás, alugados) todos os 90 carros produzidos e começaram a surgir filas de espera. O que a GM fez? Não renovou os contratos de leasing e saiu rebocando todos os carros de volta para os seus pátios, de onde eram levados para as prensas que os transformaram em sucatas. As imagens são incríveis: vários EV-1 sendo destruídos por serem...bons demais e não poluir e nem consumir combustível fóssil.

Houve manifestação, vigília na porta da montadora (cidadania na América de cima não é só ficar de mimimi no Facebook), protestos, mas não adiantou. Todos os EV-1 foram garfados e destruídos. Sobrou pelo menos um, de um colecionador, só que com o motor elétrico devidamente arrancado.

O filme termina cheio de interrogações. Afinal, lá se vão dez anos. Mas uma imagem fica: o Toyota Prius em frente a uma usina de eletricidade. Até hoje não sei como a Toyota conseguiu romper o esquema e produzir esse carro híbrido de dois motores, um elétrico e outro a gasolina (que carrega o elétrico) que faz 25 quilômetros com um litro. Mais: até hoje já foram vendidos dois milhões e meio de Prius no mundo (ele chegou ao Brasil em janeiro de 2013 mas ainda está caro, na faixa de 100 mil reais), abrindo as portas para Honda, Nissan, Ford e a própria GM pedirem arrego e lançarem os seus modelos não poluentes.

Um dia desses vi um Prius andando na orla de São Francisco em minha cidade, Niterói. Fiquei olhando aquele carro do tamanho de um Golf deslizando silencioso no asfalto e pensei no projeto político ecológico/ambiental da prefeitura para a cidade: nenhum. Não existe nada, absolutamente nada voltado para o plantio de árvores, recuperação de rios, preservação de encostas para conter a especulação imobiliária, favelização. Motoboys cortam os canos de descarga e ensurdecem a população com o barulho, ônibus, vans e caminhões vomitam fumaça preta e a prefeitura nada faz. Nada.

Lembrei do saudoso amigo João Sampaio que quando foi prefeito de Niterói (inicio dos anos 90) plantou uma gigantesca floresta embaixo dos acessos a ponte Rio-Niterói. João tinha um projeto ambiental para a cidade e com certeza iria dar um jeito de incentivar o uso de carros elétricos ou híbridos. Tenho absoluta certeza.

Se “Quem matou o carro elétrico” fosse sobre Niterói o culpado seria um só: a prefeitura que, apesar disso, tem uma secretaria de meio ambiente com secretario, sub-secretário, funcionários comissionados (entram sem concurso), enfim, um órgão que nada faz a não ser devorar os nossos impostos. É por essas e por outras que quando digo (e escrevo) que Niterói é uma cidade ecologicamente imbecil, os opositores dela (da cidade), que ironicamente estão no poder, ficam magoadinhos.

É isso aí.