sábado, 13 de fevereiro de 2016

O piano de Keith Jarrett trouxe Colônia para dentro de nós

                                                                       
                                                                                 
                       Criador, criatura
                                                                             
                           Visceral
                                          Genial                                                                          
O disco instrumental que me deixou de joelhos na primeira vez que ouvi chama-se “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, gravado no Opera House em Colônia, Alemanha, em 24 de janeiro de 1975. Ou seja, o concerto que virou disco (lançado em setembro de 1975) acachapante fez 40 anos de idade ano passado.

Não conhecia bem Keith Jarrett e foi só em 1981 que ouvi “The Köln Concert”. Foi como se um tufão rompesse os meus rochedos emocionais. Todos eles. Era um LP duplo, importado (gravadora ECM, da Alemanha) que ouvi um dia inteiro em casa e numa cópia em fitinha K7 que fiz, a bordo de meu Fiat 147 Europa. O álbum vendeu quase quatro milhões de cópias e é o disco de piano-solo mais comercializado na história da música.

Até hoje esse disco me joga inteiro no lascivo mundo dos devaneios. A solidão do piano de Jarrett, totalmente entregue a música a ponto de gritar algumas vezes ao longo do concerto é algo que não vai acontecer de novo. Por mais que seja desejado, planejado, ensaiado, “The Köln Concert” é um raio que não vai cair duas vezes no mesmo lugar. Aliás, em lugar nenhum. Nem que Keith Jarrett queira. Eu o assisti ao vivo duas vezes, concertos sublimes, mas longe do stral de "Köln".  

A música arrasta os gênios. Jarrett se deixou arrastar naquela noite de 24 de janeiro de 1975 em Colônia, sem medir consequências. A gravação do álbum foi marcada por algumas confusões, pianos trocados, mas se tornou uma obra tão profunda, visceral, fundamental que ganhou o reconhecimento mundial. Um disco que está muito à frente de 1975, de 2016, do ano 3000, porque flagra a essência da liberdade, um momento muito raro em todos nós.

Anos depois, eu iria participar de entrevista coletiva de Keith Jarrett no Rio que acabou sendo cancelada. Tinha (e tenho) muita vontade de falar com ele sobre “The Köln Concert”, mas, como todo mundo sabe, o músico é encrenqueiro, daqueles que interrompem o concerto por causa do zumbido de uma abelha. Mesmo que a entrevista acontecesse, não daria para conversar sobre aquela distante noite de Colônia.

Amigos e colegas meus, que já estiveram com ele, dizem que Jarrett é arrogante, antipático, mas é a tal história, o cara é gênio e gênio pode tudo. Pode? Pode sim, eu acho, ou como diria Caetano Veloso, “pode sim, ou não.” Fato é que se aquele entrevista tivesse existido eu tentaria não iria falar da agenda de Jarrett naquele dia/semana/mês, e sim de Colônia, Alemanha, 24 de janeiro de 1975. Eu queria ter estado lá. Muito. 

Mas o poder do músico fez Colônia vir até mim (e a milhares de outros brasileiros) dentro deste álbum duplo de vinil, que guardei até 80 e tal. Depois comprei em CD que ouço nesse exato momento, com os olhos ardendo, a garganta levemente seca, porque é assim que a música serpenteia a minha emoção. E a música pode tudo. Inclusive parir a abstração profunda e genial, para sempre genial de “The Koln Concert”, de Keith Jarrett.