quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Quando Pragmatismo bateu na minha porta




1994? Pode ser. 1991? Também pode. Como pode ter acontecido em 1997, não sei precisar, mas aquela manhã morna foi inesquecível. Uma manhã de sábado, nublada, quase abafada. Devia ser 11 e meia e eu lia os jornais esparramado no sofá da sala. 

Meu interfone interior estava desligado e, talvez por isso, quase me assustei quando ouvi as três batidas na porta. Batidas fortes, secas, precisas, decididas. Deixei o jornal de lado, levantei e fui abrir.

Em frente a porta, um sujeito que não era risonho, mas também não fedia a antipatia. Não se fazia de íntimo mas parecia me conhecer muito bem. Como uma flecha foi direto ao assunto.

- Chegou a hora de me conhecer, meu chapa. Muito prazer, eu me chamo Pragmatismo e certamente você já ouviu falar de mim. Aliás, falam muito mal de mim por aí, mas como bom pragmático, ignoro.

Pragmatismo entrou, vestia calça jeans e uma camiseta preta. Calçava botinas de couro. Caminhou devagar olhando as estantes de disco e livros que eu mantinha na sala. Não comentou. Foi até a janela, olhou para fora, pigarreou e sentou na outra ponta do sofá.

- Não vai oferecer um café?, perguntou.

Levantei e fui fazer. Café solúvel. Bebi o meu na cozinha mas o de Pragmatismo levei numa xícara, explicando que eu gostaria de servir um café turco mas não sabia fazer.

- Não importa, disse o visitante. O importante é que temos o café possível e não o ideal. E o possível é sempre mais fundamental do que o sonho. E é por isso que estou aqui.

Calado, eu acompanhava o ritmo levemente acelerado da fala daquele sujeito atonal que, eventualmente, passava a mão nos cabelos mas que em nenhum momento demonstrou indecisão, insegurança. Ele prosseguiu:

- Você finalmente amadureceu. Graças a muita porrada que você não conta para ninguém porque acha que o bom cabrito não berra. Quer saber? Você está certo. O bom cabrito não berra mesmo não. Plateia nenhuma merece assistir ao espetáculo do nosso sofrimento. Mais: você amadurece cada vez que abre mão de ideias pueris em prol de fatos concretos, mas sem aquele banho de prata vagabunda que os imaturos dão.

Comecei a entender.

- É bom mesmo que você fique quieto porque hoje quem fala aqui sou eu, o tão decantado e esculachado Pragmatismo. Bem, rapaz, a sua maturidade significa que você vai começar a considerar a possibilidade de achar que ser cabeça de sardinha é melhor do que bunda de baleia. O que acha disso? Acha aviltante, ofensivo, papo de babaca trocar o bundão da baleia pela cabeça da sardinha só porque sardinha é pequena? Ou acha que cabeça é cabeça, não importa como, pragmaticamente falando.

Quantas vezes você abriu mão de projetos de vida que não julgava serem ideais. E lá vem ele de novo, ideal, ideal, ideal, essa coisa que não existe. Não existe, rapaz! Não existe mulher ideal, trabalho ideal, vida ideal. O que existe é o possível que a gente transforma em ideal. O possível exige que a gente jogue com a bola no chão porque o jogo é de botão. A vida não é para amadores, príncipes encantados, fadas madrinhas. A vida é mel e fel.

Você deve estar se perguntando por que escolhi visitá-lo hoje. É que nos últimos tempos você tem demonstrado “desilusões” com as ilusões e isso é absolutamente do cacete porque quem se desilude com as ilusões começa a surfar a onda do real. E a onda do real é, foi e sempre será a mais concreta, sensacional e segura porque é REAL. REAL, meu camarada!

Quando você disse naquela roda de amigos, meses atrás, que não briga mais com ninguém, parecia eu falando. Quem briga é amador. E não existe nada mais melancólico do que amador existencial. Existe? Ah, sim, os amadores da vida tem promotores e juízes sentados em seus tribunaizinhos julgando e condenando em vez de estarem tocando a vida.

Eu ainda tenho muito o que falar com você, especialmente quando você disse que o rei da música brasileira pareceu tolo ao cantar que quer ter um milhão de amigos. Doce ilusão. Doce não, amarga, ruim, péssima, porque ilusão é o que há de pior.

Já vou indo, mas volto. Continue assim: não recuse o que surge porque não é do seu agrado pueril. Continue avaliando o que vai ganhar, crescer, evoluir e depois, quem sabe, abrir um jardim de infância para educar as suas neuroses de menino. Boa ideia, não?

Até breve.