terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Contemplava uma morena boa pra cacete que manuseava bananas orgânicas num supermercado moderninho, pensando que quando me afasto da música o vento sopra de sudoeste

                                   Bunker da Rádio Fluminense FM, em 1984: Liliane Yusim, Alex Mariano, Alvaro Luiz Fernandes, Hilário Alencar, Paulo Sisinno e eu
Conheço um supermercado moderninho, cheio de produtos naturais e mulheres de todos os tipos: belas, gostosas, interessantes, gulosas, ávidas, tênues, robustas, naïf, etc. etc. etc. Durante um bom tempo, semi-hipnotizado, fiquei contemplando uma morena boa pra cacete manusear suavemente bananas orgânicas, como se fossem lâmpadas de Aladim. Bananas d´água ainda por cima. Que coisa.

Simultaneamente, pensava na vida. Na vida de todo mundo. A morenaça ronronando para as bananas me lembrou do meu giga amigo Alex Mariano Franco. Caramba, que saudade desse cara. Que saudade! Alex era o rei dos apelidos. Conheço umas 10, 20 pessoas que foram apelidadas por ele e nunca mais se livraram dos codinomes/tatuagens. Meu amigo desde a adolescência, ele conheceu meu “braço armado” quando foi fazer comigo a Rádio Fluminense FM, em 1981, quando o trabalho começou. 

Inicialmente ele me apelidou de Luiz Antonio Mulla (com dois L) por causa de meus coices que ele dizia serem “alegóricos” e, também, de “imperador Bokassa”, referência a Jean-Bédel Bokassa, hediondo ditador africano que de meados dos anos 1970 até 1985 cometeu genocídio e até canibalismo quando esteve no poder.

Quando Alex me chamou de “Bokassa” pela primeira vez (eu quase tinha saído na porrada com alguém que não me lembro, momentos antes), dei um coice no meu querido amigo. “Alex, Bokassa é o caral...! Luiz Antonio Mulla pode, mas Bokassa nem a pau!”. Ele não perdeu a pose: “e amado chefinho, pode?” Foi o apelido que pegou.

Sempre lembro do Alex porque ainda não pude chorar a sua morte vil, canalha, covarde como deve ser chorada. Ele me dizia, sempre debochadamente, “amado chefinho, quando você para de ouvir música entra em TPM e sobra pra gente”. Tinha razão, o grande Alex.

Tempos atrás me afastei da música e quando percebi o mar tinha virado, ventos de sudoeste começaram a soprar forte e eu me vi diante de ondas de 20 metros de alturas, aquelas de Maverick, Califórnia, com uma prancha pequena, de madeira. Como no filme “Tudo por um Sonho”

Não são as maiores ondas que tive que encarar, mas me deram trabalho. Surfei-as com o desasossega vizinhos “Quadrophenia”, do The Who, que ouvi no computador turbinado por amplificação Edifier que meu irmão e meu sobrinho me deram de presente tempos atrás.

A medida em que a guitarra lancinante de Pete Townshend, a bateria extraterrena de Keith Moon, o baixo desesperadamente genial de John Entwistle iam engolindo os 17 andares de meu prédio, fui acalmando, acalmando, acalmando e sentei para escrever.

Fato é que deixei de ser Luiz Antonio Mulla em 2008, quando, sem saber, fui trabalhar num escroque calabouço corporativo que cismou de me domar. Não prestou. Nem os 12 anos e varada de governo em Niterói, onde fui  presidente de uma fundação de arte e depois de uma empresa de turismo, eu aliviei nos coices. Ao contrário. Aí que eu tive que mandar chumbo mesmo porque política não é para babaca. Se você não chuta antes acaba linchado. Não dá para caçar borboletas na Síria do Estado Islâmico cantando “pela estrada afora eu vou bem sozinho...”

Por isso, prometi dois anos atrás a meu amigo L.G. Bayão: “Prometo as zaralhadas de leitores aqui deste blog, mas ESPECIALMENTE A VOCÊ (em maiúsculas) que NÃO VOU MAIS ABANDONAR A MINHA MÚSICA, que vai de rock and roll existencial até bossa nova da região de meu amigo e padrinho de estúdio Roberto Menescal, via Egberto Gismonti, Badi Assad, André Geraissati e similares.

Continue dando coices aí que eu respondo daqui. Sem coice não dá, meu amigo. Uma vez, um déspota me enviou um corvo-correio (estafeta dele) com a mensagem “de concessão em concessão viramos Conceição”. 

O canalha tinha razão.