segunda-feira, 28 de março de 2016

A onda que se ergueu no mar

                                                 Ipanema, 1940.
"No dia em se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céu azul, mar limpo e seis meses de verão". (Ruy Castro).

Em tempos de cólera faz bem a alma ler "A onda que se ergueu no mar", um livro antigo do Ruy Castro (é de 2001), um verdadeiro poema para o Rio de Janeiro que amo, mas que não conheci pela mais inquestionável das razões: não era nascido.

A personagem principal dessa obra é a bossa nova, movimentação cultural que surgiu numa fase do Brasil encravada entre o suplício representado pela era varguista, a boçalidade janista, o baixo astral apático do janguismo e o golpe de 1964. Coisa linda era o Rio nos anos 1950, início de 60. Coisa maravilhosa era a bossa nova, capaz de ver mais beleza onde de fato já havia beleza, a contemplação dos olhos verdes da morena e seu biquíni "ousado" em 1960, que hoje daria para fazer um paraquedas. 

Não li esse livro na época, apesar de ter ido ao lançamento só para dar um abraço no Ruy Castro. Ele me olhou fixo, não me reconheceu no ato, mas depois lembrou de um repórter da lendária da Rádio JB em 1974, magro pra cacete, cabelos encaracolados na altura dos ombros, roqueiro, que uma vez acendeu um cigarro dele. Esse repórter era eu. Ruy era repórter do Jornal do Brasil e, ele não sabia, era um dos meus ídolos porque tinha acesso aos bossanovistas, apesar de detestar rock, até hoje. E eu sempre adorei a bossa nova e seus personagens. Não li "A onda que se ergueu..." aquela época porque optei por sorvê-lo bem devagar um dia. E esse dia chegou.

Minha relação (só pode ser mediúnica) com o Rio daqueles tempos é tão comocional que na noite de ontem, lendo o livro, uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo. Vadia emoção. Bateu saudade de meu tio Evaldo, irmão de minha mãe, que também era enfronhado entre os bossanovistas e mais tarde tropicalistas. Tio Evaldo era pura vanguarda, pura arte, puro bom gosto e quando ia lá em casa eu o enchia de perguntas. Sim, foi ele quem me "aplicou" de bossa nova.

Quando conheci meu padrinho de estúdio*, Roberto Menescal, em 1984, chutei os protocolos e pedi: 1 - um autógrafo; 2 - que um dia fôssemos ao Veloso (bar) e, lá, tirássemos uma foto abraçados. Queria ter comigo a lembrança de um dos pais da bossa no bar-berço da bossa nova. Um dia fomos, hora do almoço, o garçom tirou a foto na mesa em que Tom, Vinícius e Menescal costumavam sentar. A foto ficou linda, linda, mas na famigerada mudança (lambança) de endereço que fiz ela se perdeu. Mas, não quero embaçar o astral, falar da bela foto perdida e da mudança que não quis fazer. Há muito o que falar do Menescal. Muito. E escreverei um dia desses.

Sobre "A onda que ergueu no mar", aqui vai um texto da editora Companhia das Letras:

"As andanças de Tom Jobim pelo mundo; o longo verão de Brigitte Bardot em Búzios; a 

trágica história de Orlando Silva; as vidas paralelas de Dick Farney e Lucio Alves; céus e 

mares de Johnny Alf e João Donato; samba e swing no Beco das Garrafas; com Nara Leão 

em Copacabana; ao redor do pijama de João Gilberto - em A onda que se ergueu no mar

Ruy Castro conta novas histórias da música que voltou para conquistar uma nova geração. 

Hoje ela talvez seja mais ouvida do que em 1961, em salas de concerto, teatros, boates, 

bares, clubes, escolas, estádios, sem esquecer os elevadores e as salas de espera, os 

comerciais e as trilhas de filmes e novelas. Em discos também: nunca se ouviu tanta 

Bossa Nova em São Paulo, Nova York, Paris, Sydney, Tóquio. E quem se dispuser a entrar em todos os sites brasileiros e internacionais dedicados à Bossa Nova, arrisca-se a morrer de velhice antes de sequer arranhar a superfície.


Com Chega de saudade, de 1990, Ruy Castro foi um dos responsáveis por essa volta. Mas ali a história se encerrava por volta de 1970, quando a Bossa Nova foi dada como morta. 

Ruy mergulhou de novo no assunto - mas agora para falar da volta de uma música que, como as ondas, só esperava o momento de dar de novo à praia."

* Padrinho de estúdio é a pessoa que apresenta um estúdio de gravação a um produtor de primeira viagem. Quando dirigiu a gravadora Polygram (hoje Universal), Menescal contratou Celso Blues Boy por meu intermédio, mas colocou uma condição: que eu proudizisse o disco. Eu disse que nunca tinha produzido um disco e Menescal (otimista visceral) mandou "ora, voce tira de letra, nasceu em rádio". Topei. Ele me levou ao monumental estúdio Um da Polygram (24 canais em 1984), olhou para o engenheiro, tecnicos e disse "esse é o Luiz Antonio Mello que vai produzir o Celso Blues Boy". E foi embora! Segurando as gargalhadas.Querem saber? Ele fez bem. Aprendi produção fonográfica fazendo e me orgulho muito de "Som na Guitarra", álbum de estréia do Blues Boy.